Juvenal Pereira/ Divulgação
Juvenal Pereira/ Divulgação

O poeta e o seu lado cantor

'Não me parece tão estranho assim formar uma banda para gritar, uivar e falar meus poemas'

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2013 | 08h45

Pinga-fogo com o poeta Ademir Assunção, que faz neste sábado o show de estreia do disco Viralatas de Córdoba:

Você disse uma vez que não se considera um cantor. Mas também não abre mão de fazer música, de fazer turnês, de estar na estrada com uma banda. Por quê?

Pode parecer estranho um poeta a frente de uma banda, mas a estranheza sempre marcou minha vida e minha linguagem. Talvez eu seja um patinho feio no plácido lago da poesia. Não tive uma formação poética acadêmica. Minha poesia sempre foi muito impura, influenciada tanto pelos livros quanto pela música. Cresci lendo Rimbaud, Cruz e Souza, William Carlos Willians e ouvindo Bob Dylan, Lou Reed, Cartola. Por isso não me parece tão estranho assim formar uma banda para gritar, uivar e falar meus poemas. Tenho consciência que não é uma linguagem facilmente assimilável. Mas ela existe, está no mundo, para quem quiser ouvi-la.   

Você costuma dizer que a poesia é fruto de uma batalha. O poeta talha o verso com pedra lascada/Primata astuto/Ladrão convicto. Como define então a incumbência de trazer a poesia para um público de show, de concerto musical?

Itamar Assumpção canta em uma de suas canções: já tive muitos critérios, hoje só vários delírios. Não sei definir o que estou fazendo. Tenho meus critérios no momento da criação. Tem muitos anos de estudos, de experiências, de buscas, para chegar nisso que estou fazendo. Mas não quero definir nada. Não tenho compromisso com sucesso, com dinheiro, com show business. Faço o que faço e pronto.

Você cita um verso de Reubes Pess, como é divino o nosso espírito e tão covarde a nossa mente. Sua produção poética se coaduna com aquilo que dizia Rimbaud, que "o poeta se faz vidente por um longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos"?

Pessoas não foram feitas para viverem vidas medíocres. Sejam elas poetas, carpinteiros, agricultores ou engenheiros. A experiência humana é breve demais para reduzi-la somente ao fetiche do carro do ano, do apartamento mobiliado ou das premiações do Multishow. Tudo bem: todos querem algum conforto, mas se tornar escravo desses cantos de cisne é um desperdício de vidas humanas. A poesia e a arte em geral nos lembram que viver é muito mais que isso.

Porcaria na cultura/Tanto bate até que fura. Seu verso faz crer que você acredita que exista um nivelamento por baixo na cultura brasileira. O que causa isso?

Existe uma máquina em pleno funcionamento para nos emburrecer. A televisão é o maior exemplo disso. Mas não só. O pensamento, as ideias, as percepções mais aguçadas estão sendo sonegadas ao público. Mas acredito que estamos no limiar de uma nova época de grandes rebeldias. Os protestos recentes de rua talvez sinalizem essa direção. Não é possível suportar um ambiente tão claustrofóbico durante tanto tempo. A qualquer momento pode surgir uma nova geração com sangue quente pulsando nas veias. Torço para que isso aconteça.

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