Wilton Junior/ Estadão
Wilton Junior/ Estadão

O inferno astral de João Gilberto

Agora é a vez das cobranças pelos shows que João não fez em 2011; para o advogado Sérgio D’Antino, ele vai quebrar

Julio Maria - O Estado de S.Paulo,

15 de maio de 2013 | 19h51

É melhor que João Gilberto não esteja lendo os jornais desta semana. Pois quando os ventos pareciam soprar a seu favor, sensibilizando juízes sobre seus pedidos para adquirir os direitos sobre seus discos Chega de Saudade (1959); O Amor, O Sorriso e a Flor (1960); e João Gilberto (1961), além de um compacto em que canta as músicas do filme Orfeu da Conceição, o mundo fica bem menos poético e, agora, parece querer engolir o genitor da bossa nova. Depois de saber que uma nova decisão judicial publicada ontem pelo Estado deixa seus álbuns em poder da gravadora EMI, seu nome volta à tona de maneira nada elegante a menos de um mês de seu aniversário de 82 anos, no dia 10 de junho. João está sendo cobrado na Justiça por um calote histórico.

Assim que foram fechadas as datas dos shows que faria em 2011 e os lugares em que seriam realizados, os ingressos começaram a ser vendidos a preços que chegavam a R$ 1.400. No Rio, sua apresentação seria em 21 de dezembro, no Teatro Municipal, com entradas entre R$ 600 e R$ 1.400. Em São Paulo, com bilhetes entre R$ 500 e R$ 1 mil, a casa escolhida foi o Via Funchal. A imprensa divulgou que a venda dos ingressos não teve a procura esperada e, dias antes do início de uma temporada que iria também a Salvador e Porto Alegre, João alegou problemas de saúde. Foi ao geriatra Jamil Jamile e saiu com um diagnóstico de infecção das vias respiratórias. Todas as apresentações foram canceladas.

Em outubro de 2011, os empresários do Via Funchal, representados pelo advogado Sergio D’Antino, entraram na Justiça com uma ação de arresto e convenceram os magistrados de que foram lesados. Segundo a decisão judicial que permanece inalterada, João Gilberto deve depositar em juízo a renda de todas as bilheterias dos shows que fizer em território nacional até que o prejuízo dos empresários paulistas seja ressarcido. D’Antino calcula que ele esteja hoje em torno de R$ 900 mil. "Os assessores do João Gilberto fizeram um ótimo trabalho para acabarem com a carreira dele. Ele vai quebrar. João não faz mais shows no Brasil depois desta ação", diz D’Antino. Claudia Faissol, mulher de João que responde por ele, não se pronunciou até a publicação desta reportagem.

O Teatro Municipal do Rio também quer receber o que perdeu com o cancelamento dos shows. Quantia: R$ 570 mil, referentes aos R$ 270 mil pagos antecipadamente a João mais juros e multas rescisórias. Maurício Pessoa, produtor da turnê, informa que repassou todo o valor recebido para João. "Tenho muito respeito por João, mas as pessoas têm de ter ética. Se ele recebeu R$ 210 mil para fazer este show e não fez, deveria devolver." Ao todo, João teria recebido R$ 1 milhão pela turnê de seus 80 anos.

Informações de que os cancelamentos seriam por baixa venda de ingressos nunca foram confirmadas. Jamile, médico do cantor, fala sobre o caso. "Um homem de 80 anos gripado tem a saúde de um passarinho. Ele estava fraco, debilitado, sem condições de fazer aqueles shows. Fiquei indignado com os que disseram que ele decidiu não fazer as apresentações por causa de baixa venda de ingressos." Jamile não tem notícias de João Gilberto há mais de um ano. "Fico preocupado. Acredito muito na prevenção de doenças, mas o João não aparece. Vou tratá-lo na casa dele até de graça se ele quiser. Mas ele tem que querer."

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