Fernando Fiuza/Divulgação
Fernando Fiuza/Divulgação

O encantamento que vem da Rua 57

CD de Benjamin Taubkin gravado em recital solo em 2007 no Fazioli Salon, em NY, é fascinante aventura musical

João Marcos Coelho, Especial para o Estado

10 de dezembro de 2010 | 06h00

No Brasil, só há um piano de concerto Fazioli - e ainda assim em mau estado de conservação, segundo o pianista Gilberto Tinetti, que o experimentou e maravilhou-se mesmo assim com o instrumento. Eles são raros mesmo. A fábrica em Sacile, a 50 km de Veneza, produz artesanalmente menos de uma dezena de pianos por mês há cerca de 30 anos. Paolo Fazioli, engenheiro e pianista de formação, começou em 1980 usando um canto da fábrica de móveis da família. Só faz modelos de concerto - o maior deles, o F 308, mede quase 4 metros.

A riqueza dos sons, a sonoridade quente, volumosa e ao mesmo tempo macia, soft, os baixos ressonantes e os agudos aveludados - essas são as marcas do Rolls-Royce dos pianos, feito com abeto do vale de Fiemme, a mesma madeira que Antonio Stradivari usou em seus célebres violinos no século 18. Por isso, Alfred Brendel e Murray Perahia, Brad Mehldau e Herbie Hancock preferem Fazioli.

É preciso contar essa história para avaliar a importância do CD que o pianista Benjamin Taubkin lança nesta sexta-feira, 10, na Funarte. Ele o intitulou A Pequena Loja da Rua 57, já que foi gravado em recital solo em 2007 no Fazioli Salon da rua 57, bem pertinho do Carnegie Hall, que tem um F308 onde tocaram Perahia, Lazar Berman, Brendel e outros grandes do teclado.

Não conversei com Taubkin, mas transparece, na notável música improvisada que ele produz nessa aventura musical estupenda, o fascínio que o Fazioli lhe proporcionou. Provavelmente, o quarto pedal, que só o Fazioli tem (aproxima o martelo das cordas, diminui o volume, porém mantém o tom normal), levou Taubkin a ser ainda mais zen. Sua versão ECMizada de O Morro Não Tem Vez, é bom exemplo da serenidade que paira nas 11 faixas.

ECMizado, no caso, refere-se à cartilha estética da gravadora europeia ECM de Manfred Eicher. Mas isso não é desdouro algum. Pois assim como se ouvem, aqui e ali, ecos de seus ídolos Keith Jarrett, Bill Evans e Brad Mehldau, de outro lado Taubkin exibe abordagem brasileiríssima da música improvisada. As 11 faixas são excepcionais, mas se fosse apontar uma acima das demais, seria Caipira: 9 minutos de encantamento. Ou a vinheta A Melodia e a Semente, que encapsula, em 1 minuto, toda uma estética com DNA próprio. Memoráveis os tributos a Jacob do Bandolim (em Vibrações), Pixinguinha (Proezas de Sólon); e mesmo as impressões sonoras daqueles dias nova-iorquinos (Meu Outono em NY).

Hoje, Taubkin não terá a companhia do F308 Fazioli de concerto. Mesmo assim, valerá a "viagem" de quem se dispuser a compartilhar com ele o prazer de improvisar.

Benjamim Taubkin - Sala Guiomar Novaes. Complexo Cultural Funarte. Alameda Nothmann 1.058, Santa Cecília, 3662-5177. Hoje, às 21 h. R$ 10.

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