O Ex-Rio do poeta da vila

Como estão hoje lugares da Vila Isabel, da Penha e da Lapa cantados por Noel

Lucas Nobile,

11 de dezembro de 2010 | 02h20

Quem muito fala dos outros, sem se dar conta, acaba, pela própria boca, traçando um retrato de si mesmo. Noel de Medeiros Rosa, cujo centenário de nascimento celebra-se hoje, provou meteoricamente deste veneno. Quatro anos depois de ter se tornado popular com o grande sucesso de Com que Roupa, gravada em setembro de 1930, ele versou: "e sendo um tipo que assimila tanto tipo/ Passou a ser um tipo que ninguém esquece".

Assim se deu com Noel. Em apenas 26 anos de vida - vitimado pela tuberculose -, ele revolucionou não apenas o samba, mas a música brasileira.

Alçado ao estrelato pelas vozes dos maiores cantores da Época de Ouro do rádio, como Francisco Alves e Mario Reis, por Marília Baptista e Aracy de Almeida, sua melhor intérprete feminina, Noel abandonou o beletrismo formal, e com extrema originalidade, refinamento e ironia, abusou do coloquialismo para radiografar os personagens do cotidiano de seu tempo. Eram o bicheiro, os fortões, o filho do alfaiate, o português, o gago, o milionário, o malandro e as "damas do amor" dos cabarés.

Completo e versátil, também se eternizou por, de forma camaleônica, deixar de lado a galhofa dos sambas em forma de crítica e crônica social, como Onde Está a Honestidade?, Quem Dá Mais? (Leilão do Brasil) e Filosofia, para cantar o amor com densidade, em letras muitas vezes autobiográficas, como Pela Primeira Vez, Três Apitos e Até Amanhã. Eram temas muito mais elaborados do que os dos tempos de estreia ao lado de Almirante e Braguinha, no Bando dos Tangarás.

Além disso, Noel também soube registrar com maestria sua devoção pelo Rio. Ao contrário do que muito se pensa, ele cantou muito mais a Penha e a Lapa do que a própria Vila Isabel, bairro na zona norte carioca, onde nasceu o compositor. Na semana do centenário do Poeta da Vila, o Estado percorreu lugares cantados por Noel e outros pontos relacionados a sua biografia.

Não tem tradução. O que liga Tom Jobim a Noel Rosa não é apenas o fato de os partos dos dois terem sido realizados pelo mesmo médico, o doutor José Rodrigues da Graça Melo, nem tão pouco a admiração de Tom declaradamente aberta ao cancioneiro de Noel. Ambos, cada um em seu tempo, criticavam - fosse nas músicas ou em entrevistas - as crescentes transformações de um "progresso" destruidor da antiga capital federal.

Visitar hoje os locais cantados pelo Poeta da Vila é constatar que o Rio da infância de Tom, "quando Copacabana era um imenso areal repleto de crianças e bichos", e da maturidade de Noel morreu há tempos.

A começar pela casa onde ele nasceu, no número 392 da Rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel, local hoje ocupado por um prédio de quatro andares. O descaso com tal patrimônio histórico e cultural só não é maior porque o imóvel leva pelo menos o nome de Edifício Noel Rosa.

Pelo bairro onde nasceu, a figura e a obra do poeta ainda pulsam. Ele está lá, servido numa mesinha de bar por um garçom, em estátua erguida na entrada da Vila, homenageando à famosa Conversa de Botequim. Mais adiante, a fachada da Escola Municipal República Argentina tem pichada uma caricatura de Noel ao lado dos versos de Feitiço da Vila: "Quem nasce lá na Vila/ Nem se quer vacila/ Ao abraçar o samba", de Feitiço da Vila, resposta no famoso embate com o "rival" Wilson Batista.

Ali perto, em ensaio a céu aberto, acompanhados de ritmistas e passistas, o mestre de bateria, Átila, e o puxador, Tinga, da escola de samba Vila Isabel, entoam o mesmo tema. O cenário, porém, o Boulevard Vinte e Oito de Setembro, é outro. Antigamente, a rua era ocupada por palmeiras, casas baixas e diversos cinemas, como o Cine Villa Isabel. Construções como esta motivaram o compositor a escrever Não Tem Tradução, criticando as transformações impostas pelo estrangeirismo, defendendo o "modernismo" na canção nacional. Hoje, a avenida é tomada por postes e edifícios enormes.

Partindo para o bairro mais cantado por Noel, a Penha (em Feitio de Oração, Meu Barracão, Fiquei Rachando Lenha, entre outras), a transformação é desoladora. O alto da escadaria da Igreja Nossa Senhora da Penha é o lugar em que, nos anos 30, compositores se reuniam para apresentar suas novidades. De onde se via o verde dos morros, vê-se um amontoado de barracos, que formam complexos de favelas, como o da Penha, Alemão e Vila Cruzeiro.

Montmartre tribalizada. Outros locais cantados por Noel e que passaram por transformações brutais foram a Lapa e o Centro do Rio. Neste último, os principais pontos históricos foram tomados por bancos e instituições financeiras. O lendário Café Nice, por exemplo, na Avenida Rio Branco, frequentado outrora pelo Poeta da Vila e figuras como Orlando Silva, Sílvio Caldas, Pixinguinha, Ary Barroso e Lamartine Babo, hoje é ocupado por um edifício gigantesco da Caixa Econômica Federal. A esquina da mesma avenida com a Rua da Assembleia, onde ficava a Casa Vieira Nunes, agora é tomada pelo Banco do Brasil. A Rua do Ouvidor, ocupada por Bradesco e Santander, ainda continua estreita, lotada predominantemente por pedestres. Na época de Noel, ele foi uma das primeiras pessoas a ter carro no Rio. Por ali, circulava com seu veículo, desculpando-se com os guardas para não ser multado.

Perto dali, na Praça Tiradentes, o traçado das ruas continua intacto. Mudaram apenas os edifícios que a circundam, como hotéis modernos, e a renovada fachada do Teatro João Caetano. A praça fora um dos pontos de ebulição do teatro de revista, onde Noel se destacou, compondo Com que Roupa e Gago Apaixonado.

Na mesma região, o bairro da Lapa manteve parte das construções da década de 30. A mudança mais significativa é a dos frequentadores. Conhecido antigamente como a Montmartre Tropical, o bairro que inspirou direta ou indiretamente o Poeta da Vila, em Dama do Cabaré e Último Desejo, recebia boêmios, sambistas, chorões e meretrizes.

Hoje, ao local ainda chega um público formado por quem é afeito ao samba, mas também outras tribos, como transexuais e amantes do reggae e do rock. É o caso dos metaleiros da banda Unearthly, que ensaiam no bar Satisfaction, na mesma Rua Riachuelo frequentada por Noel. "A Lapa é conhecida por sua diversidade. A gente conhece pouco do repertório do Noel, mas respeita sua importância", diz o vocalista e guitarrista Felipe Araujo (cujo nome artístico é Felipe Eregion). "Acho que ele até gostaria de ver a Lapa hoje. Ele foi moderno no tempo dele e a gente é a modernidade de hoje", comenta o baixista Marcelo França.

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