JF DIORIO/ ESTADÃO
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Novo CD mostra o palco como o trampolim do mestre João Donato

‘Live Jazz in Rio Vol. 2’ traz o suingue adoidado e mântrico do gênio

Aquiles Rique Reis, Especial para O Estado de S. Paulo

03 de fevereiro de 2015 | 03h00

No final de 2014, aqui no Caderno 2, eu descrevi o que presenciei durante o 6.º Festival Choro Jazz de Jericoacoara. Hoje, volto para falar do desfecho do evento: João Donato, o grande homenageado pelos seus 80 anos, fez um show histórico. 

O repertório de sua apresentação se baseou no CD Live Jazz in Rio Vol. 2 – O Bicho Tá Pegando (Discobertas). Nele, acompanhando Donato, estão Luiz Alves (contrabaixo), Ricardo Pontes (sax e flauta) e Robertinho Silva (bateria). 

Bem, acho que não se deve falar sobre um mestre sem antes ao menos tentar adivinhar a sua personalidade: um menino bagunceiro de marca maior quando ao piano, mas tímido como ele só quando longe de seu instrumento. Assim o vejo.

Ao compor, é como se criasse células melódicas, cantarolasse-as sobre harmonias aparentemente simples, às vezes repetindo-as num suingue adoidado e mântrico, que resulta não em música, mas em música de João Donato – um estilo.

Seu piano tem jeitão inconfundível. Mesmo a sua voz, que não chega a ser de um virtuoso do bel canto, traduz fielmente o que se passa na cabeça deste criador de requintes insofismáveis, compositor criativo, pianista talentoso. Um cara que, expressando-se de tantas e tais formas musicais, além de ser um músico sui generis, figura entre os maiores compositores brasileiros. João Donato é a exata e mais bem acabada tradução da qualidade da nossa música: ele é imenso, ainda que sua personalidade o leve a quase camuflar tal predicado.

Sempre acompanhado por músicos que, além de igualmente virtuosos, sacam como poucos a sua grandeza, o palco é o trampolim de João Donato. E é saltando dessa plataforma mágica que o mestre alça voo para prover sua genialidade musical. 

O CD se inicia com uma de suas composições bastante conhecidas, Minha Saudade, dele e de João Gilberto – que dupla. Donato segura a melodia no piano. Logo o sax de Ricardo Pontes vem para juntos repetirem a levada. O piano retoma o solo. A bateria de Robertinho Silva e o baixo de Luiz Alves pulsam o samba. O sax improvisa. Logo a seguir, o piano também se esbalda numa primorosa sequência de compassos. Diferentemente de quando só percute as notas da melodia, passa a ser ouvido com acordes soando notas em blocos. A bateria faz um curto improviso, recurso este logo assumido pelo baixo. O cowbell da bateria soa. A seguir, o piano volta a tocar a melodia – na primeira vez em uníssono com o sax; depois, sozinho. Todos voltam a se juntar... Fim. Meu Deus!

Gravado ao vivo, ouvem-se aplausos calorosos. Reação que acende o palco, transformando-o numa festa íntima, em que os convidados se divertem tocando. Seguem-se dois bons temas instrumentais (ao todo são quatro). Em Rio Branco, o piano começa “comentando” a melodia e logo o baixo (suingado) e a bateria (de levinho) se achegam, antecedendo a flauta (soando bonito). Já em Na Barão de Mesquita, um samba, o piano e o sax tocam células harmônicas que se repetem e contagiam o suingue formado pelo conjunto baixo e bateria.

O som ainda rola em outras oito músicas de Donato. Ao final, solidifica-se a certeza de estarmos diante de um músico prodigioso. Um sujeito que tem a generosa capacidade de, mesmo produzindo obras sofisticadas, fazer com que soem simples. Assim, permitem que os fãs amem mais a sua música e possam ainda mais curtir seu talento de mestre.

AQUILES RIQUE REIS É MÚSICO E VOCALISTA DO MPB4

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