Powers Images/Invision
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O pop subversivo e contraditório de Drake

Em novo disco, rapper canadense faz música de batidas fortes e curvas suaves

Rafael Abreu, O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2013 | 21h59

Faz quatro anos que Aubrey Drake Graham não interpreta Jimmy Brooks - o jogador de basquete de Degrassi: The Next Generation, uma espécie de Malhação canadense - mas não é raro que seja tachado de "mole" demais para o ramo em que trabalha. De acordo com quem o desqualifica, fãs xiitas (ou nem tanto) de rap, Drake faz hip hop de mocinho, música para não iniciados, cantada de joelhos e dada de bandeja ao ouvinte. O problema, aparentemente, é que ele é pop demais para rimar.

Pelo menos uma dessas premissas deve estar certa, porque é difícil conseguir o posto de segundo disco mais vendido do ano sendo um fenômeno de nicho. Com 658 mil cópias vendidas em sua primeira semana de lançamento, Nothing Was the Same, o terceiro álbum do rapaz, só perde em venda para The 20/20 Experience, o retorno triunfal de Justin Timberlake.

Nem lá nem cá, Drake é interessante tanto pelo que é (pop) quanto pelo que não é (um macho alfa tradicional). Inserido num gênero musical em que a misoginia e a homofobia são a regra, o artista canadense se torna um calo por fazer música sensível, palatável, acessível, de batidas fortes, mas curvas suaves. "Algo entre o psicótico e o icônico, entre o 'Eu quero' e o 'Eu tenho'", a coisa mais longe da perfeição, como canta em Furthest Thing, uma das melhores do disco.

O engraçado é que, mesmo dentro de uma narrativa menos pé-na-porta do que a maioria de seus pares, Drake não abre mão de arrogâncias e sexismos estereotipados. Em Wu-Tang Forever, uma das músicas mais melancólicas do disco, ele fala de uma mulher como um objeto, algo que ele possui ("Sou toda sua", sempre disse uma amizade colorida) para, na faixa seguinte, Own It, se desfazer em dengos. Da próxima vez que os dois transarem, canta, não quer que apenas transem: quer fazer amor.

É esse tipo de guarda baixa, uma espécie de capitulação no contexto de uma personalidade dupla e ambígua, que faz o disco tão interessante. Drake se gaba, ostenta riquezas, força o muque e se autodeclara o melhor como todo rapper, mas faz isso com um espaço considerável para a falha, a sensibilidade, as desculpas. Num movimento constante de puxa-empurra que não se reduz às letras do disco, é comum que Drake rime ao mesmo tempo em que canta, numa técnica manhosa entre a melodia e o ritmo. É assim que liga o pop ao radiofônico, o bom e agradável ao vendável, ao sucesso de vendas.

Em todas as faixas há pequenos ganchos, recortes melódicos que se desenrolam vagarosamente, repetitivos e macios como todo o disco, mas em algumas faixas essa dinâmica dá singles perfeitos, faixas cujas forças se funcionam tão sós (na rádio) quanto acompanhada (no disco). É o caso de Hold On, We're Going Home, um petardo sintético oitentista de amor esperançoso e pueril cantado no melhor timbre de bom moço do rapaz, facilmente uma das melhores faixas do ano.

Numa entrevista, Drake disse que, quando produziu Nothing Was the Same, queria que fosse um disco que, daqui a dez anos, pudessem tocar num casamento. Não é para tanto, mas é esse tipo de meta que o faz tão contraditoriamente subversivo. De dentro do status quo, fazendo música almofadinha, mas nem tanto, grosseira, mas nem tanto, fez do disco o que deveria ser: uma obra pop completa, de assinatura específica e alcance generalizado.

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