Novo CD do Red Hot Chili Peppers é o melhor do grupo

A revista Rolling Stone cravou: "É o melhor disco que o Red Hot Chili Peppers já fez." Considerando-se que o Red Hot é uma party band, mais conhecido pelas suas performances elétricas do que pelos discos memoráveis, é uma afirmação que merece ser testada. E, de fato, Stadium Arcadium (Warner Music), o primeiro disco que lançam em quatro anos, desde By the Way (2002), é um álbum fantástico. CD duplo, cujos lados são demarcados com os títulos Júpiter e Marte, tem 28 faixas e entra para o rol do que de melhor o grupo produziu em 23 anos de existência. Punk e funk em doses cavalares esperam o ouvinte nos dois aríetes sonoros com os quais o Red Hot Chili Peppers arromba as paradas. Produzido por Rick Rubin, é até meio esnobe em seu material de apresentação - as fotos do encarte, por exemplo, foram produzidas pelo cineasta Gus Van Sant (Drugstore Cowboy). Fazendo rock, no entanto, o quarteto californiano (uma das principais atrações do Rock in Rio Lisboa, no dia 27) está acima de quaisquer suspeitas. A primeira faixa do disco, que já toca por aí adoidado, é Dani California, mais uma contribuição do grupo à crônica de sua terra (Dani é personagem que aparece em dois outros discos da banda). Rimas terríveis surgem quando eles pensam demais, como ´Minnesota´ e ´Quota´, mas com a sonzeira que eles fazem, quem se importa? Anthony Kiedis, John Frusciante, Chad Smith e Flea não são roqueiros do tipo intelectual. Tem quem diga: graças a Deus! O guitarrista Frusciante jura que nós não estamos sozinhos no universo (e que pode provar). O baixista Flea batizou o filho de Sunny Bop. O baterista Chad Smith vive na casa que foi de Cary Grant. Com esse perfil, não vão muito mais longe do que lhes permitem suas referências básicas, que aparecem aqui e ali em Stadium Arcadium. Em Desecretion Smile (do CD Marte), por exemplo, ouvem-se vocalizações e mudanças de andamento típicas dos Beach Boys. Em Warlocks, a própria banda salientou que escuta ressonância de Led Zeppelin e Rush. Ouve-se ainda poeira cósmica dos Pixies, ou Gang of Four, Stooges, coisas do tipo. Júpiter é o disco mais louco. Charlie, por exemplo, começa com um dedilhado que evoca o Nirvana, as alternâncias de porrada e carícias do grunge. A faixa-título, Stadium Arcadium, parece canção de parada marcial. Hump de Bump tem o fraseado tão comum aos Peppers, cristalizado em Scar Tissue (de Californication). Marte é o melhor dos dois planetas. Funk-o-metal, Tell me Baby traz aquele duelo baixo-guitarra-vocal que tem feito a delícia das platéias desde que eles estouraram, nos anos 90. Hard to Concentrate é um pop banhado a ouro soul, suave, esvoaçante. Todo o instrumental está mais claro, mais destacado. A batida da bateria de Chad vem mais áspera, mas também mais controlada. Ele parece ter encontrado ali um meio termo entre Charlie Watts e seu duplo grunge, Dave Grohl. Isso transparece mais claramente em 21st Century. Sobra espaço para a psicodelia beatlemaníaca (na faixa If), para o rock mais básico (Make You Feel Better) e uma curiosa balada ambientalista (Animal Bar). Somem a isso a guitarrinha viciante de Storm in a Teacup, e o resultado é uma obra-prima. Curioso notar que, mesmo donos de um hit parade invejável, se a banda resolver fazer um show só com as músicas desse álbum, vai ser um daqueles shows de enlouquecer o Pacaembu. Mas sem invasão. Não haverá motivo. Todo mundo sai ganhando do novo Red Hot.

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