O paraense Marco André moderniza o carimbó

Como o DJ Dolores em Pernambuco e Ramiro Musotto na Bahia,entre outros, o paraense Marco André é um desses misturadoresinquietos que combinam ritmos regionais urbanos com eletrônica,derivando uma terceira substância. Com o CD Beat Iú(independente), produzido em parceria com o tecladista SachaAmbach, Marco expande a trilha aberta com Amazônia Groove (2004) em que coloca a música do Norte brasileiro "num contexto demundo". Acompanhado do Trio Manari, ele reúne o conteúdo dosdois bons CDs em temporada às quartas-feiras no Blen Blen numshow para ninguém ficar parado. As intenções sonoras do compositor e cantor se expressamno bem-humorado título, que faz trocadilho com pitiú, termoregional relacionado ao forte cheiro de peixe. "Nunca fui umcompositor voltado exclusivamente para o aspecto regional", dizo vencedor do Prêmio Tim de 2005 nessa categoria como cantor.Morando no Rio há 20 anos, Marco foi revelado em 1990 no tema deabertura da novela Meu Bem, Meu Mal (Caetano Veloso), de seuprimeiro álbum. O romantismo do folhetim ele preserva em poucasbaladas do novo trabalho, mas seu forte é a base rítmica docarimbó. "Na época não havia espaço para a música moderna que agente faz hoje. Era pop americano e Sullivan & Massadas", lembraFoi integrante da ala de compositores da Portela Marco então passou anos produzindo discos alheios e atéintegrou a ala de compositores da escola de samba Portela. Umdia experimentou colocar beats eletrônicos no carimbó num show e diante da aceitação de quem ouviu, decidiu engrenar por aí."Sempre tive vontade de fazer isso porque acho a música do Nortemuito piegas. Nem os paraenses agüentam mais falar de tucupi etacacá", brinca. "Achei que era hora de chamar a atenção para aAmazônia de forma universal." Daí ele criou fusões apelidadas de drum?n?boi e obrega?n?bass de Pequeno Dicionário do Amor, carro-chefe de BeatIú. A idéia era chamar Reginaldo Rossi e Zeca Baleiro paragravá-la com ele, mas não deu. Em compensação, revela figurascomo Dona Onete e Mestre Fabico dando em seus vocais um banho deeletrecidade, mantendo "o aspecto primitivo" em ritmo frenético.Banjo com cordas de açoAlguém fez chegar seu CD Amazônia Groove (de2004) a Nova York, uma rádio de world music o incluiu naprogramação e lá ficou entre os mais tocados por quatro semanas.O DJ Marcelinho da Lua levou o mesmo disco para Seattle e umcrítico o elegeu um dos melhores do mundo. Na Europa aconteceualgo parecido. É claro que essa repercussão decorre do apelo exótico daAmazônia e a intenção do músico era aproveitar esse viés. Mas hátambém em curso a conquista dos próprios nortistas. "Isso tudome pegou de surpresa. As pessoas são muito tradicionalistas noNorte. Fiquei com medo de acharem que eu estava inventando modaem cima das tradições", considera. O banjo típico do carimbó é feito artesanalmente em seureduto na Zona do Salgado, perto de Belém. O corpo doinstrumento é de panela de alumínio, no fundo vai um disco devinil, a parte da frente (o "couro") é de acrílico extraído depandeiros, as cordas são linhas de pesca nº 60, as palhetas sãofeitas de plástico cortado de embalagem de Leite de Rosas. "Aafinação é só deles. Essa palheta é a melhor que existe porque agente tem de bater no corpo do banjo para ter o aspecto dapercussão", explica. No palco Marco André troca as cordas de nylon do banjopelas de aço, compatíveis com a eletrificação. Além de cantar,tocar violão e controlar as programações nos computadores, ele éacompanhado pelo Trio Manari (excelente grupo de percussão deBelém formado por Nazaco Gomes, Kleber Benigno e Márcio Jardim),Augusto Meireles (contrabaixo) e Esdras Souza (sopros). No show,além das músicas de "Beat Iú", puxado por "Pequeno Dicionário doAmor", e algumas do álbum anterior, Marco recria duas do velhoJorge Ben: Por Causa de Você, Menina, incluída no novo CD, eBebete Vãobora. "Jorge Ben com carimbó é uma combinaçãoperfeita", afirma. É ouvir para crer como isso funciona. Marco André. Blen Blen (100 lug.). R. Inácio Pereirada Rocha, 520, Pinheiros, 3815-4999. Quarta, 22h. R$ 25 e R$ 1250 (meia). Até 29/11

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