Reprodução/AE
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O mistério de Lana Del Rey

As armas de uma garota que se reinventa e passa a ser chamada de 'Amy Winehouse'

Bolívar Torres/ESPECIAL PARA O ESTADO ,

11 de novembro de 2011 | 21h30

Há poucos meses, Elizabeth Grant era apenas mais uma loira bonitinha e meio banal, que tentava sair do anonimato musical sob o nome artístico de Lizzy Grant. Sem sorte, já que seu EP, Kill Kill, lançado em 2009, passou completamente despercebido. Da noite para o dia, no entanto, tudo mudou para esta nova-iorquina de 24 anos.

A começar pelo look: os fios platinados ganharam tons castanhos, o corte de cabelo alongado, e - mistério - seus lábios parecem ter sofrido um inchaço súbito, formando uma impossível boca carnuda e voluptuosa. A adolescente inexpressiva transformou-se em femme fatale, mas a mudança também veio nos números. Disponibilizado no YouTube, o seu novo clipe Video Games foi visto por mais de 5 milhões de pessoas e a música já está algumas semanas entre as mais baixadas no Itunes na Europa e Estados Unidos. Depois de muita expectativa, fez seu début nos palcos com uma turnê pela Europa, que depois de passar por Inglaterra e França, chega a Alemanha hoje, com show em um clube de Colônia.

Internet celebrity da vez, Elizabeth Grant é agora mundialmente conhecida sob o codinome Lana Del Rey, e assombra o imaginário juvenil com canções sobre amores clandestinos e garotos que preferem jogar vídeo game a namorá-la. Nada de novo no horizonte, é verdade, não fosse pelo fato de que, além de compor boas músicas e montar seus próprios clipes, a moça inventou um imaginário potente em torno de sua (bela) persona.

Misturando décadas e tendências, nostalgia e ares do nosso tempo, moldou uma figura fantasmática, em que as referências vintage se casam com a melancolia contemporânea. Sempre de pé para a câmera, com uma retidão dura mas sedutora, Lana encontra um equilíbrio perfeito entre a nonchalance e o ataque de nervos. Sua voz grave e imponente transmite uma constante sensação de ressaca e melodramas ginasiais. A combinação explosiva já é considerada um novo gênero em si - o 'Hollywood sadcore'ou 'Gangsta Nancy Sinatra'.

Entre Lizzy e Lana, um abismo. Relookada, reinventada, reconfigurada, sua mutação soa como cálculo puro. Em sua busca desesperada por novos ídolos, a indústria musical já definiu: é a nova Amy Winehouse. Não por acaso, o buzz em torno de Lana estourou logo depois da morte de Amy (rei morto, rei posto, a fila anda). Mas seria o hype forçado ou espontâneo? Mais do que isso, a verdadeira pergunta é: por que a metamorfose de Lizzy para Lana deu tão certo?

"O sucesso dela é natural", avalia o produtor musical Carlos Eduardo Miranda. "Ela tem personalidade, é diferente das outras. Mas acho pretensão dizer que a nova Amy. A voz dela é boa, mas não tem as nuances da Amy. É mais limitada e repetitiva."

Talento à parte, é inegável que Lana consegue, como poucos, absorver o espírito da internet. Para a jornalista Diane Lisarelli, da francesa Les Inrockuptibles, ela é síntese perfeita do autorretrato numérico, ou seja, a geração que "se esforça em se mostrar na internet pelo seu melhor ângulo, fantasiando-se como um personagem. "A palavra mágica aqui é "redes sociais". Como a juventude que acessa às novas ferramentas da web, Lana faz tudo sozinha: não apenas compõe, como ainda monta os próprios clipes, uma colagem caseira e um tanto pueril que mistura ao acaso imagens heterogêneas. Às suas caras e bocas, que poderiam ter saído de qualquer fotolog adolescente, somam-se cenas icônicas do velho Hollywood, polaroides antigos e outros planos difusos filmados em super 8. Uma acumulação de fetiches e clichês, que traduz com perfeição a estética do Tumblr, um microblog de compartilhamento acessado principalmente pelos mais jovens.

"O Tumblr é um contraponto ao twitter, porque é uma cultura do distanciado, não do que está acontecendo no momento", explica Henrique Antoun, professor da Eco/UFRJ e membro do Ciberidea - núcleo de pesquisa em tecnologia, cultura e subjetividade. "Serve como um direcionamento de imagem e cultivo de personalidade a partir de fetiches, como se a pessoa criasse uma síntese de si mesma a partir do que ela guarda e compartilha. Funciona como um diário íntimo e nostálgico de um passado que as pessoas que usam o Tumblr sequer viveram."

Nesse sentido, Antoun vê Lana como uma espécie de anti-Lady Gaga, que é uma personalidade formada a partir da cultura do YouTube. "Ao menos por enquanto, ela não é um repositório de anúncios como a Lady Gaga, uma freak de boutique que se mistura explicitamente a marcas", compara. "O que acontece é que esse pessoal de marketing não consegue entender a internet, tenta fazer com que ela funcione como uma mídia qualquer, ou seja, cria personalidades que sirvam como produtores de opinião, transformando o usuário em um receptor passivo. Por isso precisam sempre medir com alarde quantas pessoas assistiram cada vídeo e rapidamente associar essas figuras às mídias tradicionais."

Lana, por outro lado, surgiu na cultura do perfil mutante, e ainda se mantém ausente da mídia tradicional. Nada mais internet do que a ideia de avatar, que pode ser apagado a qualquer momento. Como quem exclui uma conta de Twitter ou Facebook, a loirinha Lizzy foi completamente apagada do mapa (é muito difícil, aliás, encontrar seus antigos clipes na web, assim como o seu antigo EP, varrido do Itunes) para dar lugar à misteriosa Lana. "Nada impede, porém, que ela deixe de ser um produto da internet e siga os passos da Lady Gaga", alerta Antoun.

Lana, por sinal, acaba de assinar com a gravadora Interscope, a mesma de... Lady Gaga. Mesmo que o hype não se sustente, a moça parece estar seguindo uma estratégia modelo para os tempos modernos. Primeiro, alguns clipes no YouTube para atiçar a curiosidade. Depois, turnê pela Europa em alguns clubes descolados. Por fim, um álbum gravado em Londres, com previsão para janeiro. O grande mistério é saber se tudo não estaria sendo arquitetado pelo pai, o bem-sucedido empresário Rob Grant.

"Ela seguiu o caminho certo", diz Miranda. "É isso mesmo que se deve fazer hoje. Não me surpreenderia que seu pai estivesse gerenciando tudo, nem mesmo que as músicas sejam de ghost writers. Em casos assim há sempre alguém coordenando."

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