O encontro de Villa-Lobos com a vanguarda européia

Foi ali que o nacionalismo brasileiro encontrou a vanguarda européia. Convidado pelo pianista Arthur Rubinstein - e empurrado pela crítica do País, que insistia na necessidade de que ele fosse a "um grande centro" finalizar seus estudos - Villa-Lobos chegou a Paris em 1923. Ele sempre gostou de afirmar que não havia viajado à Europa para aprender mas, sim, para mostrar seu trabalho. É verdade, mas só em parte. A estada na capital francesa marcaria profundamente o trabalho do compositor. E o que era certeza teórica em estudos e livros agora ganha ilustração primorosa com um disco, organizado pelo maestro Gil Jardim, em que é recriado o primeiro concerto de Villa-Lobos na Europa. "A França era o grande centro cultural do princípio do século passado. Lançar-se em Paris era a melhor forma de estabelecer-se como notável compositor e ter sua carreira internacional definitivamente promovida", diz Jardim. "A personalidade forte do compositor agregou às duas primeiras viagens que fez à cidade uma importância fundamental para sua futura produção. Conviveu com a vanguarda musical de uma época em que os compositores procuravam alternativas estéticas ao sistema tonal." O disco, Villa-Lobos em Paris - com um time de primeira de intérpretes como o pianista Nahim Marun e o flautista Toninho Carrasqueira - já é um forte indício da importância deste encontro. Ele reproduz exatamente o programa daquele concerto de maio de 1924: Quatuor, Prole do Bebê nº 1, Epigramas Irônicos e Sentimentais, Pensées d´Enfant e Nonetto. E se, em algumas delas levadas já prontas a Paris, a influência de Debussy é facilmente identificável, em outras, escritas já na França, já se percebe um flerte com Stravinski. "Parte das obras certamente traz uma forte influência da estética francesa de Debussy e outras nos remetem rapidamente a Stravinski. Contudo, obras como Epigramas Irônicos e Sentimentais e Pensées d´Enfant, inéditas em disco, nos apresentam um Villa-Lobos ainda desconhecido no Brasil. Um compositor que também procurava os caminhos da música para o século 20. São obras que podem ser programadas em qualquer festival de música contemporânea atual. Essa foi sua fase mais arrojada esteticamente", diz Jardim, que ressalta o modo como a música de Villa foi recebida pelo establishment parisiense. "O concerto contou com performances de Arthur Rubinstein e Vera Janocopulus, ao lado da Sociedade Moderna de Instrumentos de Sopros e do Coral Mixto de Paris, e teve a regência do próprio compositor. O crítico francês B. de Schloezer escreveu que o talento e a faculdade de invenção de Villa-Lobos eram inegáveis, mencionando a dose de exotismo de suas obras, ao lançar mão de temas indígenas brasileiros tratados com a elaboração discursiva e formal européias." Usar a expressão "exotismo" e associá-la a nacionalismo musical é pisar em terreno minado. Na virada do século 19 para o 20, o nacionalismo era um fenômeno internacional, preocupação não apenas de Villa-Lobos mas também de compositores como Sibelius, Manuel De Falla, Ginastera. Mas o escritor cubano Alejo Carpentier, em um ensaio escrito nos anos 30, já atentava para o fato de que, com os latino-americanos, o termo acaba sempre sendo visto como pejorativo, de cima para baixo, como curiosidade e não como manifestação válida de toda uma cultura. No caso de Villa-Lobos, a questão é fundamental. Estudos recentes, em especial o livro O Caminho Sinuoso da Predestinação, de Paulo Guérios, têm como foco principal não só a música de Villa-Lobos mas o modo como o compositor trabalhou cuidadosamente na construção de sua imagem. O autor oferece uma leitura alternativa para a viagem de Villa-Lobos a Paris e para seu nacionalismo. Em primeiro lugar, o compositor nunca teria viajado pelo interior do País, fazendo coisas como navegar solitário em uma canoa pelo Rio Amazonas, em busca de manifestações regionais que mais tarde recriaria em suas obras. O autor diz mais. O nacionalismo de Villa teria surgido menos de concepções estéticas que da necessidade sentida, na chegada a Paris, de se adequar a uma expectativa específica (o tal exotismo) por parte do establishment musical local. Mais: a associação à estética de Stravinski se daria apenas porque as investigações musicais do compositor russo serviriam perfeitamente a este novo desejo nacionalista do compositor. Como Gil Jardim vê tudo isso? "Como diz Brecht, infeliz é o país que precisa de heróis. Ao longo destes anos vimos muitos livros serem publicados sobre a pessoa de Villa-Lobos, mas raros analisando sua obra musical. O Brasil desconhece a grandiosidade do seu acervo e se nos ocuparmos mais com as histórias que envolvem o compositor do que com seu acervo, estaremos deixando de usufruir o que de melhor este grande compositor nos ofereceu. O que foi feito de todo o legado que Villa nos deixou? Isso é importante. Não temos mais música no ensino regular, não temos uma proposta de envolvimento nacional, não conhecemos Villa."

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