Keith Saunders/Divulgação
Keith Saunders/Divulgação

O maestro e pianista russo Vladimir Ashkenazy rege Shostakovich, Beethoven e Mahler em visita ao Brasil

Entre as apresentações, há uma destinada ao público infantil e outra ao ar livre, ambas gratuitas

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2012 | 21h30

Ele avisa logo de cara: não fala sobre música ou política - o que, tratando-se de um dos principais músicos russos do século 20, que na antiga União Soviética chegou a atuar como espião da KGB, diminui consideravelmente os tópicos de conversa. Mas Vladimir Ashkenazy exagera - e, durante a entrevista, explica: “Se não gosto de falar de música, é porque parece sempre que, ao analisar uma peça, estou tentando convencer você de alguma coisa. E, no fundo, não vou jamais convencer ninguém de nada. Cabe ao ouvinte interpretar o que ouve. Minha função é fazer música”.

E música ele fará a partir da semana que vem, quando desembarca em São Paulo com a Sinfônica Alemã de Berlim para uma série de concertos que abre a temporada do Mozarteum Brasileiro. Além de duas apresentações no Teatro Municipal, nos dias 14 e 15, ele fará dois concertos no Auditório Ibirapuera - um destinado às crianças, no dia 12, e o outro, no dia 13, com as portas abertas para o parque.

O concerto infantil terá no programa a Suíte Quebra-nozes, de Tchaikovski; no dia 13, para a apresentação ao ar livre, somam-se a ela peças curtas como o poema sinfônico Don Juan, de Strauss. Já no Municipal, ele rege três monumentais sinfonias: a Pastoral, de Beethoven, a décima de Shostakovich e a quinta de Mahler.

Se o episódio da KGB - de onde saiu pela simples incapacidade de dar ao serviço secreto russo alguma informação relevante - virou anedota, a relação com a música na União Soviética, de sua deserção à gravação de seus principais autores, é especial em sua carreira. Quando Shostakovich estreou sua décima sinfonia, Ashkenazy estava no teatro. “Momentos assim mudam a gente”, diz, em entrevista ao Estado.

Maestro Vladimir Ashkenazy fala dos concertos no Brasil e da obra de Shostakovich

A trajetória do jovem pianista Vladimir Ashkenazy seguiu de perto o roteiro previsto para virtuoses soviéticos que surgiram na década de 50. O talento se manifestou ainda na infância, na pequena Gorky, onde nasceu - e, de lá, ele seguiu para a capital, graduando-se no Conservatório de Moscou. Aos 18 anos, começou a viajar pelo Ocidente - e vitórias em concursos como o Rainha Elizabeth, na Inglaterra, eram alardeadas pela propaganda do regime.

Mais ou menos nessa época, tornou-se agente da KGB, assim como muitos alunos do conservatório, cuja função era observar e repassar informações sobre colegas. A colaboração durou pouco tempo, lembra Ashkenazy: suas contribuições não eram relevantes e ele foi demitido. “A certa altura, resolvi ficar quieto e não falar mais nada”, ele lembra, contando que, em seguida, passou a ser espionado a cada passo.

O contexto político de “controle intolerável” o fez deixar o país no começo da década de 60, aos 26 anos. Casou-se com Þórunn Jóhannsdóttir, musicista islandesa que estudava em Moscou. Juntos, desembarcaram primeiro em Londres e, em seguida, na Islândia, onde naturalizou-se. A volta à União Soviética se deu apenas nos anos 90, comandando a Royal Philharmonic, de Londres, quando encontrou, disse na época, um “país que não sabia exatamente para onde estava indo”.

Entre a saída da URSS e seu retorno como convidado ao país, muito aconteceu na carreira de Ashkenazy. Sem abandonar o piano, passou a atuar cada vez mais como regente, condição na qual atuou à frente dos principais conjuntos sinfônicos europeus e norte-americanos. Da mesma forma, aumentou seu repertório - mas a quantidade não excluiu a relação especial desenvolvida com os compositores românticos e russos. Ainda que ele diga não compreender o que seria “a sensibilidade ideal para esta música” que os críticos associam a ele, gravações como a integral da obra para piano de Rachmaninov, que ele concluiu há dois anos, são incontornáveis em um universo vastíssimo de registros.

Leituras. Em 2003, ele criou um projeto chamado Prokofiev e Shostakovich under Stalin (Prokofiev e Shostakovich sob Stalin), que consistia na apresentação de obras dos dois autores, permeadas por conversas sobre a produção musical durante o regime soviético. A ideia gerou polêmica. Para alguns críticos, presentes à estreia em Londres, a maneira como os dois compositores foram colocados lado a lado sugeria a caracterização de Prokofiev como servo absoluto do regime enquanto Shostakovich seria, em toda a sua complexidade e contradições, a representação da resistência - musical e do espírito - ao regime.

A leitura é superficial. O texto lido por Ashkenazy antes do concerto relativizava as visões sobre os dois compositores - e mais do que o julgamento de suas obras, o que estava em jogo era a memória de seu diálogo como intérprete com esses autores, tudo sob a presença constante e opressiva de um regime forte. Para Ashkenazy, generalizações sobre a música não servem para muita coisa - é apenas à experiência pessoal e intransferível que se pode referir com algum grau de verdade.

A reação a projetos como esse mostra como o debate em torno da relação entre música e política nos anos da União Soviética ainda é vivo e controverso. E, mesmo distante da pátria natal, Ashkenazy manteve-se ligado a ele, não com discursos, mas como intérprete, condição, diz, que mais o agrada. Nesse sentido, se gravou peças de Prokofiev, relação mais importante ele desenvolveu com a obra de Shostakovich, ajudando no estabelecimento de suas sinfonias no repertório de grandes orquestras.

Mais de 50 anos depois da estreia de uma obra como a Sinfonia n.º 10, que ele rege em sua passagem por São Paulo, como a enxerga? É possível pensar nela do ponto de vista apenas musical ou é indispensável ter em mente o contexto político em que ela surgiu? “Este é um terreno muito delicado e é por causa disso que sinto dificuldade em descrever a música. Em todo e qualquer contexto, prefiro deixar a interpretação, seja ela qual for, para o público. Ainda assim, tenho em mente que, se os primeiros movimentos carregam um tom trágico, escuro, em que não há luz, é também verdade que o último movimento, escrito após a morte de Stalin, sugere algum otimismo, ainda que dentro dos limites do possível.”

Para Ashkenazy, Shostakovich nunca se limita a seu sofrimento pessoal - ou melhor, o seu questionamento é o mesmo do povo soviético, seu sofrimento é o do homem comum, o que sugere certa “universalidade”. Não é o caso, acredita, da obra de Mahler. Ele acaba de gravar todas as sinfonias do compositor com a Sinfônica de Sidney, da qual é diretor artístico. “E a sensação que tenho é de uma constante autorreferência. O que importa a Mahler é Mahler, é sempre eu, eu, eu, eu.” Viria da percepção desse individualismo o crescente interesse por sua obra? Ou, escrita na passagem do século 19 para o 20, ela teria algo a dizer para uma sociedade que experimentou novo período de transição, do século 20 para o 21? “É algo que, sem dúvida faz sentido, mas não sei se penso dessa maneira porque não acredito que Mahler, de fato, estivesse falando de sua época, de seu mundo, em suas sinfonias. Mas não vou tentar convencer você disso, isso é certo”, brinca.

Resgate. Ainda que muito ligado à regência, Ashkenazy nunca deixou o piano - e tem no currículo gravações preciosas: o Cravo Bem Temperado, de Bach; os 24 prelúdios e fugas de Shostakovich; as obras completas para piano de Chopin, Schumann e Rachmaninoff; os dois concertos de Brahms; as 32 sonatas de Beethoven e seus cinco concertos para piano (em duas versões). Recentemente, lançou um disco dedicado a Bach, compositor ao qual pretende retornar em breve, gravando as seis partituras e o concerto italiano. Outro projeto é retomar a música de câmara - no passado, ele teve parceiros importantes, como o violinista Itzhak Perlman. “Desta vez, estou pensando em gravar trios do repertório russo, com dois músicos da Philharmonia Orchestra. Ninguém os conhece, mas são incríveis. E eu agora preciso começar a reaprender essa música. Espero terminar até o meio do ano.”

DEUTSCHES SYMPHONIE ORCHESTER BERLIN

Auditório do Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº. telefone 3629-1075. Dia 12, 16 h (para crianças); dia 13, 11 h (ar livre). Grátis. Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/nº, telefone 3397-0327. Dias 14 e 15, 21 h. R$ 110/ R$ 1.500.

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