O barítono Simon Estes no Municipal

Um dos principais representantes da cena lírica norte-americana e internacional, o baixo-barítono Simon Estes apresenta-se nos dias 20 e 21 no Teatro Municipal de São Paulo. Estes, primeiro cantor negro a aparecer no Festival de Bayreuth, será acompanhado, ao piano, pelo versátil solista suíço André Desponds, fundador e diretor do Gershwin Piano Quartet.A primeira parte da apresentação é dedicada a Verdi. Ele abre o concerto com a interpretação de Vieni, o Levita!...Tu Sul Labbro, inspirada invocação da ópera Nabucco. Na seqüência, ele canta A Te l´Estremo Addio...Il Lacerato Spirito, de Simon Boccanegra. Desponds interpreta, então, a Polonaise Op. 53 em Lá Bemol Maior, de Chopin. Estes volta ao palco para o comovente e profundo solilóquio do Rei Filipe II de Don Carlo: Ella Giammai m´Amò. Canta, então, de Ernani, a ária Che mai Vegg´io!...Infelice!...e Tu Credevi. Encerrando a primeira parte está Studia il Passo...Come dal Ciel Precipita, de Macbeth.A segunda parte tem início com o trecho de Lohengrin, Mein Herr und Gott, única presença de Wagner no concerto. O público, então, será brindado com a célebre ária do toreador da Carmem, de Bizet: Votre Toast. Andre Desponds executa uma transcrição para piano da canção I Got Plenty O´Nuttin, de Porgy and Bess, ópera de Georges Gershwin. A partir daí, os musicais norte-americanos são o destaque. Jerome Kern aparece com Old Man River, de seu Show Boat. Do musical Carousel, Estes interpreta You´ll never Walk alone, de Richard Rodgers. De Rodgers é também a canção que encerra o concerto: Climb ev´ry Mountain, de The Sound of Music.CarreiraO programa dos concertos é uma tentativa de mostrar um pouco daquilo que marcou a carreira de Estes ao longo dos anos. Tarefa, no entanto, bastante difícil: Goldschmidt, Gounod, Monteverdi, Mozart, Puccini, Rossini, Saint-Saëns, Stravinski, Mahler e Mussorgski são alguns dos compositores que fazem parte de seu extenso repertório, que inclui quase cem papéis em óperas e partes de solistas em concertos e sinfonias.No entanto, a presença de Verdi, Wagner e canções norte-americanas é reflexo daquilo que é a tônica de seu trabalho. "É um programa misto, que inclui canções e árias que fazem parte da minha história: dediquei-me bastante à ópera, mas as canções de musicais e da tradição negra norte-americana povoaram toda a minha infância, influenciando-me ao longo de minha carreira", afirma.Apesar da diversidade de seu repertório, foi com personagens de Verdi e Wagner, compositores que, de modos diferentes, se mostraram bastante hábeis na criação de papéis para vozes baixas, que Estes despontou para a fama. Para ele, não há muita diferença na técnica vocal exigida pelas partituras dos dois compositores. "A técnica vocal e o processo de preparação são os mesmos, e exigem bastante dedicação", aponta. Já no que diz respeito à interpretação, ele ressalta algumas diferenças. "Enquanto em Verdi as óperas e os textos são mais curtos, em Wagner as óperas são muito longas e a presença de um texto maior exige um poder de interpretação redobrado", afirma o cantor, um dos principais intérpretes de Wotan, de As Valquírias de Wagner e Filipe II, de Don Carlo, de Verdi.Em Don Carlo, aliás, ele já interpretou os principais papéis para baixo: Carlos V, O Grande Inquisitor e Filipe II. Estes recorda com muito gosto uma gravação da ópera feita em 1971, ao lado de nomes como Placido Domingo, Montserrat Caball e Rugero Raimondi. À frente da Orquestra do Covent Garden, o maestro Carlo Maria Giulini. "Os ensaios já haviam começado e Giulini não ficou contente com o baixo que interpretaria Carlos V e me chamou para gravar". Com Giulini, Estes já gravou também o Requiem de Mozart, o Requiem de Verdi e a Nona de Beethoven. "Foi uma experiência musical fantástica, além de um grande aprendizado espiritual". Para ele, o controle de Giulini sobre todos os aspectos da gravação e da partitura era incrível. "Giulini controlava como ninguém todos os músicos e cantores envolvidos e sempre trabalhou ao nosso lado, nos perguntando o que achávamos". Essa gravação, que se transformou em referência quando o assunto é "Don Carlo", foi remasterizada pela EMI Classics em 1986 e, nessa versão, é mais fácil de ser encontrada.Gravações históricas, aliás, não são artefatos raros na carreira de Estes. Suas interpretações em Macbeth, Parsifal, O Navio Fantasma, As Valquírias, O Ouro do Reno, são antológicas. "Gravar exige condições vocais excelentes: o cantor precisa estar descansado e as condições emocionais e musicais precisam ser ideais". Além de Giulini, Estes já trabalhou com outros grandes maestros, como Lorin Maazel, Georg Solti, James Levine e Seiji Ozawa. "Ter a oportunidade de trabalhar com esses maestros foi uma honra indescritível e uma grande fonte de aprendizado".Outro maestro que traz boas lembranças a Estes é Leonard Bernstein. "Foi um dos maiores gênios de todos os tempos e é uma grande pena que tenha morrido tão cedo". Segundo ele, Bernstein, em sua multiplicidade e versatilidade, tinha a música como parte central de sua vida. "Eu costumo brincar que todas as células de seu corpo eram música".MensagemEstes iniciou seu contato com a música muito cedo. Aos 8 anos, cantava na Segunda Igreja Batista de Centerville, em Iowa, seu Estado natal. A decisão de dedicar-se profissionalmente à música, no entanto, apareceu anos mais tarde quando o jovem estudante de medicina começou a cantar no grupo Old Gold Silver, da Universidade Estadual de Iowa. "Numa noite, após uma apresentação, Charles Kellis, professor da universidade perguntou-me se eu teria interesse em aprofundar meus estudos e dedicar-me integralmente à música".A proposta provocou dúvidas e incertezas. "Nunca havia pensado em cantar profissionalmente". Aos poucos, no entanto, a idéia foi amadurecendo. "Foram me emprestando discos e me levando para assistir às produções e, quando vi, estava em Nova York, estudando na Julliard School". Hoje, além de ser um dos principais cantores de todo o mundo, convidado das principais casas de ópera e de concerto, Estes desenvolve, também, carreira acadêmica, lecionando na própria Julliard, e coleciona títulos honorários em diversas instituições de ensino dos Estados Unidos.Ao olhar para sua carreira, ele se mostra orgulhoso de ter feito parte de alguns dos principais movimentos políticos do século. "Já cantei para muitos presidentes e líderes políticos, como Nelson Mandela, o que me deixa muito contente". Planos? "Espero conseguir levar mensagens de amor e paz, por meio da música, às pessoas, razão pela qual eu canto".

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