Wilton Junior|Estadão
Wilton Junior|Estadão

Novo livro de Ruy Castro revê a era em que o samba-canção balançou o Rio

Em 'A Noite do Meu Bem – A História e as Histórias do Samba-Canção', escritor mira as luzes para uma era pouco compreendida da música brasileira

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

14 Novembro 2015 | 05h00

Entre o fechamento dos cassinos, em 1946, e a profusão das gravadoras, em 1965; a era de ouro do rádio, nos 40, e a era dos festivais, nos 60; o pós-Guerra, de 46 e a pré-revolução comportamental do rock and roll; o samba, finalmente, encontrou a canção. Uma paixão muitas vezes nos limites do suportável a dois amantes que trocariam seus primeiros amassos em boates pouco iluminadas do Rio, entre a razão e o desvario, antes de se espalhar pelo País.

O samba-canção não foi um movimento nem um cenário. Foi uma era. Possui pedra inaugural de dois nascimentos, mas não tem sepultura porque nunca morreu. Nasceu primeiro, como estilo, em 1928, quando Henrique Vogeler, Luiz Peixoto e Marques Porto fizeram Ai Ioiô (ou Linda Flor), gravada por Aracy Cortes. E depois, em 1946 – aí sim, para valer –, com Dick Farney cantando Copacabana, de João de Barro e Alberto Ribeiro. Viveu intensamente seus melhores anos por quase duas décadas nos palcos de pequenas e grandes boates do Rio até que deixaram de chamá-lo pelo nome sem jamais deixarem de senti-lo.

A era do samba-canção, talvez por preconceitos que sempre o reduziram à condição de “música de fossa”, talvez por menosprezo às limitações dos registros pré-LPs, ainda não havia sido narrada com o olhar panorâmico, como um sobrevoo suave de asa delta pelo Rio, feito agora pelo escritor Ruy Castro. Seu livro A Noite do Meu Bem, da editora Companhia das Letras, resume em texto corrido e bem degustado (outras trazem uma “cançãografia” e uma discografia mais sugeridas do que definitivas) histórias vividas sobre os palcos e por trás deles que desenharam um dos períodos mais férteis da música brasileira.

Ao contrário de outras de suas biografias conhecidas, como Carmen (Carmen Miranda), Estrela Solitária (Garrincha) ou Chega de Saudade (com foco em João Gilberto), Castro não tinha aqui o fio condutor, o personagem central. “Fazer assim é bem mais difícil, dar esta costura. Fazer com que o leitor jamais se perca, mesmo não narrando a história de uma vida contínua.”

Por outro lado, a coleção de vidas ‘descontínuas’ cria um ritmo dentro de uma cronologia clara. Ela começa na ‘pré-história’, que vai preparar a chegada das boates, com o fechamento dos cassinos. Uma inesperada ordem do general Gaspar Dutra, que golpeava os donos de estabelecimentos pelas costas ao trair até os que haviam apoiado sua ascensão. Da noite para o dia, 300 músicos e cantores de orquestras perdem o emprego.

Apesar de surgir antes, a era do samba-canção vai correr paralela à bossa nova no fim dos anos 1950, mas quase nunca sua prima aparece citada por Ruy Castro. E isso é proposital. “O samba-canção tem uma vida completamente independente da bossa nova e não precisa dela para sobreviver. Eu queria acabar com esse negócio de que toda a música brasileira desta época existiu para desaguar na bossa nova. Isso é um equívoco.”

As vidas eram expostas por cantores sobre os palcos de boates como o Golden Room, maior e mais dispersivo e, depois, o Meia-Noite, menor e mais aconchegante, ambos no Hotel Copacabana Palace, onde tudo começou. Depois, então, vieram o Vogue, a Chez Aimée, o Sacha’s, o Club 36, a Plaza, Baccara, Pigalle, Bistrô, Chez Penny, Mocambo, Sirocco. Um levantamento exaustivo de Ruy mostra, em um mapa do Rio, os 55 endereços que davam vida criativa à noite do Rio entre 1946 e 1965.

Aos poucos, o Vogue, também em Copacabana, vai ganhando terreno, ganhando vida própria. “Ele se impôs diante de mim, ganhou força.” Por algumas páginas, é ele que se torna o fio condutor. Mais do que narrar quem passava sobre seu palco, Ruy consegue refazer sua atmosfera, até que um trágico final o extermina sob chamas e mortes. É ali que Aracy de Almeida, por exemplo, reúne um repertório à base de Noel Rosa, quando ninguém parecia querer saber do sambista, para imortalizar noites com Feitio de Oração, Feitiço da Vila, Não Tem Tradução, Pela Décima Vez e Último Desejo. É ali que Noel Rosa vai ser percebido, pela primeira vez, como compositor de sambas-canção.

As letras alimentavam um imaginário popular de forte apelo confessional. Nunca se sabia se o que a cantora declamava se referia à sua noite anterior. O drama de Nora Ney, forçada pelo marido Cleido Maia a tomar comprimidos em doses cavalares para que morresse de “suicídio”, é um desses. “Entrevistei a filha de Nora, que me confirmou. Viu toda a cena pela maçaneta da porta”, diz Ruy.

Nora não morreu, mas Cleido, sim. Depois de uma separação traumática, o marido tentou suicídio primeiro tomando 30 comprimidos de Nembutal e, 37 anos depois, mais eficiente, vedando as janelas de seu apartamento e abrindo o gás do fogão. Por isso, quando Nora cantava Ninguém Me Ama, de Antônio Maria, seus fãs ouviam com lágrimas e, por muitas vezes, como se a vida de Nora Ney estivesse toda sendo narrada ali mesmo.

Ruy acredita que este seja seu último livro neste formato. “Não sei se terei forças para fazer um outro desses nos próximos tempos.” Entre pesquisas, entrevistas e texto, foram três anos. “Mas muitas histórias dessas eu já tinha comigo.”

Ao contrário do biografismo exibicionista que faz questão de interromper a narrativa para nomear fontes, dando o nome e a página de cada jornal consultado e colocando duas frases entre aspas por parágrafo, Ruy serve toda a apuração que faz em um texto limpo e fluente. Quem conta a história é seu livro, não suas fontes. Antes, leva ao fogo as entrevistas, as notícias dos jornais de época e suas memórias, mistura tudo até o caldo engrossar e o serve quente e aos poucos. “Não quero que o leitor jamais perceba que está lendo uma biografia.”

 

A NOITE DO MEU BEM - A HISTÓRIA E AS HISTÓRIAS DO SAMBA-CANÇÃO

Autor: Ruy Castro

Ed.: Companhia das Letras (544 págs., R$ 59,90)

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