REUTERS/Eduardo Munoz
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Novo disco de Lorde, 'Solar Power' promete potência, mas entrega brisa

Cantora neozelandesa prega pela busca de curas com ioga e pelo bem-estar

Allison Stewart, Especial para Washington Post

24 de agosto de 2021 | 10h07

Cantores pop fora do padrão quase sempre se transformam naqueles de quem zombam, mas os espertos não esfregam isso nas nossas caras.

Solar Power, o primeiro álbum de Lorde em quatro anos, abre com The Path, uma canção pop inspirada no folk dos anos 1960 que oferece um esboço vago da vida da cantora atualmente: Ela é uma "adolescente milionária tendo pesadelos com o flash de câmeras"(teen millionaire having nightmares from the camera flash), “que mora em uma ilha e não está disponível quando a gravadora liga para ela” (who lives on an island and is unavailable when the label calls). Há referências evidentes ao Met Gala 2016: "Braço engessado na gala do museu / Garfo na minha bolsa para levar para casa para minha mãe / Supermodelos dançando em volta da tumba de um faraó" (Arm in a cast at the museum gala/ Fork in my purse to take home to my mother/ Supermodels all dancing 'round a pharaoh's tomb).

Não há nada de errado com as referências ao Met Gala 2016, que já nos deu tanto - sem ele não teríamos o álbum Reputation de Taylor Swift -, mas The Path é, de cara, um sinal de alerta de que Solar Power nos apresenta uma Lorde muito diferente.

A cantora e compositora neozelandesa (que recebeu dos pais o nome de Ella Yelich-O'Connor) tinha 16 anos quando lançou seu álbum de estreia em 2013, Pure Heroine. Ancorado por um sucesso que lhe trouxe a fama, Royals, ele expressava a admiração e o ceticismo sobre a vida de estrelas pop fora dos holofotes. Era um álbum simples, pessoal, lindo e que parecia ter sempre existido. Seu segundo álbum, o ainda melhor Melodrama, foi uma obra-prima do maximalismo de uma garota triste e meio gótica.

Após seu lançamento, Lorde se refugiou em uma praia, desconectou-se da internet e descobriu a maconha. Era inevitável que a fama a aproximasse mais daquelas celebridades com jatinhos, ilhas e tigres com coleiras de ouro a respeito das quais ela cantou no passado do que da garota que contou seus dólares no trem a caminho da festa. Ela supostamente mudaria, cresceria e nos contaria sobre isso - esse é literalmente o trabalho dela.

Mas a melhor característica de Lorde era nos contar coisas com um tom irônico com o qual nos reconhecíamos, e Solar Power rapidamente inicia o trabalho de apagar aquele atributo. “Now the cherry black lipstick's gathering dust in a drawer/ I don't need her anymore "(Agora o batom preto cereja está juntando poeira em uma gaveta / Eu não preciso mais dele), ela canta em “Oceanic Feeling”, a última e melhor faixa do álbum.

Assista ao clipe de 'Solar Power':

 

A Lorde 3.0 só quer ajudar. Ela prega pela busca de curas com ioga e pelo bem-estar - ou talvez zombe das pessoas que pensem assim, é difícil dizer. Ela só quer que você fique aberto para o amor, não se afaste de sua família ("Spend all the evenings you can with the people who raised you") (Passe todas as noites que puder com as pessoas que o criaram), ela aconselha na suave balada Stoned at the Nail Salon, e talvez saia de vez em quando.

Tudo pode ser uma concessão ao inevitável, uma admissão de que a fama separou Lorde de seu rebanho ("Now if you're looking for a savior, well that's not me") (Agora, se você está procurando por um salvador, bem, esse não sou eu), que pregar para eles a respeito da separação é tudo que ela pode fazer. Mas em um mundo lutando com questões de justiça racial, no meio das incertezas de uma pandemia, Solar Power, com seu vago cheiro de condescendência de mulher branca rica, não cai bem.

Há algo de corajoso e até mesmo cativante na intenção do álbum de retirar tudo que é familiar, mesmo que isso não necessariamente funcione. Ele tem violões como base em vez das costumeiras batidas de percussão, e os vocais característicos de Lorde são quase irreconhecivelmente mais altos e posicionados mais centralmente na mixagem.

Lorde disse aqueles que a entrevistaram que ela e seu colaborador de longa data, Jack Antonoff, se inspiraram no pop californiano solar dos anos 60, e há uma atmosfera sussurrante e psicodélica em canções como "California" que confirma isso; todos aqueles sobre os quais Lorde canta parecem estar usando flores na cabeça. Solar Power também foi fortemente influenciada pelo pop do início dos anos 2000 e, embora nada de bom possa resultar disso, isso explica por que a faixa-título tem uma dívida tão grande com Soak Up the Sun, de Sheryl Crow.

Na melhor das hipóteses, ele faz lembrar a banda de indie pop do início de 2010 Cults, cujo hit Go Outside foi uma homenagem açucarada ao the Mamas & the Papas, mas que deixava perceber a má qualidade até o âmago. Nos momentos mais sem noção, como na breve e com toques de Jack Johnson, "Dominoes", Lorde soa como uma influenciadora no Tik Tok.

"Secrets from a Girl (Who's Seen it All)" é uma das várias faixas que evoca o hit de Natasha Bedingfield de 2004, "Unwritten", que é uma referência pop do início dos anos 2000 tão boa quanto se poderia esperar. No início, parece uma Lorde vintage, consolando a adolescente chorando na festa de sua melhor amiga ("Couldn't wait to turn 15/ Then you blink and it's been 10 years") (Mal podia esperar para fazer 15 anos / Aí você pisca e já se passaram 10 anos). Então, termina com uma passagem satírica e assustadora, na qual a estrela pop sueca Robyn interpreta uma guia turística de uma distopia ("Your emotional baggage can be picked up at carousel Number 2" (Sua bagagem emocional pode ser recolhida no carrossel número 2).

A combinação de autoconsciência mínima e material abaixo do esperado se mostra fatal. A maioria das canções, principalmente na segunda metade lenta do álbum, é praticamente indistinguível uma da outra.

É tentador pensar que deve haver algo mais nele, que Lorde e Antonoff criaram um álbum que só pode ser entendido por gerações futuras, mas "Solar Power" não pretende ser nada além de um estado de ânimo.

Talvez ele seja o resultado final lógico de uma tendência mais ampla para canções sem gancho, apesar de nessas faixas não faltarem apenas ganchos, mas também melodia ou forma. Não são nem mesmo vestígios de músicas que já existiram. Não parecem canções que estavam a caminho de alguma coisa e foram vítimas de algum imprevisto, elas apenas... flutuam sem intercorrências, como nuvens, tão minimalistas que quase não existem. / Tradução de Romina Cácia

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