O AfroReggae suaviza a voz, não o discurso

Vigário Geral é uma favela nos subúrbios cariocas que desmente aquele papo de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. No dia 29 de agosto de 1993, 21 trabalhadores da comunidade foram chacinados por PMs bandidos. No último dia 13 de dezembro, oito jovens inocentes foram capturados, torturados e, suspeita-se, esquartejados por traficantes da vizinha Parada de Lucas. Com a colaboração de PMs bandidos, naturalmente. Surgida entre um e outro crime hediondo, a ONG AfroReggae se propôs a ser uma janela para uma realidade alternativa, na qual a única saída da favela não seja o rabecão do IML. A mais visível, ou melhor audível, de suas múltiplas atividades socioculturais tornou-se a oficina musical para jovens, que, por sua vez, gerou o grupo musical de mesmo nome - cujo som gira em torno de uma seção rítmica furiosa, espécie de versão irada do Olodum. O AfroReggae está lançando o segundo CD, tentando fazer com que os seus próprios raios não caiam duas vezes no mesmo lugar. Nenhum Motivo Explica a Guerra (lançamento Geléia Geral/WEA) atinge as ruas quase cinco anos depois de Nova Cara. Tempo bastante para o grupo ampliar seus horizontes e merecidamente se fazer ouvir bem além de Vigário Geral. O AfroReggae hoje excursiona pela Europa; grava Imagine num disco-tributo a John Lennon, organizado por Yoko Ono; abre shows do padrinho Caetano Veloso, na Itália; e para os Rolling Stones, na Praia de Copacabana, no próximo dia 18 de fevereiro. Além disso, Favela Rising, documentário sobre a ONG, pode ser finalista no Oscar 2006. Nenhum Motivo Explica a Guerra é um reflexo claro deste arejamento: conquanto o AfroReggae continue falando da vida sufocante da favela, o faz de uma maneira bem mais suave e diversificada do que no disco de estréia. Isto é necessariamente bom? Não sei, mas que é aliciante, é. Ciente de que agora tem um público ampliado, o grupo sob a batuta dos produtores Chico Neves (oito faixas) e Liminha (duas) tornou-se mais pop do que em Nova Cara, dirigido por Caetano (musicalmente) e Max Pierre (artisticamente). Naquele CD, se faltava produção, sobrava claustrofobia. Não se trata de cobrar autenticidade, seja o que isso for, e sim de registrar que Nova Cara era um trabalho mais catártico e violento. O álbum Nenhum Motivo Explica a Guerra não recorre tanto, por exemplo, ao rap. Nele, o AfroReggae ora reforça o seu reggae de batismo em Quero só Você (parceria de Nando Reis, Liminha, Dinho, o vocalista Ando e José Júnior, diretor da ONG), ora lembra o soul elegante de Cassiano, em Partida (criação de Júnior, do vocalista LG, Cosme Augusto, DJ Magic Júlio e Joel Dias, outros dos dez atuais membros do grupo). Já Benedito, de Ando, Júnior, Jorge Mautner e Nelson Jacobina, na seqüência exata do reggae fundador e da balada negra, além de contar com a participação do ubíquo francês Manu Chao, flerta com o canto de umbanda para falar do "meio pilintra, meio vapor" da esquina de toda favela. E A Aquarela Dela, cuja letra é de Geraldinho Carneiro, brinca com o forró. O exemplo mais evidente do processo de suavização sonora - não temática, ressalte-se - pelo qual passou o AfroReggae é o arranjo feito para Haiti, de Caetano e Gilberto Gil, por ocasião da participação do grupo num show do primeiro, em 2003, na Itália. O já clássico do álbum Tropicália 2 (1993) tornou-se um reggae indolente. Quando, porém, Ando, Dinho e LG, sendo quem são, vindo de onde vêm, quase pretos, quase brancos, cantam "ninguém é cidadão!", a navalha ainda corta fundo na hipocrisia racial brasileira. É a origem do AfroReggae, aliás, que salva a letra de Arnaldo Antunes para a faixa-título do CD de soar como mera ingenuidade. Porque o grupo, ao cantar "nenhum motivo explica a guerra/ nem a sede de poder/ nem o medo de perder", dá o testemunho diretamente da cratera-trincheira de Vigário Geral. De lá, onde o raio caiu duas vezes, onde "são muitas as perdas/ é só multiplicar/ se ao invés de balas, fossem flores" (Águas de Moloch) e onde "nas segundas chegam notícias tão ruins/ quero expulsá-las da minha vida/ quantos de nós ainda terão de ser sacrificados/ nessa guerra de números, siglas e cores?" (a estupenda Mais Uma Chance). Intérprete do Brasil visto desde as vielas do Rio, numa trinca poderosa com o Rappa e o F.UR.T.O., o AfroReggae agora fala baixo, mas continua carregando um porrete grosso para convencer-nos de que o genocídio prossegue.

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