FOTO SERGIO CASTRO/ESTAD?O.
FOTO SERGIO CASTRO/ESTAD?O.

Novo diretor do Teatro Municipal fala em temporada que estreite laços com a população

‘Teatro não deve se limitar à caixa cênica’, diz o diretor artístico Cleber Papa

João Luiz Sampaio / ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2017 | 06h00

O Teatro Municipal de São Paulo abre sua primeira temporada sob o comando do diretor artístico Cleber Papa esta semana, com dois concertos sinfônicos, no sábado, 18, e domingo, 19. A programação foi fechada, por enquanto, para o primeiro semestre e inclui duas óperas em versão de concerto, sem cenários ou figurinos – a expectativa é ter espetáculos completos apenas no segundo semestre. Ao todo, serão 108 apresentações até junho.

“Foi uma opção. O orçamento de R$ 90 milhões está comprometido com pagamentos de salários. Para produzir óperas logo de cara, seria preciso fazer demissões e foi algo que evitamos”, diz o secretário municipal de Cultura, André Sturm, que, em entrevista ao Estado, revelou planos de alteração no modelo de gestão do teatro.

Os concertos dos dias 18 e 19 serão comandados pelo novo regente titular Roberto Minczuk e terão obras de Villa-Lobos e Mendelssohn. As duas óperas em concerto serão Fidelio, de Beethoven, e A Danação de Fausto, de Berlioz (os títulos do segundo semestre incluem Salvador Rosa, de Carlos Gomes).

Para Papa, o objetivo a partir de agora é fortalecer a imagem do Municipal como o “principal palco” da cidade. “O teatro é um palco de concertos, balé e ópera, formas que podem e devem dialogar em todas as suas possibilidades. É preciso pensar o Municipal, dentro das particularidades de cada conjunto, como um todo. E entendendo que a relação com a população tem que ser contínua”, diz. 

Algumas novas séries foram criadas com esse objetivo. Nas segundas e terças-feiras, o teatro vai abrigar o Happy Hour, com apresentações curtas no final da tarde. Recitais solos e de pequenos conjuntos serão a atração nas quartas-feiras. O Balé da Cidade, agora dirigido por Ismael Ivo, deve começar a se apresentar também às tardes durante a semana. Aos sábados, haverá espetáculos pensados para o público infantil e adolescente. Nos domingos, voltam os concertos matinais. “Esta linha de ação vai permitir alguns testes. Há um público, entre 22 e 35 anos, que tem um perfil específico. São pessoas interessadas em cultura, que querem conhecer coisas novas, compram ingressos por impulso. O Municipal precisa estar no radar delas e fazer isso acontecer é responsabilidade nossa”, diz Papa.

Segundo o diretor, é importante também pensar o Municipal “fora da caixa cênica”. Os corpos estáveis devem fazer apresentações em centros de cultura e teatros de bairro, em parceria com grupos locais. E já está em negociação uma parceria com a Fundação Casa para a criação de um projeto de formação musical para os internos. “Precisamos ter em mente que o Municipal é um organismo vivo. Ninguém aplaude um prédio. Isso significa a valorização do artista da casa e sua inserção na comunidade de outra forma. O Municipal, assim, se revela para a cidade, cuja imagem acaba se fortalecendo.”

O objetivo é que a relação com as escolas municipais de música e bailado também se intensifique. Como exemplo, Papa cita o caso do Opera Studio. “Queremos esses alunos participando da temporada, cada um dentro das suas possibilidades, fazendo figuração, atuando com o coro ou cantando pequenos papéis. É uma prática que com o tempo será estendida a todas as escolas e cursos.”

Ópera. Papa tem sua trajetória ligada de maneira íntima à ópera. Criou o Festival Amazonas de Ópera, em Manaus, o Festival do Theatro da Paz, em Belém; nos últimos anos, trabalhou no Ópera Curta, projeto de circulação de produções pelo interior do Estado. O gênero, ele diz, deve ser compreendido como “parte de nossa origem”. “As primeiras políticas públicas de cultura no Brasil foram para a ópera, ainda no século 18. A convivência com essa linguagem também faz parte de nossa gênese como povo. A ópera é contundente, fala com múltiplas formas de arte e dialoga com o dia a dia das pessoas.”

As últimas gestões, ainda que tenham produzido bons espetáculos, falharam na criação de um esquema sólido de produção. Papa acha possível, nos próximos anos, chegar a 12 ou 14 títulos por temporada, com produções novas e outras sendo repetidas. “Para tanto, é preciso mudar uma chave. A central técnica de produção hoje armazena figurinos, mas os cenários tornaram-se um amontoado de entulho. Para se fazer um teatro de repertório, é preciso ter isso em mente quando se trabalha. Temos, por exemplo, que, ao montar a temporada, pensar em alguns títulos que possam compor esse repertório e encontrar soluções para que sejam reaproveitadas”, explica. 

Nos planos está também a montagem de um corpo estável de solistas, sob responsabilidade do maestro Mário Zaccaro. Papa também levou de volta ao teatro o maestro Jamil Maluf, que reassume a Orquestra Experimental de Repertório. 

“Há um tripé básico a ser observado. Primeiro, o gerenciamento harmonioso de pessoas. Segundo, a compreensão que o belo é de ordem estética, mas também deve estar na ética dos comportamentos. E, por fim, a visão da realidade, o reconhecimento das dificuldades do momento atual e da possibilidade de buscar alternativas”, acrescenta Papa.

Relação entre fundação e OS será revista, diz Sturm

Secretário municipal de Cultura afirma que contrato de gestão deve ser firmado diretamente com a Prefeitura

A forma de contrato entre o Teatro Municipal, a organização social responsável pela sua gestão e a Secretaria Municipal de Cultura será alterada. “O modelo de gestão via OS é o ideal hoje, mas neste caso não foram criados mecanismos de acompanhamento, o que levou a uma série de desvios”, afirma André Sturm. 

A Fundação Teatro Municipal, que engloba também a Praça das Artes e as escolas de música e bailado, foi criada em 2012 com o objetivo de dar eficiência de gestão e liberdade de atuação aos projetos.

Como fundação pública, no entanto, a entidade precisa de uma OS para que os contratos sejam firmados. “No modelo existente, o contrato de gestão era firmado entre a fundação e a OS e não entre a secretaria e a OS. Não há motivo para ter a fundação como intermediário”, diz Sturm. “Pretendemos que o contrato de gestão com relação às atividades do Municipal seja feito direto entre Prefeitura e OS. E a Fundação fica responsável pela Praça das Artes.” Segundo o secretário, já está sendo formatado o decreto que vai instituir o novo modelo e mecanismos de acompanhamento dos contratos entre o município e as organizações sociais. “A nossa intenção é ter essa questão resolvida até junho.” Na mesma época, será realizado edital para escolher a nova OS que deve substituir o Instituto Brasileiro de Gestão Cultural. 

A relação entre OS e Prefeitura, lembra Sturm, tem que contar com fiscalização constante, mas ele acredita que a OS deve ter autonomia para trabalhar. Tanto Papa quanto Minczuk, no entanto, assumiram por determinação do secretário. “Fizemos isso porque, depois de toda a polêmica do último ano no Municipal, achamos importante mostrar que estávamos comprometidos em começar a trabalhar e encontrar uma solução”, ele explica. “A OS serve sim à secretaria, que deve fiscalizar com cuidado contratos, valores e se os objetivos artísticos estão sendo cumpridos. Mas a OS precisa ter autonomia de gestão, independência.”

Para Sturm, o Municipal é uma prioridade. “O teatro, pela sua história e possibilidades, deve ser a joia da coroa dos nossos equipamentos teatrais, assim como a Mário de Andrade deve sê-lo entre as bibliotecas.”

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