O auto-retrato do líder de uma geração

Saiu na semana passada em Londres oaguardado livro Journals, uma coleção com os cadernosperdidos - diários, cartas, memorandos, desenhos, esboços decanções e apontamentos vários - do cantor Kurt Cobain(1967-1994), o vocalista suicida do grupo americano Nirvana.Lançado pela editora Riverhead Books, Journals só saiudepois de um acordo com a viúva de Cobain, a também cantoraCourtney Love, que recebeu a ninharia de US$ 4 milhões pelacessão do material. A reportagem recebeu na sexta-feira, com exclusividade,um exemplar de Journals. Você pode pensar: o que fazer comum monte de anotações cheias de erros gramaticais num cadernoestudantil? Creia-me: ler os diários de Cobain não tem nada aver com gastar milhares de dólares para ter em casa a guitarraqueimada de Jimi Hendrix. Cobain demonstra incrível lucidez como seu papel de líder geracional - pelo menos até dar um estúpidotiro na cabeça. "Neste ponto da nossa, uh, carreira, antes dostratamentos para perda de cabelo e da falta de crédito, eudecidi que não tenho desejo de fazer uma entrevista com aRolling Stone", escreveu Cobain. "Nós não teríamos vantagemcom isso porque o medíocre leitor da Rolling Stone é umex-hippie de meia-idade - que virou hippie-pócrita - que abraçao passado como ´os dias gloriosos´; e tem uma abordagem maisgentil, afável e adulta encobrindo seu conservadorismoliberal." Os diários de Cobain revelam o manifesto da geraçãogrunge, que finalmente - após sua publicação - poderá serchamada de "movimento", como pede o protocolo histórico.Cobain percebeu que uma geração anula a outra, ou "o inimigo",como escreveu, copiando-a ou fazendo uso dela. Recusou-se afazer esse papel. Usa termos como "revolucionários" e vê a"geração de agora" tomando as ruas de Wall Street eenfrentando os dinossauros do passado. O sucesso também foi uma meta calculada por Cobain, queprescindiu até quando pôde dos meios massivos de divulgação."Então, ao longo dos últimos meses, nossa fita demo foipirateada, gravada e discutida entre todos os luminares da cenade Seattle", escreveu. "Mas eu acho que ter tocadoregularmente no (clube) KCMU provavelmente ajudou, com aspessoas que vinham nos ver - não para ficar bêbadas no bar, masas que vinham só para ver o showcase." Journals vinha sendo aguardado com ansiedade pelosnirvanamaníacos - muitos deles ungidos pelo velho espíritonecrófilo que ronda o rock-n´-roll desde seus primórdios. Partedesse legado de diários e anotações foi salva da casa de Cobaindepois de sua morte por Eric Erlandson, amigo do cantor eex-guitarrista da banda de Courtney, Hole. Erlandson viu queestava rolando um saque dos pertences do cantor morto e salvou oque pôde. Mas mesmo Erlandson fica constrangido com a publicaçãode coisas tão íntimas, segundo relatou ao The New YorkTimes. "Eu só rezo para que os benefícios recebidos pelomundo superem os resultados negativos", disse ele. "Mas se osmeus diários se tornassem públicos, eu faria de tudo pararenascer como uma pedra no sapato do responsável. É o mínimo queeu poderia fazer." Entre os rabiscos de Journals, o leitor vaiencontrar - em páginas editadas em fac-símile, com a pauta doscadernos e os garranchos todos - o esboço da canção-símbolo dogrunge, Smells Like Teen Spirit, e uma reveladora históriaem quadrinhos desenhada por Cobain, The Smiley´s. Em The Smiley´s, toda a tragédia da Geração X estáestampada em quadrinhos toscos, um desenho primitivo depré-escolar. Os personagens são Mamãe (uma dona de casa que fazentregas de drogas por telefone), Papai (um sujeito ausente,como quase todos os outros), Jennifer (uma irmã chatinha) e oprotagonista, Chucky Jr. (um piromaníaco com tendênciashomicidas que vive num mundo de fantasia, uma Cartoon Land). Está lá uma frase que já se tornou polêmica antes mesmodo lançamento do livro ("Espero morrer antes de me tornar PeteTownshend"), mas também outras igualmente controversas. "Sóvou vestir uma daquelas camisetas estampadas se estiver pintadacom a urina de Phil Collins e o sangue de Gerry (sic) Garcia",escreveu Kurt Cobain. O leitor brasileiro acha que vai demorar uma eternidadepara ler o livro? Ilusão. Journals chega na quinta-feira aoPaís, por meio da importadora Livraria Cultura, e vai custar RS125,80 (Avenida Paulista, 2.073, São Paulo, Conjunto Nacional,tel. (11) 3170-4033.

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