O mestre Nelson Freire encontra Beethoven

O pianista brasileiro, hoje vivendo na França, Nelson Freire, é o destaque das apresentações que a Sinfônica de Heidelberg faz a partir de hoje na Sala São Paulo, sob a regência do maestro Thomas Fey. Freire vai interpretar o Concerto n.º 4 para Piano e Orquestra, de Beethoven, o que, em outras palavras, significa ter na cidade a presença de um de nossos melhores pianistas interpretando uma peça de um dos compositores com os quais tem mais afinidade. A sinfônica também preparou, para a série de apresentações no Brasil (que inclui concertos em Santos, amanhã, e no Rio, na sexta, mas sem Nelson Freire), as sinfonias n.º 102 e n.º 103 de Haydn, além de aberturas de Beethoven e Mozart."Como definir o concerto? É uma peça simplesmente sublime, iluminada, é como se Beethoven estivesse sob a ação de alguma luz divina", diz o pianista por telefone ao Estado de sua casa no Rio. Composto entre os anos de 1805 e 1806, o Concerto n.º 4, assim como as sinfonias n.º 5 e n.º 6, faz parte da chamada "fase heróica" de Beethoven, que tem início em 1802, dois anos após o compositor descobrir que estava ficando surdo e passar por um período de grande depressão. "É preciso ter muito respeito por essa música, tocá-la com honestidade. O intérprete pode ser dar por satisfeito se conseguir apenas mostrar, mais do que seu próprio talento, como é bonita a música escrita por Beethoven.""É incrível, ninguém conseguiu passar para a música tantas emoções distintas, ao mesmo tempo, tão bem como ele. E ainda há as inovações na escrita, é tudo perfeito", completa Freire, que reconhece serem os românticos os seus autores favoritos. Uma confirmação, na verdade, de algo que já se desconfiava havia um bom tempo, algo que, de certa forma, esteve presente nos programas de seus recitais em salas dos quatro cantos do mundo, e na sua escolha de repertório para suas raras gravações do passado: Schumann, Tchaikovski (os dois para a CBS), Schubert (Sony), Rachmaninoff (Phillips), Liszt (Berlim).E também em suas gravações do futuro. Desde o ano passado, Freire, famoso por sua aversão por registros em estúdio, é artista exclusivo da Decca. E nos planos da gravadora estão discos dedicados a Chopin e Brahms. "Desse modo espero conseguir suprir uma lacuna para a qual todos chamam a minha atenção, pedindo sempre por gravações."O primeiro disco da série da Decca foi lançado recentemente, com a Sonata n.º 3 e os Estudos Op. 25 de Chopin. "Estou feliz com a recepção do público e da crítica ao disco, ainda mais tendo em vista a saturação atual do mercado fonográfico." Freire refere-se à crise pela qual o mercado de gravações de música erudita passa e da qual não sairá, a não ser que as gravadoras encontrem alternativas para solucionar problemas como a divisão entre a idéia de jogar a milionésima gravação da Quinta de Beethoven em um mercado saturado e a opção ? saudável, mas para muitos, arriscada demais ? por explorar novas obras e peças de grandes compositores que, com o tempo, foram aconchegando-se à sombra dos grandes hits de seus autores. "Muita gente, de todos os níveis, está gravando, e as empresas acabam sendo forçadas a diminuir seus elencos. Mas fico feliz por a Decca ter me escolhido para esse projeto."A volta aos estúdios, após décadas de ausência, colocou perante Freire os mesmos problemas que o fizeram abandonar as gravações. "É tudo muito mais cansativo, o que você quer fazer com relação a determinada peça tem de estar muito mais claro desde o início. E num concerto ao vivo, não, você se adapta, tem a grande chance de lidar com as dificuldades impostas por uma série de fatores no momento de fazer música."Máquinas ? Mas, como disse Freire em outra ocasião, o disco pode viajar no seu lugar. "Não é segredo que pretendo reduzir minhas atividades. É desgastante demais fazer muitas viagens, tocar demais, ao menos para mim não é nada bom, não sou uma máquina." Seus fãs provavelmente discordariam, mas Freire tem lá seus motivos. "A diminuição na qualidade é algo extremamente perigoso. Quando se é jovem, tudo bem. Mas há um momento em que você percebe que é melhor diminuir o passo, você chega à conclusão de que não há vantagem em entrar num ritmo frenético de viagens e apresentações. E isso você vê nos seus resultados artísticos. Para cantores de ópera, então, deve ser pior ainda."Há ainda o aspecto pessoal. "Cansa essa coisa de ninguém saber onde você está, de nunca conseguir falar com você. Você vê, pianistas como Maurizio Pollini ou mesmo Marta Argerich hoje não fazem mais do que 30 concertos por ano. O artista tem de lutar para não se tornar um mero objeto de consumo." Mas, e as pressões do mercado? "No princípio é extremamente difícil recusar convites para concertos ou recitais, mas, com o tempo, fica mais fácil, vem naturalmente."Averso a badalações e entrevistas, Freire ? que já foi chamado pela imprensa internacional de "o grande e discreto mestre do piano" ? diz não ligar muito para coisas como "promoção, colocação profissional". "É tudo desgastante demais, estão sempre se queixando de que eu não faço nada para ajudar nessas questões, mas, de fato, evito esse tipo de coisas. Não gosto de planificar demais as coisas, o que é difícil nesta carreira, em que seus passos já estão sempre acertados com anos de antecipação. Mas, sei lá, a vida real não é assim." Seu negócio, garante, é mesmo com a música. "Minha relação com a música é de amor, é onde eu sou mais eu. É complicado, não sei bem como definir esta sensação." Pode ser, mas é bem provável que quem já o viu em ação no palco saiba.

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