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O ano das lives: será que elas vieram para ficar?

Para especialistas, modelo híbrido, no qual o show presencial possa ser transmitido online, deve ser uma realidade mesmo no pós-pandemia

Danilo Casaletti, Especial para o Estado

26 de dezembro de 2020 | 05h00

Uma das palavras mais ouvidas neste ano foi “live”. Com a paralisação dos shows ao vivo, os artistas viram nas redes sociais uma possibilidade de continuar presente entre o público. Em um primeiro momento, o movimento era amador: o cantor abria a câmera e se apresentava para o público, como um afago em tempos em que é preciso ficar em casa para conter o avanço da covid-19.

Porém, no dia 28 de março, aqui no Brasil, o sertanejo Gusttavo Lima foi além de um cantinho, um violão e um celular. Em uma live patrocinada que durou mais de cinco horas, ele mostrou que era possível fazer do ao vivo na internet uma fonte de renda diante das bilheterias fechadas – e atrair um grande público.

“O Gusttavo Lima sempre gostou de fazer produções grandiosas. Ele enxergou que podia fazer algo maior do que um artista com seu violão tocando em casa”, diz o jornalista André Piunti, autor do site Universo Sertanejo e do livro Música Sertaneja – Uma Paixão Brasileira (volumes 1 e 2).

Diante da porteira aberta, outros artistas seguiram pelo mesmo caminho e, segundo um ranking elaborado pelo YouTube (veja a lista abaixo), os artistas sertanejos lideram a audiência mundial do formato. Das dez transmissões ao vivo de música com maior audiência de todos os tempos na plataforma de streaming, oito são brasileiras – sete são sertanejas. Essa audiência recorde foi conquistada nos dois primeiros meses de isolamento, entre abril e maio.

 

O primeiro lugar ficou com Marília Mendonça, com a Live Local, realizada em 8 de abril, que alcançou pico de 3,31 milhões de visualizações simultâneas – ou seja, enquanto a apresentação acontecia ao vivo. De lá pra cá, a live, que durou 3 horas e meia, já tem mais de 55 milhões de acessos. Marília também ocupa a 8ª posição do ranking com a live Todos os Cantos da Casa.

Em segundo está a dupla Jorge & Mateus, que em 4 de março levou 3,24 milhões de pessoas a assistirem à Live Na Garagem. Quebrando a hegemonia sertaneja, o italiano Andrea Bocelli aparece em terceiro com a apresentação na Catedral de Milão, na Itália, vazia, no domingo de Páscoa. Outro estrangeiro entre os dez artistas mais vistos no mundo foi o grupo sul-coreano BTS, com 2,31 milhões de espectadores. Gusttavo Lima ficou em 7º, com a segunda live que fez, em 11 de abril.

 

Piunti afirma que o sucesso dos sertanejos no YouTube veio da capacidade que artistas, empresários e produtores tiveram em se articular para criar um modelo rentável. Ele acredita que as lives devem continuar, mesmo que os shows para públicos maiores sejam liberados quando a pandemia der trégua. “O sertanejo sempre foi muito focado em shows, que é de onde vem o dinheiro mesmo, mas não tinha essa articulação direta com os patrocinadores. As lives ajudaram nessa aproximação. Acredito que Jorge & Mateus, por exemplo, podem fazer uma live a cada três meses, bancada por alguma marca, para lançar um disco novo, fazer uma divulgação. Cada um vai achar seu modelo.”

Júlia Braga, head comercial da gravadora Som Livre, que tem a cantora Marília Mendonça em seu cast, diz que as lives se tornaram um meio de aproximação entre artista e público. A análise da executiva vai na mesma linha de Piunti em relação ao modelo de negócio que foi criado. “As lives patrocinadas geraram uma receita para a indústria fundamental nesse período, mas entendemos que também destravaram possibilidades futuras de parceria, mesmo após passada a quarentena. Outro ganho foi o fato de os artistas usarem sua força para arrecadações em prol de instituições e comunidades. E quando as marcas somaram nestas ações, facilitou ainda mais toda essa logística”, diz.

Para Júlia, uma das possibilidades será um modelo híbrido de show + live, e o que o momento é de entender como a indústria da música vai funcionar nos próximos anos. “Muitas frentes se abriram e é nisso que estamos trabalhando, entendendo o que pode ser feito, o que público quer e olhando o nosso portfólio de produtos, como os nossos festivais, para adaptá-los a esse novo mundo. Estamos atentos às mudanças e às inovações que envolvem o comportamento e o consumo seguro da música, isso é decisivo para o sucesso.”

Fora do circuito das megalives, o Sesc São Paulo realizou desde abril, dentro do projeto #EmCasaComSesc, 434 transmissões ao vivo de shows, peças teatrais, espetáculos de dança, atividades infantis e treinos esportivos. O conteúdo, disponível no youtube.com/sescsp, soma mais de 13,5 milhões de visualizações. Entre os artistas que se apresentaram estão Adriana Calcanhoto, Erasmo Carlos, Elza Soares, Arnaldo Antunes e Majur.

 

QUAL FOI SUA LIVE FAVORITA EM 2020?

‘Caetano Veloso expressou um acolhimento musical’

“Em 2020, as músicas afetivas nos confortaram em meio à pandemia. Levando esse tipo de repertório para o campo das lives, Caetano Veloso foi o músico que melhor expressou esse “acolhimento musical” em sua primeira apresentação ao vivo, no dia de seu aniversário, 7 de agosto – depois de uma campanha liderada pela mulher, a produtora Paula Lavigne, para que ele se rendesse ao formato.

 Apresentada na sala de sua casa, a live foi como um abraço no espectador, que pôde acompanhá-la pelo Globoplay. A sensação era exatamente essa: a de um abraço. Cercado por seus talentosos filhos, Moreno, Zeca e Tom, numa versão caseira do bem-sucedido show do quarteto, o Ofertório, Caetano embalou o público a distância com sucessos atemporais, como Leãozinho, Desde Que o Samba é Samba, Reconvexo e Sampa. Em How Beautiful Could A Being Be, foi o momento de levantar do sofá ou da cadeira, e sambar junto com Moreno e Caetano.

 A ideia aqui é eleger uma apresentação, mas é importante deixar registrado que a segunda live, de Natal, que Caetano fez no último sábado, 19, a partir do Teatro Claro Rio, despertou as mesmas sensações, os mesmos sentimentos. Cabe então lançar uma pergunta para o músico: que tal uma terceira live, quem sabe de verão, Caetano?"/Adriana Del Ré, jornalista do Estadão

‘Gil deu uma festa junina em casa’ 

“Em meio à tristeza da impossibilidade de se realizarem as festas juninas neste 2020, uma das comemorações mais populares do País, Gilberto Gil nos deu A Festa do Gil, em 26 de junho, dia em que completou 78 anos. Acompanhado de banda, com direito a sanfona e zabumba, e cercado pela família, o artista baiano apresentou, com qualidade musical incontestável – e talvez tenha sido a primeira live da chamada MPB com aparato mais profissional –, clássicos como Xote das Meninas, Eu Só Quero um Xodó e Andar Com Fé.”/ Danilo Casaletti, jornalista especializado em música 

‘Jagger passou a mensagem do ano’

 

“Para mim, a imagem de live que fica no coração é a primeira de todas, One World: Together At Home. Quando vi os Rolling Stones, cada um em sua casa, tocando You Can’t Always Get What you Want, me emocionei e percebi que teríamos uma longa jornada pela frente. Percebemos que havia uma base pré gravada e que o baterista Charlie Whats fazia praticamente um “air drum” sobre algumas malas, mas foi lindo. Keith Richards com aquela voz tosca e Mick Jagger no cantinho da sala passaram a principal mensagem do ano: fiquem em casa.” /Julio Maria, repórter de música do Estadão

‘A força que leva Caetano a cantar continua intacta’

“Nos anos 1970, Caetano Veloso viveu momentos importantes no palco do teatro Tereza Rachel. Por seres tão inventivo e pareceres contínuo, o tempo passou, o espaço mudou de nome – hoje é Teatro Claro –, mas a força que leva Caetano a cantar continua intacta, como se viu na live de 19 de dezembro. 

 

No palco em que já se apresentou tantas vezes, ele rememorou canções emblemáticas, relembrou outras há muito ausentes de shows, apresentou a inédita Autoacalanto e deu espaço para duas obras-primas alheias, Boas Festas (Assis Valente) e White Christmas (Irving Berlim), esta com participação do filho Zeca. Trem das Cores e Reconvexo contaram, respectivamente, com a presença de Tom e Moreno, os outros filhos. No fim da live, a câmera mostrou o trio sentado no chão do teatro, vendo o pai com admiração. Quem estava do outro lado da tela teve o mesmo sentimento.” /Renato Vieira, jornalista do Estadão especializado em música

Ranking das 10 maiores audiências em lives

1º Marília Mendonça – Live Local 08/04/2020 3,31 MI

2º Jorge & Mateus - Live na Garagem 04/04/2020 3,24 MI

3º Andrea Bocelli 12/04/2020 2,86 MI

4º Gusttavo Lima 11/04/2020 2,77 MI

5º Sandy & Junior 21/04/2020 2,55 MI

6º Leonardo – Cabaré Em Casa 01/05/2020 2.52 MI

7º BTS 18/04/2020 2,31 MI

8º Marília Mendonça Todos Os Cantos De Casa 09/05/2020 2,21MI

9º Henrique & Juliano 19/04/2020 2,06 MI

10º Bruno e Marrone 16/05/2020 2,05 MI

Quem se destacou nas lives de 2020

Pelas redes sociais, eles produziram conteúdo e surpreenderam os fãs

Simone

A cantora, até então distante das redes sociais, surpreendeu o público ao anunciar uma live em 12 de abril. De lá para cá, não parou mais e, todo domingo – já são mais de 30 -, às 18h, apresenta, de casa, um “show” diferente para os fãs no perfil @simoneoficial, com sucessos como O Que Será e Cigarra, além de músicas que nunca havia cantado antes.

Rita Lee

A roqueira ainda não tem uma live musical para chamar de sua, mas, entre bate-papos e entrevistas, acalentou o coração de seus saudosos fãs com alguns números musicais. A lado do parceiro Roberto de Carvalho, cantou Nem Luxo, Nem Lixo, Ôrra Meu e Saúde – essa última, simbolizando um desejo de todos em época de pandemia.

Elza Soares

Aos 90 anos, a cantora trabalhou bastante durante a pandemia, em lives, gravações e comerciais. O aniversário foi comemorado na apresentação online Elza in Jazz, em julho. Em setembro, ela se uniu a Seu Jorge e Agnes Nunes para celebrar o samba, gênero que a consagrou. Nas plataformas, ela lançou singles como Negão Negra, Comida e Divino Maravilhoso.

Teresa Cristina

Com transmissões caseiras e diárias, a sambista ganhou o apelido de “rainha das lives”, angariou seguidores, conquistou patrocinadores e recebeu – virtualmente – convidados como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Djavan. Teresa montou um novo show batizado de Ao Vivo e A Live com estreia para este fim de ano, mas, com o recrudescimento da pandemia, adiou a novidade para fevereiro.

Mônica Salmaso

Isolada em seu sítio no interior de São Paulo, a cantora criou a série Ô de Casas, no qual, de maneira remota e usando um editor de vídeo disponível na internet, gravou duetos com nomes como Ney Matogrosso, Dori Caymmi, João Bosco, Guinga e muitos outros. Já são 130, todos ainda disponíveis em seu perfil @monicasalmasofocial.

Ayrton Montarroyos

O cantor transformou as apresentações, que já tinham patrocínio aprovado, em 8 lives com repertório variado que abordou as obras de Cartola, Dorival Caymmi, Noel Rosa e João Gilberto que foram lançadas em formato de álbuns nas plataformas digitais. Depois, por meio de um financiamento coletivo, fez outras 5 apresentações online. Foram cerca de 160 canções diferentes. 

Zuza Homem de Mello entrevista Chico Buarque

Não se trata de uma live, mas, dentro do projeto Muito Prazer, Meu Primeiro Disco, o musicólogo, ao lado do jornalista Lucas Nóbile, realizou uma longa entrevista com Chico Buarque – algo raro. Com uma memória afiada, o compositor falou sobre seu primeiro álbum, Chico Buarque de Hollanda, de 1966. Zuza morreu em 4 de outubro, aos 87 anos, antes mesmo do programa ir ao ar no canal do Sesc Pinheiros no YouTube.

 

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