O nascimento da música moderna

"O meu coração está cansado. Sol do amor, não voltarás a brilhar, e ternamente secar minhas lágrimas amargas?" Da voz que se extingue em um pianíssimo aos últimos acordes do violino. Silêncio. E logo um som indistinto de instrumentos marca o fim das quase três horas necessárias para gravar a canção O Homem Solitário no Outono, a segunda do ciclo A Canção da Terra, de Gustav Mahler. Em vez das grandes orquestras exigidas pelo compositor, um pequeno grupo, 15 músicos responsáveis pela execução da versão de câmara da obra, preparada por Arnold Schoenberg. É uma partitura pouco conhecida, cuja história nos leva de um teatro da zona sul de São Paulo à vida musical da Viena do início do século 20 - e ao próprio nascimento da música moderna.   Saiba mais sobre música moderna e ouça trechos   Em 1918, um grupo de jovens compositores, capitaneados por Schoenberg e preocupados com a difusão da nova música, colocou ao público vienense um desafio - uma série de concertos semanais de música moderna e contemporânea, cujos programas não eram divulgados; mais: para romper com o establishment musical de Viena, principalmente com a crítica, foram proibidos aplausos e vaias e não se podia escrever sobre os concertos, apenas registrar impressões em pequenos folhetos e depositá-los em uma urna. Cerca de 300 pessoas bancaram a idéia, compraram assinaturas e, durante pouco mais de três anos, mantiveram a Sociedade de Execuções Musicais Privadas de Viena, capítulo importante da história da música do século 20.   A Sociedade Schoenberg, como ficou conhecida, reuniu a nata da juventude da época, nomes como Anton Webern e Alban Berg, que ajudariam a definir a produção musical do século 20, e outros menos conhecidos, como o polonês Edward Steuermann, compositor, pianista e professor de Theodor Adorno. Foram realizados 117 concertos, com um total de 154 obras executadas, datadas de Mahler em diante - a estréia, aliás, se deu com uma versão para piano a quatro mãos da sua Sinfonia nº 7, feita por Alfredo Casella. As reduções das partituras surgiram por motivos práticos. De um lado, explicava Webern no folheto inaugural da sociedade, elas permitiam uma apreciação da música moderna despida dos grandes efeitos sonoros; de outro, era a saída para um grupo de músicos que, com pouca verba, lutava para se manter vivo na época.   "É incrível perceber os efeitos conseguidos por Schoenberg na sua redução da Canção da Terra", diz o maestro Carlos Moreno após a sessão de gravação acompanhada pelo Estado na semana passada (o disco, que tem a participação do tenor Fernando Portari e do barítono Rodrigo Esteves como solistas, deve ser lançado até julho pelo selo Algol). "Ele liberta a expressividade da música, mantém sua essência e a leva para frente do tempo de Mahler, que a escreveu em 1907." O resultado é mesmo impressionante. Dezesseis violinos se transformam em dois; trompete, trombone e harpas são recriadas no piano; e assim por diante. No final das contas, o enorme efetivo orquestral original de Mahler , mais de uma centena de músicos, se transforma em um conjunto de câmara - e a transparência do som nos oferece um olhar totalmente novo à clareza das linhas e texturas imaginadas pelo compositor. Schoenberg não cria uma nova obra; traduz a essência de Mahler para o idioma da música de câmara. E nos faz entender por que sua obra seria tão importante para aquela geração.   O início do século 20 foi um momento de intensas transformações - eventos como a 1ª Guerra Mundial ou o surgimento da psicanálise, para ficar em apenas dois exemplos, quebravam os paradigmas construídos ao longo do século 19. Na música, com Richard Wagner e seu Tristão e Isolda, chegava ao fim o romantismo, abrindo-se uma enorme gama de possibilidades - aos poucos, importaria menos a melodia tradicional, com começo, meio e fim, e subiria para primeiro plano o desejo de redefinir a própria noção que se tinha dos sons, que encontraria seu auge nas experimentações da vanguarda dos anos 50 e 60. Com o distanciamento de décadas, ficou fácil para nós traçar as transformações daquela época e suas conseqüências no campo artístico - e ver, entre outras coisas, como a música de Mahler serve como trilha sonora daquele momento. Interessante mesmo, porém, é ver como essas transformações foram sendo apreendidas pelos personagens do período, no calor da hora. Com sua Sinfonia nº 8, Mahler fez uma exaltação do espírito criativo. Os anos seguintes, porém, seriam difíceis para o compositor. Em 1907, pouco antes de iniciar a composição da Canção da Terra, baseada em um conjunto de poemas chineses, ele perdeu os filhos e descobriu estar sofrendo de um problema grave no coração. A presença constante da morte, a certeza de um fim que se aproximava, o sentimento de nostalgia misturado ao desapego com relação a um mundo novo ainda difícil de compreender transformariam a sua obra. Em uma carta ao compositor, Schoenberg demonstraria seu encanto: "Vi sua alma, nua, completamente nua. Ela estava ali na minha frente como uma paisagem secreta e selvagem, com seus terríveis abismos, ao lado de colinas graciosas, alegres, inundadas pelo sol. A experimentei como se fosse um fenômeno natural, com seus terrores e desastres - e seu arco-íris pacificador e glorioso."   Anos mais tarde, em sua biografia do compositor (Gustav Mahler, Alianza Editorial, em espanhol), o maestro Bruno Walter definiria a peça como "uma canção sobre a dor da terra, o canto de um ser solitário que desliza furtivamente pela vida, no outono, que contempla a juventude com um olhar de velhice, e a beleza, com uma emoção reprimida, e que, bebendo, tenta esquecer o absurdo da vida, a deixando, enfim, com profunda melancolia". Em seus cadernos, Schoenberg veria, além da melancolia, cinismo, desolação, nostalgia e um "sentimento incômodo final de resignação". A chave para compreender como essa percepção, recriada nas versões que o músico fez da música de Mahler para a sociedade, influenciaria o trabalho da nova geração, seria dada décadas depois pelo maestro Pierre Boulez, no prefácio ao livro de Walter: "No mundo de Mahler, a nostalgia existe, mas divide espaço com a crítica, o sarcasmo. A fascinação que sua música exercia provinha do poder hipnótico de uma visão que abraça apaixonadamente o fim de uma época que deve morrer para que outra renasça de seu aniquilamento. Sua música ilustra, literalmente, o mito da Fênix", escreve. "Mas há uma vontade tão obstinada de passar por cima das categorias do passado, de forçá-las a exprimir algo para que não foram destinadas originalmente, que não se pode resumir Mahler a uma definição de ‘fim de uma espécie’; ele participa, de maneira muito pessoal, do futuro."   De volta ao estúdio, Moreno não deixa de lembrar que, hoje, vivemos uma época semelhante de troca de paradigmas políticos, sociais, intelectuais e artísticos - e que, portanto, a música de Mahler ainda tem muito a nos dizer. Para Boulez, a intensidade e diversidade de invenção é que fazem dele figura-chave para a reflexão sobre o futuro da música - como ocorreu no início do século 20. Entender nosso tempo, de alguma maneira, poderia passar pela pergunta: será que hoje o sol do amor, como para Mahler, seria apenas uma miragem?

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