Novo disco de Compay chega em abril

O cubano Compay gaba-se de ter seadaptado a todos os gêneros, estilos e modismos musicaissurgidos no tempo e no espaço. Tem razão. Aos 94 anos de idade e80 de música, passou por todas as ondas do show biz no século 20 como atesta o disco Duets (que sai aqui em abril, pela WEA) em que divide os microfones com cantores de procedênciasdiversas: o árabe Kahled e o americano Lou Bega, o chansonierCharles Aznavour e o galã Antonio Banderas, além da sua turmacubana, da velha-guarda, como Eliades Ochoa e Omara Portuondo, eda Nova Trova, como Sílvio Rodrigues e Pablo Milanes. Na semana passada, esteve no Brasil para um show fechado que os organizadores chamaram de canja, para evitar problemasde visto. Passeou, visitou as velhas-guardas do samba carioca,ficou de frente para o mar de Copacabana, mas queria mais."Falta cantar aqui de novo, com o meu grupo, Los Compadres,para uma multidão, e fazer uma excursão", pediu ele na últimasexta-feira, véspera de sua volta a Cuba. "Já me apresentei emmuitos países - França, Espanha e até Japão. Em cada lugar,canto uma música local, tango na Argentina, flamenco na Espanhae samba aqui no Brasil. Aliás, a música Bahia (Na Baixa doSapateiro, de Ary Barroso) faz parte do meu repertório." Duets foi gravado aos poucos, em Havana, Madri,Paris e Los Angeles, com base no gosto pessoal de Compay e navontade que ele tinha de encontrar esses amigos. "São cançõesque todo mundo aprecia porque uma das coisas que sei bem édescobrir o que o público quer ouvir. Por isso estou aí há tantotempo", ensinou ele, que deu a receita. "Antigamente, aspessoas gostavam de serenata, eram românticas e queriam dançarjuntas. Depois veio a Nova Trova, que fazia música para serouvida. Hoje, os jovens querem uma música que os divorcia. Cadaum dança para seu lado e todos sentem falta do aconchego de umcorpo. Minha música os faz parar para ouvir, mas também os fazdançar." Sempre foi assim. Ele começou a estudar violão aos 13anos, quando ouviu um músico na cidadezinha onde vivia, perto deSantiago de Cuba. Logo foi estudar no conservatório. Virouprofissional pouco depois, da Orquestra Sinfônica de Santiago ede grupos populares que fizeram sucesso imediato, dentro e forade Cuba, pois a música caribenha virou moda. Charutos - A onda acabou e Compay voltou para sua ilha,alternando a música com o trabalho numa fábrica de charutos. Nosanos 90, quando a salsa voltou à moda na Europa, ele foi para láe se juntou aos músicos flamencos, com quem gravou inúmerosdiscos. Mas só virou sucesso mundial, incluindo o Brasil, em1997, com o disco, show e filme Buena Vista Social Club. Aínão parou mais. "Estou mais experiente depois do Buena Vista",brincou ele. "Sei me adaptar às circunstâncias e toco para osjovens e os mais velhos. Começo com a música tradicional de 1800e chego ao que agrada à juventude. Eles hoje tocam comoacrobatas, mas querem ouvir algo que lhes chegue ao sentimento,ao coração. E a música tradicional é a base pela qual todosdevem se reger." Em Duets, ele canta um pouco de cada estilo, emborasua marca esteja lá, o tempo todo. Quando a faixa é dividida comos cubanos, como Chan Chan (com Eliades Ochoa), LindaGraciela (com seu filho, Basilio Repilado), Tente em Pie(com Los Compadres), ou Macusa (feita para uma namorada ecantada com Pablo Milanes), há o inconfundível suingue cubano.Se o parceiro é Charles Aznavour, sua voz soa como a de umchansonier francês. A cabo-verdiana Cesaria Evora vira umacantora caribenha em Lágrimas Negras e ele dá colorido até àvoz canastrona de Antonio Banderas, no bolero Beatiful Mariaof My Soul, bolero feito para o filme Os Reis do Mambo,estréia do galã latino nos Estados Unidos. "Dá para fazer tudo isso porque me formei músico emCuba e meu país é muito cosmopolita. Tem influências americana,espanhola e africana, tudo junto, misturado", explicou ele. Asemelhança com a música brasileira não é mera coincidência.Compay lembra nossos compositores de samba tradicional. Só queestá mais para o jeito circunspecto de Guilherme de Brito quepara a irreverência de Nelson Cavaquinho, para a erudição deCartola, que para a singeleza de Nelson Sargento. Até porque temsólida formação teórica que utiliza largamente. "Faço osarranjos para meu grupo e, atualmente, estou usando trêsclarinetes, para dar mais colorido. Inclusive inventei uminstrumento, o armônico, uma espécie de guitarra cubana." Aos 94 anos, mas aparentando menos de 70, Compay estácheio de planos. Ter sido indicado para o Grammy Latino foi umaimensa felicidade e ele achou graça quando lhe disseram que aindicação honra mais o prêmio que o prêmio a ele. Contou queestreou há pouco o musical Se Secó el Arroyito ("o riachosecou"), para o qual escreveu as canções, os arranjos e olibreto, e se prepara para uma grande excursão pela Europa,durante o próximo verão no Hemisfério Norte. Só não sabe quandopoderá tocar de novo no Brasil. "Não tem nada programado, masgostaria que acontecesse ainda este ano", reiterou ele, antesde deixar o País.

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