O Brasil cantado por seis músicos latinos

Série vai mostrar canções inéditas e passeios pelas cidades-sede da Copa

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

16 Março 2014 | 02h13

Poucos minutos depois de o avião levantar voo do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, rumo a São Paulo, Jorge Drexler viu o Cristo de braços abertos e resolveu a questão. Sua missão era chegar aos estúdios da Trama, em Pinheiros, com uma música nova, que resumisse seu sentimento pelo País, e teve na imagem do Redentor a inspiração que precisava. Em 45 minutos, tempo de voo na ponte aérea, fez Desde el Dia en Que Brasil me Abrió Sus Brazos e atendeu uma encomenda que havia lhe caído como presente.

O uruguaio Drexler, seminaturalizado brasileiro, é um dos latino-americanos convidados para participar de um projeto que pode ajudar a derrubar fronteiras naturais que o mercado brasileiro de música pop insiste em manter com os países do idioma espanhol. Criado pelas produtoras beGIANT e Neogama BBH, com produção da primeira em parceria com a Santa Rita Filmes, a série de programas para TV chamada Encuentros en Brasil - assim mesmo, em espanhol - será transmitida pelo canal HBO (que ainda não acertou a data de exibição). Uma lógica bem amarrada permite que músicos latinos venham falar e cantar para um país que pouco conhecem ao mesmo tempo em que dão à audiência brasileira a chance de ouvi-los.

São seis artistas de seis países que visitaram, cada um, duas cidades diferentes do Brasil. Todos fizeram uma canção exclusiva para o Brasil. Na primeira cidade, geralmente uma metrópole, gravaram um clipe. Na segunda, em geral paraísos naturais, fizeram imagens e vivenciaram os destinos turísticos. O único brasileiro que surge na tela é Paulinho Moska, diretor artístico do projeto, produtor das faixas compostas pelos artistas e também criador de uma das músicas inéditas do programa. João Marcello Bôscoli assina a curadoria.

Os artistas, seus respectivos países e as cidades brasileiras que visitaram são: Jorge Drexler, do Uruguai, que gravou em São Paulo e Fortaleza; o norte-americano naturalizado argentino Kevin Jonhansen, que visitou Belo Horizonte e Recife; a chilena Francisca Valenzuela, que foi ao Rio de Janeiro e Manaus; a dupla peruana Alejandro e Maria Lara, que esteve em Porto Alegre e Cuiabá; a colombiana Andrea Echeverri, que foi a Salvador e Brasília, na Chapada dos Veadeiros; e a mexicana Natalia Lafourcade, visitante de Natal e Curitiba. Não por acaso, os destinos escolhidos foram as 12 cidades que serão sede da Copa do Mundo, em junho.

"A estratégia foi mostrar o Brasil para a América Latina usando a credibilidade dos artistas, transformarmos os artistas em turistas", diz o produtor e um dos responsáveis pelo projeto, Guga Lemes.

As sete canções inéditas às quais a reportagem teve acesso, seis dos artistas e uma de Paulinho Moska, estarão em breve em um disco. Os vídeos também devem ganhar vida própria nas redes sociais.

Os produtores Lemes e Felipe Barahona contam ainda que todo o making of das gravações das canções nos estúdios da Trama, assim como a chegada dos artistas às cidades, estão sendo gravados.

Jorge Drexler fez uma declaração ao País que ele tem como segunda casa. Fã de Caetano Veloso, conhecedor de música brasileira em profundidade, criou uma canção que começa com os versos "En el cuerpo una sonrisa / Y en la sonrisa un retazo / De una alegria sutil / Desde el dia en que Brasil / Me abrió sus brazos" (em tradução livre, algo como "no corpo um sorriso / e no sorriso a sobra / de uma alegria sutil / desde o dia em que o Brasil / me abriu seus braços"). No vídeo gravado para o especial, Drexler agradece aos produtores. "Sou um apaixonado pelo País desde criança, e agora puder cristalizar esta paixão." Em suas dezenas de vindas a São Paulo para tocar, jamais pode quebrar o circuito hotel - casa de show. Foi a primeira vez que pode visitar locais como a Pinacoteca de São Paulo e o Parque do Ibirapuera.

Do Peru venha talvez a atração menos conhecida por aqui. Alejandro e Maria Laura. Jovens que se conheceram em 2004 como estudantes de comunicação visual da Pontifícia Universidade Católica do Peru, mas começaram a desenvolver um trabalho em 2009, quando viajaram aos Estados Unidos para trabalhar em um resort. Dos encontros com violões, tiraram despretensiosamente uma sonoridade folk. Seu primeiro disco foi gravado em 2011, em Buenos Aires. Em 2013, lançaram Festa para os Mortos e sedimentaram uma carreira no indie peruano festejada em países latinos.

A colombiana de Bogotá Andrea Echeverri é ex-vocalista da banda Aterciopelados. A mais roqueira do time, indicada em 2013 para o Grammy Latino na categoria de melhor cantora pelo disco Ruiseñora, o terceiro de sua carreira desde 1990, é também guitarrista, gaitista e percussionista.

Natalia Lafourcade, do México, foi o final feliz de uma troca de elenco. A princípio, a artista convidada para representar os mexicanos foi Julieta Venegas, que não pôde aceitar por incompatibilidade de agendas. A própria Venegas sugeriu Natalia, que trouxe um frescor ainda maior ao projeto pelo fato de ainda não ser uma megastar como a conterrânea.

A Argentina estará representada na música de um cantor nascido no Alasca e hoje cidadão argentino. Kevin Jonhansen, que também faz frequentes viagens ao Brasil, compôs sua exaltação ao País, chamada Cada Persona És Un Brasil.

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