The New York Times
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O pianista Muhal Richard Abrams dá show de criatividade aos 84 anos

Músico norte-americano faz estreia no Brasil em excelente apresentação nostálgica em São Paulo

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2015 | 04h00

Durante 50 minutos, um fluxo musical contínuo e aparentemente desordenado jorrou do Steinway pilotado pelo arqueado Muhal Richard Abrams, de 84 anos. Seus passos hesitantes até alcançar o instrumento deram a impressão de que sua estreia no Brasil seria meio nostálgica. Nada mais distante da energia e vibração de um músico completo, no auge de sua competência física e mental.

Em 1965, ele mostrou como um grupo de músicos pode instituir formas independentes de produção, criação e sobrevivência artística num universo dominado pelas implacáveis regrinhas capitalistas – o que dá lucro, o que vende, é bom; o que inova é condenado ao desaparecimento. Uma gravadora como a ECM de Munique, por exemplo, só conseguiu espaço e criar mercado para este tipo de música por causa do pioneirismo de Abrams e seus parceiros de AACM – Anthony Braxton, Henry Threadgill, Leroy Jenkins, Roscoe Mitchell, Joseph Jarman, Malachi Favors e George Lewis, entre tantos outros militantes da liberdade criativa.

A hoje célebre AACM – Associação para o Avanço dos Músicos Criativos, que em 2015 comemora seus 50 anos, provocou a abertura de novos espaços para a música criativa improvisada sem adjetivo. Apenas a liberdade individual de criar, mesmo, ou sobretudo, quando se toca em grupo. Naturalmente, isso produz sons nem sempre friendly a ouvidos habituados à banalidade.

Abrams começou com uma só nota grave, um poderoso pedal (som repetido na região grave do instrumento, sobre o qual é construída a estrutura melódica e harmônica da composição) repetido solenemente três ou quatro vezes. Daí em diante, sob aquele pedal onipresente, Abrams erigiu um monumento pianístico, ora trabalhando intervalos dissonantes ora trêmolos expressivos, até mesmo reminiscências longínquas de células rítmicas e/harmônicas jazzísticas quase imperceptíveis.

Quando se sentou para tocar, Abrams criou no instante, improvisou. Terminada a performance, a produção informou que ele lhe dera o belo título Tribute to truth in all of its worlds. Clusters (batidas com os punhos, mãos abertas e antebraços sobre o teclado, gesto típico da música contemporânea dos anos 1950/60), ostinatos obsessivos. E técnica, uma técnica pianística e energia espantosa num senhor de 84 anos.

Músicos originais como Abrams não gostam da palavra jazz. Preferem dizer que exercem sua liberdade criativa no dia a dia, cada vez que começam a tocar. Por isso, exigem uma escuta ativa, atenta – e não a escuta descuidada de quem quer apenas um “papel de parede” sonoro, já dizia mestre Satie. Depois de aplausos entusiasmados de uma plateia antenada, que chegou à metade da lotação do teatro do Sesc Pompeia, Abrams retornou e fez um improviso mais “lírico”, digamos assim. Cinco minutos mais ternos, porém igualmente complexos. A segunda e curta parte do tributo à verdade da música do nosso tempo.

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