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O funk consciência de BNegão e os Seletores de Frequência

Grupo chega ao 3º disco refinando grooves e propondo um discurso existencialista para promover a grande mudança

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2015 | 20h18

São duas portas que se colocam diante da indignação do compositor. A primeira oferece uma escopeta e o leva à trilha dos culpados do mundo exterior. O sistema, o governo, a polícia, a política, os playboys. A segunda conduz ao interior do próprio enraivecido. Depois de despencar por uma escadaria e chegar ao fundo do porão, ele vai ter que assumir que a culpa da miséria toda também é dele.

Algo no terceiro disco que lança agora com o grupo Seletores de Frequência, TransmutAção, soa como um protesto ao contrário, de fora para dentro, existencial e reflexivo também na alegria. Um manifesto na festa.
As coisas vão mal, anuncia a abertura de Dias da Serpente depois de um ponto de terreiro chamado Agô: “Aqui estamos nesse Planeta, nesse momento, estamos. O que construímos e desconstruímos até aqui, estamos. O que somos e o que achamos que somos, células, ossos, carne, sangue, cromossomos. Espíritos se movem agora e sempre... Dias luminosos virão, dias trevosos estão, dias da serpente.” Mas podem melhorar se o mundo desatar os nós do pensamento e as pessoas olharem para si, como conclama com messianismo a última, Nós (Ponto de Mutação): “Despressurize, descondicione a sua mente, esteja presente, consciente, libertar-se pelo caminhar, consciência, tenha ciência, o espírito é você, seu corpo é onde está você agora, neste momento, agora, seja você a mudança.”
A mudança do eixo é algo proposital, como BNegão diz ao Estado, por telefone, do Rio. “Cara, digo que sou um objeto não identificado no hip hop, mas tenho mesmo uma dificuldade com clichês. Minha busca é essa”. Inevitável, por mais resguardos que se faça, a remissão sonora imediata à fase mística de Tim Maia, entre 1975 e 1976, quando se embriagou de profetas (não é o caso de BNegão) para fazer seus discos Racional 1 e 2 (um terceiro, abandonado por ele em 76, foi lançado 35 anos depois), de bases funk e letras sobre os ensinamentos da seita religiosa Universo em Desencanto. 
Os Seletores de Frequência seguem erguendo a parede de graves de contrabaixo, tempos fortes na caixa e guitarra seca de intervenção complementar, de mais riffs e menos solos. Em outras palavras, funk – mas não até o caroço. Há mais sutileza mesmo em arranjos de pressão e de pista, mais critério e menos facilidades compradas no supermercado dos seguidores dos anos 70. E há uma fé inabalável no groove, desafiando os instintos de uma tradição de músicos brasileiros que não seguram uma mesma levada por mais de oito compassos por pura impaciência, a filha ingrata da virtude.
Eis a grande contribuição dos Seletores. O groove que os africanos colocaram nas mãos dos negros norte-americanos nos anos 70 não é para os fracos. Quem no Brasil pode segurar uma mesma linha de contrabaixo por tanto tempo sem inventar nada sobre ela, nenhum movimento além das notas originais, resistindo às súplicas dos ouvidos que clamam pela tensão e, depois dela, pela paz reconfortante? Quem pode repetir uma microfrase de guitarra com duas notas frias por tantos compassos sem nenhuma firula a mais? É o tal groove com o qual Fela Kuti e James Brown chamavam seus deuses e no qual os Seletores de Frequência se baseiam para fazerem a energia se movimentar em círculos até a eternidade.
O que foge das curvas de uma proposta mais homogênea são faixas cheias de vigor. Uma delas, Surfin’Astatke, encontra um impensável ponto de intersecção da surf music californiana com o ethio jazz etíope. Dick Dale com Mulatu Astatke. Uma faixa instrumental com bateria quadrada de iê-iê-iê, ecos de guitarra (chorus) e solos em escalas menores harmônicas, aquelas que levam o ouvinte para um passeio em tapetes persas. “Estávamos gravando um disco de música instrumental quando tivemos a notícia do patrocínio. Resolvemos aproveitar esta do material que tínhamos”, diz BNegão. Fita Amarela, de Noel Rosa, perdeu os pudores de velório e fez gafieira sobre o caixão do morto, como os negros de Nova Orleans, no Sul dos Estados Unidos, celebram a passagem.
O álbum tem o patrocínio do programa Natura Musical e levou inacreditáveis trinta dias para ser gravado. Uma diferença considerável comparada aos nove anos de recesso entre Enxugando Gelo, de 2003, o primeiro, e Sintoniza Lá, de 2012. O show de lançamento em São Paulo será dia 12 de setembro, no Centro Cultural Rio Verde, na Vila Madalena.
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