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O cantor e compositor Mark Knopfler lança o elogiado disco 'Tracker’

Músico britânico que fez sucesso com a banda Dire Straits mostra sua paixão por compor

Gary Graff, The New York Times

09 de junho de 2015 | 08h00

Mark Knopfler ficou conhecido por criar suas músicas com todo o vagar que achar necessário. Entre Brothers in Arms, o sucesso da banda Dire Straits (1985), e o sexto e último álbum do grupo, On Every Street (1991), passaram-se seis anos. Entretanto, sua carreira solo foi algo completamente diferente. Desde Golden Heart (1996), ele vem produzindo músicas a intervalos regulares, que variam de um a três anos, sem contar as trilhas de filmes. Somente nesta década, o herói britânico da guitarra, cantor, autor e bandleader lançou uma caixa com dois discos, Privateering (2012), à qual se seguiu Tracker, deste ano, seu 8.º álbum solo; as críticas têm sido excelentes.

O que explica o aumento de sua produtividade? “Imagino que seja porque, com o tempo, aprendi a escrever durante as viagens”, disse Knopfler, 65 anos, falando ao telefone de sua casa-estúdio em Londres. “Imagino que hoje não seja mais tão distraído como antes. Por outro lado, se você está pensando que o caminho pela frente é um pouco menor do que o que já percorreu, você procura escrever boa música, na esperança de que sua gravação seja igualmente boa. Acho que tudo se resume a isto”, afirmou. “Acho também que, ao longo dos anos, a gente aprende a respeitar o pouco talento que tem, então procura aproveitá-lo ao máximo”

Por isso, hoje, quando Knopfler está em turnê, é mais provável encontrá-lo com uma guitarra na mão e algum aparelho de gravação por perto.

“Se você me viu no elevador com uma cadeira é porque a que havia no meu quarto tinha braços e eu procurava uma cadeira comum para poder tocar guitarra e terminar a música no hotel. Tenho também caixas acústicas, que carrego numa pequena valise, muito práticas, de maneira que posso continuar criando, esteja onde estiver”, explicou Knopfler, que nasceu em Glasgow, em 12 de agosto de 1949.

Knopfler não para de compor há um bom tempo. Inspirado pelo tio, que tocava gaita e boogie-woogie no piano, o músico escocês começou tocando guitarra, quando jovem, e já se apresentava em bandas antes mesmo de ir para a faculdade, onde trabalhou por algum tempo como repórter.

Depois de se formar na Universidade de Leeds, em 1973, Knopfler se mudou para Londres, onde criou um estilo de dedilhado para a guitarra influenciado pelo grande músico Chet Atkins, de Nashville, e tocou na banda chamada Café Racers. Ele lembra dessa fase na música de abertura de Tracker, Laughs and Jokes and Drinks and Smokes. Formou a banda Dire Straits em 1977, com o irmão mais novo, David Knopfler, e John Illsley na guitarra e no baixo elétrico. O grupo fez grande sucesso com a estreia do seu single Sultans of Swing (1977).

Nos mais de 18 anos seguintes, o Dire Straits vendeu mais de 12 milhões de álbuns no mundo inteiro, ganhou quatro prêmios Grammy e fez novos sucessos, como Money for Nothing (1985), So Far Away (1985) e Walk of Life (1985). O single Brothers in Arms vendeu mais de 30 milhões de cópias e o disco do mesmo nome foi o primeiro a atingir um milhão de cópias em CD.

O grupo nunca se dispersou formalmente, mas está parado desde 1995.Segundo Knopfler, é improvável que ele volte à ativa, salvo talvez “um ou outro show, talvez para fins beneficentes”. "Não acredito que o grupo volte a tocar de novo", reforçou. Entretanto, Knopfler não está preocupado em continuar trabalhando intensamente. Ele começou a escrever trilhas para filmes com Local Hero (1983) e desde Golden Heart lançou mais oito álbuns solos. Também produziu para Bob Dylan, Randy Newman e outros, e gravou álbuns em colaboração com Atkins e Emmylou Harris. Pode ser ouvido no novo álbum de duos de Van Morrison, numa versão de Irish Heartbeat. Entretanto, afirmou, sua paixão, atualmente, é compor.

“Parece que as canções querem sair”, ele disse. “Mas eu não preciso me esforçar demais, nem me preocupo. Se uma canção não acontece e não quer responder num determinado dia, eu passo adiante ou me levanto e faço outra coisa.Pode ter certeza que não é nenhuma perda”, acrescentou. “Há uma grande quantidade de canções no mundo.”

As ideias para suas músicas vêm de toda parte. “Não há uma fórmula, elas surgem por muitas razões”, sejam óbvias, como em Lights of Taormina – que escreveu quando estava “sentado num terraço maravilhoso, olhando para Taormina lá embaixo” –, seja por causa de episódios que acontecem durante as viagens.

“Elas saem por qualquer razão – o lugar onde me encontro fisicamente, geograficamente, naquele momento, ou por uma observação feita por alguém ou algo que eu esteja lendo”, explicou. “É sempre por acidente. Não é que eu leia mais do que as outras pessoas, mas,às vezes, estou lendo e é como se uma luz se acendesse.” 

Este último fenômeno, certamente, pode ser percebido em algumas canções de Tracker, como Beryl, e Basil, sobre a escritora britânica Beryl Bainbridge e o poeta Basil Bunting, respectivamente.Beryl, na realidade, inclui referências sonoras a Sultans of Swing, porque algumas das obras mais famosas da escritora, como Injury Time (1977) e Young Adolf (1978), apareceram quase ao mesmo tempo.

“Parecia adequado para a época, que eu escrevesse sobre ela”, lembra Knopfler. “Era uma escritora fantástica, mas naquele tempo o establishment era assim, o establishment literário; todos os juízes dos concursos literários eram formados em Oxford e ela não era. Moça da classe operária de Liverpool, Beryl nunca cursara uma universidade. Seu editor nem sequer dera aos seus romances uma classificação muito elevada, e aquilo, ainda que de certo modo perverso, parecia coadunar-se com Beryl.”

A boa notícia para os fãs de Knopfler é que sua capacidade de produzir não dá sinais de que vai diminuir tão cedo. Ele tem uma lista de umas 55 canções e ideias para canções, prontas para serem trabalhadas. “As canções continuam surgindo. Dou uma olhada nelas e me pergunto se algum dia verão a luz. Pretendo fazer o possível para que algumas, pelo menos, consigam.Nem todas se tornarão canções”, prosseguiu. “Acho que muitas cairão pelo caminho. Não acredito que haja mais de uma ou duas boas, entre elas. É muito difícil saber, mas diria que a maioria não conseguirá atravessar a terra de ninguém.Mas, pode crer, é muito divertido tentar.”

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA


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