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O poeta Cazuza está (bem) vivo

Cantor é tema de musical que estreia no Rio e de exposição no Museu da Língua Portuguesa a partir do dia 22

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S. Paulo

03 de outubro de 2013 | 19h48

Emílio Dantas foi sem nenhuma fé fazer o teste para o papel de Cazuza (1958-1990) no novo musical dirigido por João Fonseca. Foi o amigo diretor, com quem trabalhara em Rock in Rio, que o convidou, mas ele duvidou: “Eu?”

O ator chegou sem ter decorado o texto todo, mas com atitude roqueira. Cantou a agridoce Codinome Beija-Flor e a irada Brasil. Foi então que Fonseca, o autor, Aloisio de Abreu, e a mãe de Cazuza, Lucinha Araújo, entreolharam-se: “É ele”.

Inúmeros vídeos no YouTube, 40 dias de ensaio e muitas perucas depois, ele estreia no Teatro Net Rio. “Não tenho nada a ver fisicamente com o Cazuza, nunca trabalhei minha voz para chegar à dele, mas acho que cheguei na vibe dele”, conta.

A temporada de Cazuza - Pro Dia Nascer Feliz, O Musical no Rio coincide com a exposição Cazuza Mostra sua Cara, a partir do dia 22 no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Se na peça as músicas forjam a narrativa – a descoberta do talento artístico, o rock, a popularidade com o Barão Vermelho, as brigas, a carreira solo, a Aids, a urgência dos últimos momentos –, a mostra foge das pontuações biográficas.

“Parti da poesia e da canção”, conta o curador, Gringo Cardia. “Ele era um jovem inconformado como os que vimos nas ruas em junho. Acabamos de conceituar a exposição e, uma semana depois, o Brasil tinha mudado. Vimos cartazes com frases de Cazuza, como ‘meu partido é um coração partido’ e ‘ideologia, eu quero uma pra viver’.”

Será o primeiro compositor a servir de tema a uma exposição no museu, que já retratou alicerces da literatura brasileira, como Guimarães Rosa e Clarice Lispector. A maior parte do público – cerca de 70%, ou 40 mil visitas mensais – são estudantes, e, por meio da construção poética de Cazuza, com a interatividade que é a marca da instituição, a mostra vai falar diretamente a eles. Ele explica que o romantismo – de Preciso Dizer que Te Amo, Exagerado e Faz Parte do Meu Show – e a contestação – O Tempo Não Para, Burguesia, Blues da Piedade – são caminhos para conquistar esse público.

No Rio de Janeiro, esses e outros hits da curta carreira de Cazuza estão na peça. Aloisio de Abreu, que, como Cardia, é da geração do compositor, apresenta um Cazuza ícone da poesia contemporânea, mas também do deboche, das noitadas de bebedeira, da dor de cotovelo. “Está tudo lá. O João tem um dom de fazer as coisas ficarem leves”, comenta Abreu. Foi assim que o diretor fez no musical sobre Tim Maia: até a maratona de uísque, maconha e cocaína do cantor foram retratadas com humor.

Susana Ribeiro, que faz o papel de Lucinha, foi até a própria na Sociedade Viva Cazuza – instituição no Rio para crianças e adolescentes carentes com Aids que recebe toda a renda dos direitos autorais do compositor. A missão de Susana é difícil, dada a Lucinha em toda sua maternidade amorosa vivida por Marieta Severo no cinema em Cazuza – O Tempo Não Para.

Emílio Dantas preferiu não assistir à elogiada performance de Daniel de Oliveira no filme de Sandra Werneck e Walter Carvalho. “Achei que nunca mais apareceria um Daniel de Oliveira, mas ele é tão bom quanto. Canta muito bem e pegou todos os trejeitos”, diz Lucinha.

Ela participa de todas as iniciativas que dizem respeito ao filho – como a homenagem feita na abertura do Rock in Rio, dia 13. Serve como consultora no projeto que levará a imagem dele em holograma, tal qual foi feito com a de Renato Russo, a um show com parceiros como Nilo Romero, Guto Goffi, Arnaldo Brandão, George Israel e Leoni. A turnê deve começar em São Paulo no fim do mês que vem e seguir por três cidades.

Em 2008, quando Cazuza faria 50 anos, Lucinha não conseguiu levar adiante o tributo que tinha em mente. “Pensei num ‘Cazuza Sinfônico’ com a Orquestra Sinfônica Brasileira, mas não foi para frente. Se não consegui fazer muita coisa nos 50 anos, faço agora, nos 55.”

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