Flaney Gonzallez/Divulgação
Flaney Gonzallez/Divulgação

O adeus segmentado de Cristiano Araújo

'O que se esquece é que esse é um Brasil arquitetado e artificial, este é o Brasil do mainstream'

Roberto Saglietti Mahn, Especial para O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2015 | 22h16

Não iria me pronunciar sobre a trágica, comovente e lamentável morte do ídolo sertanejo Cristiano Araújo. Simplesmente pelo respeito que tenho pela paixão de um público por um artista, e a dor de sua perda. Ademais, é sempre triste quando se perde um jovem talento, como ocorreu com Castro Alves, Jimmy Hendrix, Noel Rosa e Amy Winehouse, todos falecidos na casa dos 20 anos (para resumir a enorme lista).

Estranhei, no entanto, como muitos, a comoção midiática exagerada diante da fatalidade, e como tantos, confesso que desconhecia o referido cantor. É um sintoma claro dos tempos atuais, onde a segmentação de público é cada vez maior (e só tende a aumentar), e não há mais unanimidades artísticas (para se ter uma ideia, a última delas foi Chico Buarque de Hollanda).

Mas resolvi escrever depois de receber, por intermédio de amigos e colegas do meio, um artigo do jornal espanhol "El País", comentando a morte do sertanejo. Uma matéria preconceituosa e de visão limitada, demonstrando imensa superficialidade do periódico e desconhecimento sobre a música brasileira. Realmente, o jornalista que o escreveu desconhece o Brasil.

Explico: no artigo, comentou-se que milhares de pessoas choraram a morte do ídolo, enquanto que outros milhares se perguntaram quem seria e não entenderam a cobertura exacerbada de algumas emissoras, explorando o assunto funéreo. Ora, sabemos que a grande mídia é carnificina e necrófila (basta ver a audiência das reportagens "policiais"). Quando se tem uma morte prematura de um artista então, encontra-se um prato cheio para a comoção. Nada espantoso.

Porém, o artigo se colocou contra uma certa "elite intelectual" brasileira, que desprezaria Cristiano Araújo por ainda achar que a MPB se resume a Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque, etc. Diz o texto que a esse público, a indústria cultural pouco se importa e eles contam cada vez menos no contingente populacional. Citando Zezé di Camargo e Luciano como "unanimidades", o jornal defende que, tal como bradou Zagallo, vamos "ter que engolir" toda essa música sertaneja atual.

Essa discussão me lembrou o argumento do "Brasil desconhecido", que sempre vence e/ou convence àqueles de fraca convicção. Ou seja, há um "Brasil que não se reconhece", o Brasil dos sertanejos universitários, do batidão, do tecnobrega, de uma suposta periferia, "que quando toca, ninguém fica parado", como dizia uma já antiga e bem sacada letra de funk carioca.

O que se esquece é que esse é um Brasil arquitetado e artificial, este é o Brasil do "mainstream". A indústria cultural e as grandes gravadoras, soterradas pela pirataria, pela Internet e pela segmentação gradual dos públicos, resolveu apelar cada vez mais, baixando a qualidade da produção a níveis insuportáveis, deixando de lado a diversidade musical brasileira e apostando numa uniformização desesperadora e irritante, limitando os espaços para todo o resto. O que ocorreu foi simples: reduziu-se a música popular brasileira em três ou quatro gêneros musicais. Propositalmente, num repertório facilmente deglutível, com melodias grudentas e repetitivas, harmonias simplificadas, e letras monossilábicas e preguiçosas. E aposta-se nisso. Apenas. Será que esse é o Brasil que não conhecemos? O Brasil exposto todos os dias nas emissoras de maior audiência, o Brasil que toca em todas as rádios, o Brasil que boa parte das novas gerações corre atrás em shows lotados?

O jornal "El País" talvez não saiba que os pesquisadores da música popular brasileira catalogam mais de 100 gêneros musicais diferentes. Sim, apenas de música popular. Será que os jornalistas do tal periódico conhecem o cateretê, a modinha, a toada, o frevo, o samba-canção, o cururu, a moda-de-viola, o maracatu, o choro? Não seria este o Brasil desconhecido? Aonde estão os que cantam, tocam e produzem estes outros gêneros musicais?

Não desprezo Cristiano Araújo e seu público. Muitos fãs devem estar lamentando sua morte, não apenas como pessoa física, mas como artista que ouviam e gostavam. O Brasil parou em 1952, quando morreu Francisco Alves, também num trágico acidente automobilístico. Mas foi o país inteiro que chorou. Era outro país, sim, e outra época. Mas Chico Alves, "O Rei da Voz", como era chamado, cantava marchas, sambas, valsas, modinhas, sambas-canções, baiões, entre outros muitos gêneros, abrangendo seu público e talvez por isso ganhando o título monárquico. Era um país menor, certamente, mas o Rádio de alguma forma mostrava a diversidade musical brasileira. Hoje talvez isso seja impossível, mas o que é lamentável é a falta de democratização dos espaços. Não somos apenas o país do sertanejo universitário, do "funk ostentação", do "axé music", do "sampagode". Somos muito mais que isso. Mas quem seria Francisco Alves aos olhos de boa parte da população hoje? Ou Ary Barroso? Ou Villa-Lobos? Ou Orestes Barbosa? Cadê a história musical do nosso país?

Cristiano Araújo entrou na máquina promocional midiática atual, graças ao gênero que cantava. O tal "sertanejo universitário", que a saudosa Inezita Barroso sempre vilipendiou, e que nada tem a ver com a nossa música caipira ou o antigo sertanejo tradicional. Fez multidões entoarem a elaborada canção "Bará Bará", que de tão efêmera, nunca mais se ouviu por aí. Caiu nas graças de empresários milionários, que com certeza utilizaram do recurso do jabá, pagando fortunas às rádios e televisões para que suas músicas fossem tocadas continuamente.

Enquanto isso, a verdadeira MPB, na sua riqueza e diversidade, continua sendo entoada por aí, por uma nova geração de ótimos artistas (mais volumosa do que muita gente imagina), e outros não tão novos e que ainda estão por aí, todos sofrendo para aparecer, tendo que bancar seus próprios discos, e convivendo com cifras bem menos generosas. Simplesmente pelo fato de não cantarem o que foi eleito pela mídia massificadora, e por uma geração de jovens que desconhece muita coisa, inclusive clássicos da literatura e tempos verbais. Problemas educacionais, falta de acesso, desprezo opcional, preguiça de pensar? Muitas explicações. O fato é que a segmentação continua. Assim como vimos recentemente com as perdas de Fernando Brant, Jair Rodrigues e Inezita Barroso, Cristiano Araújo será lembrado por muitos, mas não por todos.  

 

Roberto Saglietti Mahn é cantor, professor universitário ministrando aulas de História da Música, jornalista, produtor e apresentador do programa "Espaço Seresta", na Educativa FM.

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