NY se rende à voz de Luciana Souza

Americano, a gente já sabe, é sempre bom especialista: quando se dedica com afinco a um assunto, sai de baixo, é difícil competir com ele. A professora Linda Lewin, que leciona história na Universidade de Berkeley, na Califórnia, por exemplo, passou uma temporada no sertão e produziu o melhor ensaio disponível sobre o poder político dos clãs nordestinos, ao resgatar a saga da família paraibana Pessoa, da qual saiu um presidente da República, Epitácio, e um governador de Estado, João, cujo cadáver foi o estopim para a Revolução de 30.Por isso, quando esse povo rico e competente se depara com alguém versátil, se admira e o admira. É o que está acontecendo agora mesmo numa casa tradicional de música popular nova-iorquina, a Jazz Standard, em Manhattan, onde uma cantora de sambas, bossa nova e forró fez um show e uma diva do jazz, liderando seu quinteto, se apresentou até o último fim de semana.Há duas singularidades quanto a essas artistas: a primeira é que se trata de uma pessoa só, e a segunda é que ela não é americana, mas brasileira.A paulistana Luciana Souza (pronuncia-se SOH-za, ensina didaticamente Terry Teachout em artigo de meia página, ilustrado com foto colorida, publicado no New York Times de domingo) tem um caso de amor que se vai firmando com Nova York e é acompanhado com desvelo pelo mais importante jornal da cidade.Em 2000, o crítico de jazz e pop Ben Ratliff incluiu um disco independente que Luciana lançou cantando músicas que fez de poemas de Elizabeth Bishop (poetisa americana que viveu no Brasil e hoje é o xodó dos estudantes de letras em seu país) entre os dez melhores CDs do gênero.Na lista do ano seguinte, o mesmo crítico incluiu outro CD dela, Brazilian Duos, também independente e também não lançado no Brasil, embora reúna canções clássicas do repertório da bossa nova, do samba e da música regional brasileira, à base de voz e violão (Romero Lubambo, que a acompanha no show destas duas semanas, Marco Pereira e seu pai, Walter Santos).Quem se rendeu agora aos encantos de sua versatilidade foi Terry Teachout que, no meio da platéia, não se conteve e berrou (a ponto de se sentir forçado a pedir desculpas ao público no microfone depois do espetáculo) de espanto e prazer quando a ouviu cantar suas próprias versões jazzísticas de poemas do chileno Pablo Neruda vertidos para o inglês. "Ela é brasileira, temperada por um pouco de tudo o mais" - este é o título do artigo em que o jornalista americano descreve as façanhas de mrs. Souza.O queixo do redator deve ter batido no teclado quando ele descreveu a versatilidade da cantora de 36 anos, que mora nos Estados Unidos desde 1985, quando foi estudar no Berklee College of Music, em Boston.Em janeiro, ela se apresentou no Lincoln Center com o respeitado jazzista latino Danilo Pérez, seu companheiro nas listas dos dez mais do jornal e autor e uma suíte de jazz panamericano. Em março, cantou a parte de mezzo-soprano do balé El Amor Brujo, de Manuel de Falla, com Roberto Spano e a Sinfônica de Atlanta, Georgia.Em abril, apresentou as canções brasileiras de seu CD mais recente com Romero Lubambo, do Trio da Paz, no Joe´s Pub, em Manhattan. Depois, se apresentou em São Paulo e no Rio, onde foi aplaudida pelo padrinho, Hermeto Pascoal.Depois de sua apresentação no Jazz Standard, ainda este mês, Luciana interpretará o oratório Pasión Según San Marcos, do compositor erudito argentino de vanguarda Osvaldo Golijov´s nos Festivais de Tanglewood e Ravinia, antes de voltar a Manhattan, onde mora, para interpretar composições do trompetista (também vanguardista) Kenny Wheeler na Birdland, a lendária casa onde se apresentava o saxofonista Charlie Parker, monstro sagrado do jazz.A versatilidade que assombrou o crítico do jornal nova-iorquinho é explicada com simplicidade pela própria artista: "No Brasil, tudo é assim - é permitido (será esta a palavra exata?). Tudo pode acontecer, e esse é um jeito excitante de ser. Eu posso ser meio negra, como sou, e freqüentar escolas judaicas, como freqüentei. Tem tudo a ver com a natureza da colonização brasileira. É que os portugueses foram para o Brasil há 500 anos, encontraram os índios nativos vivendo lá, e então levaram os africanos que lá estão há 350 anos. As pessoas realmente misturaram tudo: a música, a cultura, a cor de pele".E, pelo visto, os especializadíssimos americanos estão adorando tanto a mistura quanto a flexibilidade.

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