Novo disco dos Racionais vem nostálgico e com reflexões profundas

'Cores e Valores' consegue fazer críticas sociais além da superfície

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

03 Dezembro 2014 | 08h43

O tempo passa, as crianças crescem e ninguém segue sendo o mesmo homem de 12 anos atrás. Mano Brown resolveu bem os dilemas do tempo. Poderia ter entrado em choque direto com os parceiros de Racionais e seus respectivos fãs se tentasse imprimir uma mudança de direção ao grupo. Se passassem a soar com as influências todas da soul dos anos 70, mais de pista do que de rua, mais amor e menos ira, o preço poderia ser alto demais. Há tempos que outros mundos fazem a cabeça de Brown - os mundos de Hyldon, de Guilherme Arantes, de Cassiano -, algo de que Brown não abre mesmo sabendo que nem sempre são eles os depositários de todas as suas ambições.

Os Racionais são parte de Brown, boa parte, talvez 60% de sua existência, e é nele que suas forças se concentram agora, pelo menos até que venha a segunda parte da história. Desde que foram lançadas, em 25 de novembro, faixas do álbum 'Cores e Valores' não param de ser baixadas. Doze anos de um jejum de discos praticado sem pressa justificam muito da euforia. As 15 músicas inéditas consomem 35 minutos e criam expectativa, tensão, medo, nostalgia, sedução e um grau maior de reflexão. Os Racionais escavam para atingir camadas mais profundas do que a superfície que já os inspirou muito e onde estão os modelos de injustiça por oposição: brancos contra negros, polícia contra bandido, pobres contra ricos.

O crime ainda é a consequência, não a causa, mas alimenta-se de questões mais complexas com origem nos topos, não nas bases. Quando o rap inverte a pirâmide, deixando que as classes e as cores se digladiem em busca de uma falsa sensação de justiça, os grandes ladrões do dinheiro público assistem a tudo sorrindo.

Cores e Valores, a música, abre com "somos o que somos, cores e valores". Brown fala que "pelas marginais os pretos agem como reis, gostar de nós, tanto faz tanto fez. Me degradar para agradar vocês, nunca.." E segue cifrado não em gíria, mas em pensamento. O Mal e o Bem é cantada no início e lembra do passado dos anos 90, apenas um dos muitos momentos de melancolia do disco (o mais forte dele é com Quanto Vale o Show), sentida por rappers de 40 e poucos anos de idade. 'Somos o que somos' mostra um certo cansaço: "Fase triste mostra indignação, acúmulo de mágoa, Jão, desilusão".

As músicas estão disponíveis na internet pela loja GooglePlay. Cada uma sai por R$ 1,99 e o álbum completo, em promoção, fica em R$ 9,99 até o dia 9. As faixas foram gravadas no Maraca Estúdio, no Capão Redondo, e finalizadas no Quad Studios, em Nova York. O show de lançamento será dia 20 de dezembro, no Espaço das Américas. E a segunda parte da história fica para quando Brown materializar seu projeto Boogie Naipe, previsto para 2015.  Um outro Brown, cheio de groove, referências dos anos 70 e amor.

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