Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

O ensaio de Guinga com Esperanza Spalding

Dupla se apresenta esta semana em São Paulo; Estado conferiu encontro com exclusividade

Lucas Nobile, Especial para O Estado de S. Paulo

17 de janeiro de 2014 | 03h00

Anos atrás, Chico Buarque declarou: “Qualquer um que se interesse por música brasileira vai passar por Guinga”. Entre os brasileiros que confirmam o que Chico disse (incluindo ele, parceiro de Guinga) estão letristas como Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro e Nei Lopes, intérpretes como Elis Regina, Clara Nunes, Nana Caymmi, Elza Soares, Leila Pinheiro, Fátima Guedes e Mônica Salmaso, compositores como Francis Hime, Alceu Valença, Sergio Mendes, Ivan Lins, Djavan e Lenine, além de uma série de instrumentistas (e também compositores) como Raphael Rabello, Hamilton de Holanda, André Mehmari, Antônio Adolfo, Paulo Sérgio Santos e Marcus Tardelli.

Entre os estrangeiros, destaque para o cantor e pianista francês Michel Legrand, o gaitista belga Toots Thielemans e o clarinetista italiano Gabriele Mirabassi. Agora, quem endossa a afirmação de Chico é a contrabaixista, cantora e compositora americana Esperanza Spalding, expoente da nova geração de cantoras do jazz americano. Depois de gravar em seus discos composições de Tom Jobim, de Vinicius de Moraes e Baden Powell, e de se apresentar com Milton Nascimento no Rock in Rio em 2011, ela demonstra sua admiração pela obra de Guinga, com quem se apresenta de hoje a domingo no Sesc Pinheiros.

“Um amigo que toca comigo, o Ricardo Vogt (violonista e guitarrista brasileiro), me introduziu na música do Guinga. E com o convite de vir ao Brasil, me disseram: ‘Você pode tocar com qualquer músico do Brasil, com quem quer tocar?’. Eu escolhi o Guinga. Quem conhece Jobim, Baden, Milton, conhece o Guinga. São pessoas que estão buscando essas melodias, essas composições com um nível de criatividade muito grande”, disse Esperanza anteontem, no começo das três horas de ensaio entre os dois acompanhado com exclusividade pelo Estado num flat nos Jardins.

Foi o primeiro ensaio deles feito pessoalmente. Antes, há cerca de um mês, trocaram ideias via Skype para começar a definir as músicas do show. A comunicação entre os dois (ela nasceu em Portland, nos Estados Unidos, e ele, em Madureira, no subúrbio do Rio) transcorreu sem nenhum problema.

“A gente se conheceu há alguns anos, quando eu fui a um show dela no Rio. Ela já tocava Di Menor (Guinga e Celso Viáfora). Fui ao camarim e pensei: tenho que mostrar alguma coisa da terra dela e tocamos isso aqui”, diz Guinga, interpretando Autumn in New York (Vernon Duke), que estará no repertório, ao lado de outros standards do jazz, como In a Sentimental Mood (Duke Ellington), todos rearranjados com a identidade estética, ao mesmo tempo complexa e intuitiva, peculiar de Guinga.

Em termos musicais, a fluidez do diálogo entre os dois pode ser explicada por dois aspectos. Primeiro, porque Esperanza, com sua admiração pela música brasileira, impressiona por estar bastante familiarizada com o repertório e com o estilo de Guinga, além de mostrar humildade e interesse ao ser apresentada a músicas que não conhecia. Segundo, porque Guinga também conhece e admira profundamente a música norte-americana.

Encantos. “O que me introduziu na música foi isso aqui, que apareceu lá em casa numa gravação do Oscar Peterson Trio”, diz Guinga, tocando Somewhere, de Leonard Bernstein. “Eu tinha 11 anos, ouvi essa música e disse: quero ser compositor. Daí esse meu vínculo tão grande com os Estados Unidos, porque, de certa forma, um compositor americano despertou a música em mim”, completa, contando a Esperanza que, naquela mesma época, ele também se encantara com o disco Focus, de Stan Getz, com composições de Eddie Sauter.

Além de o diálogo musical fluir com naturalidade, o idioma também não trouxe problemas à comunicação entre Guinga e Esperanza. Ele tentava explicar, em inglês, as mudanças de harmonia na sua música Par Constante, enquanto ela acompanhava no baixo e respondia, em português: “Sim, claro. Isso é perfeito!”. Guinga se surpreendeu e perguntou a Esperanza como ela aprendeu a falar português tão bem. Ela respondeu: “Nos livros com as letras de músicas brasileiras. E com um namorado brasileiro que eu tive há muitos anos”.

Mesmo com o tempo curto, o entrosamento entre os dois é rápido, e a cada acorde que o compositor brasileiro faz ao violão, Esperanza suspirava. Em Passarinhadeira (Guinga e Paulo César Pinheiro), por exemplo, a artista americana ficou impressionada com os acordes que Guinga faz utilizando o polegar da mão esquerda (técnica que aprendeu com Marcus Tardelli, a quem chama de “o Michelangelo, o Mozart do violão”).

Alcance. E quando Esperanza falava de outros compositores como Jobim e Baden, Guinga a interrompeu. “O Milton é a paixão da vida dela, tenho um ciúme danado”, brinca. “Sou louco pelo Milton, meu sonho é tocar Saci (Guinga e Paulo César Pinheiro) com a Esperanza e com o Milton. Ele mudou a vida de todos os compositores brasileiros, inclusive a minha. Milton e Chico são os maiores compositores brasileiros vivos”, completa Guinga.

As três horas de ensaio acabaram virando uma aula de música brasileira para Esperanza, já que naquele período eles não passaram apenas o repertório do violonista – Guinga também apresentou a ela músicas de compositores das décadas de 1930 e 1940. Com o violão em mãos, disse: “O Tom teve alguns ídolos: Valzinho, Custódio Mesquita, Ary Barroso, Garoto, Pixinguinha, Villa-Lobos e José Maria de Abreu”. E, sem seguida, tocou a ela temas de alguns desses compositores, como Doce Veneno, de Valzinho, e Boa Noite, Amor, de José Maria de Abreu. Ao que Esperanza respondeu, novamente em português: “Isso é lindo”.

Ao fim do ensaio, Guinga comentou sobre o alcance de sua obra no exterior. “Estou com 63 anos, o que me resta? É uma injeção de vida eu ver que minha música vai entrando nos mais jovens. Recentemente, fui tocar na escola onde a Esperanza estudou, na Berklee College, em Boston. Ver aqueles jovens do mundo inteiro se interessando pela minha música é muito emocionante.”

Aos 29 anos, figura das mais respeitadas da nova geração do jazz, Esperanza explicou o interesse pela obra de Guinga. “Todos os compositores conhecem a obra do Guinga. A música dele está tocando o mundo. A melodia, hoje, é como ouro, algo raro de encontrar, uma melodia que penetre em você. Quando eu escutei a música do Guinga, foi como encontrar água depois de anos sem água”, disse a americana.

“Nos Estados Unidos não tem melodia, não tem essa alma, de você ficar com os pelos arrepiados. Estamos com fome dessa melodia real, que vem de um lugar não matemático ou técnico, de um livro, de um estilo. Eu me sinto confortada quando vejo que outros como eu estão com fome, com sede de receber essas melodias. Me encanta esse amor que o Guinga tem para escrever essas melodias muito loucas, que são difíceis, mas que tocam o coração. Precisamos mais disso no mundo”, completou ela.

ESPERANZA SPALDING E GUINGA

Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195, 3095-9400. 6ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 6,40/R$ 32.

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