Julio Maria/ Estadão
Julio Maria/ Estadão

O jazz e o afro pop colhendo os frutos da liberdade

Festival na Cidade do Cabo mostra o cenário de uma produção vibrante que não depende de importações

Julio Maria, Cidade do Cabo - O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2014 | 02h14

O avião aterrissa no Aeroporto Oliver Tambo, em Johannesburgo, depois de atravessar um portal do tempo que se abre sobre o Atlântico, em algum instante dos 7.331 quilômetros que separam São Paulo da África do Sul. A vida na outra dimensão acontece cinco horas à frente do Brasil, com pessoas de riso fácil e pouca confiança em forasteiros, de um amor insano por futebol, uma paixão por cores vivas e muita atração por música brasileira que tem um nome visível no topo da lista: Djavan. Vista de longe, Johannes é a São Paulo dos sul-africanos. Muito dinheiro e muita pobreza espalhados por uma cidade moderna no centro e humilde nas bordas. Sua vizinha, Cidade do Cabo - vista de longe, a Rio de Janeiro sul-africana - é sede há 15 anos do maior festival de jazz e música pop africana do continente. É ali que, por dois dias, Nelson Mandela se faz presente não só no cartaz de divulgação do evento, mas sobretudo em sua essência. A música do Sul do continente é livre de qualquer dominação, a ponto de não precisar recorrer a filés europeus ou norte-americanos para lotar suas plateias, como fazem os festivais de jazz e música pop no Brasil.

Nos dois dias de Cape Town Jazz Festival, só a cantora Erykah Badu surgiu com essa função. Nos demais casos de nomes importados, como o do pianista gigante Randy Weston, a lógica se invertia. Eram eles que estavam ali para reverenciar a música africana, não o contrário. "Foi aqui que a música do mundo nasceu", disse Weston, depois de incendiar o palco Rosies, no Centro de Convenções da Cidade do Cabo, ao lado do baixista Alex Blake e do percussionista Neil Clarke.

A cena musical africana que não chega ao Brasil nem por redes sociais, tamanho o tabu cultural que se estabeleceu depois de a diáspora levar ao mundo os elementos que dariam origem ao samba, ao reggae, ao funk, ao blues, aos ritmos latinos e a toda forma de música pop ocidental, passou por quatro palcos do festival em 40 apresentações entre os dias 28 e 29 de março.

O trio vocal The Soil, com um único disco lançado em 2011, é uma sensação. Não precisa de nada além de suas vozes para preencher um grande palco e envolver 5 mil pessoas. A cantora Ntika Fana Ngxanga se destaca entre Luphindo e Buhle Mda por seu porte e sua voz sem-fim. Ali estão o gospel, o spiritual e o R&B em estados puros, com um saboroso acento africano treinado em apresentações por townships do país, os bolsões periféricos criados pelo governo branco do apartheid para confinar a população negra nos anos 50 e 60.

As festas de casamento em Soweto, a maior dessas townships, tinham Jimmy Dludlu como um astro em sua infância. O grande guitarrista da África do Sul, nascido na vizinha Moçambique, lidera um grupo com um fusion que cheira George Benson, mas que sai sobretudo de escalas pentatônicas que os africanos tocam como só eles. Dludlu não é um piloto de fórmula 1, prefere as frases curtas e os grooves. Sua apresentação, ao lado dos também guitarristas Alvin Dyers, Richard Caesar e Saudiq Khan, tem impacto para fazer crer que se trata de um orgulho nacional.

O senegalês Moh Dediouf é uma grata surpresa nos palcos, não nos discos. Sua música é vibrante e sua presença, arrasadora. Uma energia tensa de afro beats, contaminada pelo soul de Marvin Gaye e James Brown, que infelizmente não se transfere para o que ele faz em estúdio. Uma força da natureza que se domestica em clipes no YouTube.

Dois outros estrangeiros com histórias ligadas ao continente se destacaram na Cidade do Cabo. O flautista indiano Rakesh Chaurasia faz um power jazz sem nenhum compromisso com as tradições de seu país. Parece ter escutado muito Chick Corea e tirado dele uma costela para criar um som vigoroso, com um virtuosismo técnico em um instrumento de poucos grandes representantes. E o pianista Randy Weston, com um projeto que ele chama de African Rhytms Trio. Randy cria temas curtos que fazem o giro africano, o groove que os nigerianos e os malineses ensinam ao mundo. Deixou sua emoção vir à tona quando decidiu falar com a plateia. "Toda a música que ouvimos saiu deste lugar."

Tudo o que sabemos sobre:
FestivalCidade do CaboJazz

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.