Michael Lavine|REPRODUCAO
Michael Lavine|REPRODUCAO

Novo disco traz gravações inéditas de Kurt Cobain

Depois de filme sobre Cobain, a trilha sonora; 'Montage of Heck: The Home Recordings' foi lançado nesta sexta-feira, 13

Joe Coscarelli, The New York Times

13 de novembro de 2015 | 09h56

NOVA YORK - Depois de oito anos debruçado sobre a figura de Kurt Cobain para um documentário autorizado a respeito do artista, o escritor e diretor Brett Morgen teve problemas para concluir sua pesquisa diante de tanto material à disposição.

Após a estreia este ano de Kurt Cobain: Montage of Heck, um retrato sem retoques feito por Morgen do torturado cantor do Nirvana, em que procurou focar o homem complicado e não o mito de mártir do rock, o cineasta decidiu que o filme não era o fim da história que ele gostaria de contar.

“Estava limpando meu sistema e percebi que ainda havia uma enorme quantidade de material que não conseguimos inserir no filme”, disse ele.

Em 2007, Courtney Love, a viúva de Cobain, concedeu ao diretor total acesso aos arquivos do seu marido - especialmente às 108 cassetes não ouvidas de gravações caseiras que haviam sido proibidas pela irmã de Kurt Cobain, Kim. Embora parte desse material tenha composto o filme, incluindo um relato de própria voz em que Cobain detalha suas primeiras ideias de suicídio e um cover da música And I Love Her, dos Beatles, havia mais de 200 horas de gravação ao todo, a maior parte jamais ouvida.

Trechos selecionados desse material estão incluídos em uma espécie de trilha sonora não ortodoxa, cujo título é Montage of Heck: The Home Recordings, lançado nesta sexta-feira, 13, e consiste de demos de músicas, sátiras e improvisações; Isto além da versão em CD com 13 faixas e um LP duplo em vinil (a ser lançado em dezembro), uma coleção de luxo incluindo 31 faixas, o filme (em Blu-Ray e DVD), um cassete da trilha sonora, um livro de capa dura, um quebra-cabeças, um pôster, cartões postais e um marcador de livros.

Considerada um presente do céu por alguns fanáticos, a coleção é vista com menos indulgência por outros, que questionam o lançamento em plena temporada de festas de fim de ano de gravações que nunca ninguém havia pensado em levar a público. "Montage of Heck: Beginning to Skirt the Borders of Explotation?” indagou um website de fãs do Nirvana chamado Nirvana Legacy. Manchete de outro blog: “Don’t Trust the ‘New Kurt Cobain Album’”.

“Este álbum de gravações caseiras irá destruir o legado de Kurt Cobain, mais do que edificá-lo” afirmou um crítico de rock no Twitter. “Imagine alguém gravar secretamente você cantando para seus pets e depois lançar a gravação como 2xCD”.

Na verdade é uma coleção íntima. Num determinado ponto Cobain para de tocar para atender a um telefonema e enviar uma mensagem para sua namorada na época.

Mas Morgen, numa conversa por telefone no mês passado, disse ficar furioso à qualquer menção da palavra exploração e qualificou o projeto como um arquivo histórico necessário. “Acho que existe um enorme interesse do público em estudar como a grande arte é criada”, afirmou. “Examinamos manuscritos, exploramos como Leonardo da Vinci chegou às suas criações finais. Acho que Kurt é um artista profundo e incrivelmente importante”.

E continuou: “É um tributo a Kurt que seus admiradores e fãs sentirão que é positivo com relação a ele”.

Para Bruce Pavitt, fundador do Sub Pop, primeira gravadora do Nirvana e autor de Experiencing Nirvana: Grunge in Europa, 1989, lançamentos póstumos fazem “parte do contrato social” no caso de artistas muito conhecidos. “Acho que seus momentos de criação fazem parte do registro público. Entendo porque o merchandising disto pode afetar as pessoas de maneira errônea. Uma alternativa seria postar num fórum público e não cobrar. Mas Brett realizou a mais profunda pesquisa já realizada por alguém, a convite da família de Cobain”.

Morgen observou ter abordado o projeto de Montage of Heck com uma tremenda empatia e sensibilidade e que, no final, a palavra final coube à filha de Kurt, Frances Bean Cobain. (Frances Cobain, 23 anos, detém os direitos ao nome e imagens do pai desde 2010, e serviu como produtora executiva do filme).

“No final das contas, em termos do seu legado e sua herança e a que o mundo pode ter acesso, quem decide é ela e sua família. Não cabe a mim e nem a um fã específico. Acho que Kurt desejava que fosse assim. Foi como escreveu em seu testamento”.

“A primeira vez que me encontrei com Frances fiquei convencido, sem sombra de dúvida, que ela era a melhor guardiã do legado de Kurt.

No tocante à trilha sonora e o seu trabalho, ele respondeu que “basicamente selecionei o material que considerei mais relevante, gravei numa USB, entreguei ao administrador do espólio que deu a Frances e Courtney. Acho que elas firmaram um acordo com a Universal”.

Embora o álbum esteja ligado ao lançamento em DVD do filme, Morgen disse não ter nenhuma participação financeira na trilha. “Ficou entendido que, se o álbum der lucro, os beneficiários serão a família de Kurt”.

Mas os fãs também se beneficiarão, disse ele. “O álbum representa o outro lado da trajetória artística de Kurt que, por si só, não se encaixava numa banda de rock como o Nirvana.

“O que este material procurou captar um Kurt sem filtros - sozinho num quarto e o ouvinte é convidado a observar”, disse Morgen. “As pessoas achavam que Kurt era uma pessoa profundamente angustiada. É reconfortante pelo menos ter acesso ou algum insight desses momentos em que ele estava só e realmente feliz”. / Tradução de Terezinha Martino

Tudo o que sabemos sobre:
Kurt CobainNirvanaMúsica

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.