Novo CD de Marina traz a cantora instintiva e essencial

Marina Lima tem uma percepção auditiva danada. Por ser puramente musical, sua antena muito particular capta e memoriza informações que, para pessoas menos atentas, passariam despercebidas. Por isso mesmo sua euforia em registrar em CD um novo repertório, de músicas novas e regravações rearranjadas, que se configurou ao longo das elogiadas temporadas de shows que ela apresentou no Bar Baretto e no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo. Com as músicas mais do que ensaiadas pela cantora e sua banda nos palcos, o trabalho em estúdio foi rápido, dando origem ao novo "Lá nos Primórdios", CD bancado por ela própria e distribuído pela EMI.Sim, Marina acabou fazendo o caminho inverso da maioria dos músicos: o show veio antes do CD. A história toda começou no ano passado, quando a cantora e compositora recebeu convite do amigo Rogério Fasano, dono do Baretto, para experimentar um show mais minimalista, naquele espaço com capacidade para pouco mais de 60 pessoas. A idéia agradou a cantora, que se lembrou de um show parecido que fizera no extinto Jazz Mania, no Rio, nos anos 90. ?Aquela foi uma experiência incrível, porque era um lugar pequeno e eu vinha de shows em locais enormes. Foi legal cantar olho no olho?, lembra. ?Depois voltei a me apresentar em lugares grandes.?Até que surgiu o Baretto. E lá ela ficou em curta temporada. Aprovou acústica, público e formato. Queria voltar e cantar mais lá, mas uma nova temporada só veio mesmo quatro meses depois. Nesse ínterim, viajou para a Argentina pela primeira vez e ficou deslumbrada. ?O Baretto, a Argentina, tudo isso me trouxe uma vontade de compor.? Dessa inquietação nasceram quatro canções. Fasano a chamou de volta e Marina pôde testar parte do tal material inédito, incluindo o tango funkeado "Três" (resultado de sua estada em Buenos Aires), "Anna Bella" e o rock "Entre as Coisas". A diretora Monique Gardenberg, outra amiga, foi vê-la e as duas confabularam trabalhar juntas novamente. Tempos depois e com mais composições novas na manga, Marina realizou mais uma temporada bem-sucedida, desta vez, um espetáculo multimídia no Auditório do Ibirapuera e sob a direção de Monique. Apesar de servir de base para "Lá nos Primórdios", o repertório desse espetáculo reuniu coisas que só faziam sentido lá, no palco e, em contrapartida, não contou com algumas canções que estão presentes no disco. Entraram tanto no show quanto no CD as regravações de "Difícil", "Meus Irmãos" e "$ Cara". Escolhas feitas em consenso entre Monique e Marina e, atualizadas para atender a uma necessidade da cantora. ?Apesar de estarem prontas e darem conta ao que se propõem, musicalmente, a moldura delas não correspondia ao que eu queria fazer agora. Então, eu as rearranjei com minha banda, para torná-las com frescor de agora.?Entra aí, mais uma vez, a história da percepção auditiva. Livre de preconceitos ou saudosismos, Marina é daquele tipo de compositora ligada nas transformações pelas quais o mundo passa. Gosta de saber como a música é vista ou ouvida no tempo em que está vivendo. E apesar de ela ainda privilegiar guitarras, violões e teclados na hora de compor, não abre mão de recursos mais modernos, como os elementos eletrônicos. ?João Cabral de Melo Neto diz num livro que ele não vive no passado, o presente é matéria luminosa para ele. Não sou pessoa que vive no passado e na memória?, pondera ela. E complementa: ?Esses elementos entram no meu trabalho, porque traduzem muito o mundo em que eu vivo e hoje ele tem muitas sonoridades e timbres.? A compositora acredita que o mundo eletrônico trouxe uma cartela de ruídos, que são usufruídos por ela como se fossem utensílios. ?Às vezes, um pouco mais de ruído é necessário, às vezes o violão só já basta. Depende da canção. Isso tem a ver com depuração: você vai fazendo a canção e vendo do que ela precisa para se tornar absoluta. Isso é matemática.? A matemática, aliás, está no processo musical de Marina. ?Música é melhor quando é cerebral, isso não quer dizer que ela não tem emoção, calor, mas é tão exata que é cerebral. E primórdios, essência, instinto têm isso. Gosto disso. Não gosto de nada muito subjetivo.?Mágico de OzAlém das regravações pinçadas da discografia de Marina, o CD "Lá nos Primórdios" traz ainda a versão dada pela cantora à música "Dura na Queda", composta originalmente por Chico Buarque para a cantora Elza Soares. E lá vem Marina com sua percepção auditiva sempre em alerta. ?Tem uma coisa que ninguém comentou: quando Chico diz na letra ?O sol ensolararará a estrada dela/A lua alumiará o mar/A vida é bela/O sol, estrada amarela?, essa estrada amarela fala do Yellow Brick Road, que a Judy Garland canta no Mágico de Oz. Acho que o Chico sabe disso, ele é um cara que adora cinema e deve ter se lembrado disso. Mulheres são todas iguais: Elza Soares, Judy Garland, eu... todas nós queremos seguir a estrada amarela.? A canção de Chico Buarque ficou de fora do show, assim como a inédita Que Ainda Virão, mas ambas incluídas no CD. Marina explica que as duas músicas, por um motivo ou outro, não tinham função em seu espetáculo e sim numa gravação.Por outro lado, quem assistiu ao show vai sentir falta do registro de Bang Bang. A música de Sonny Bono ganhou versão peculiar na voz de Marina, mas mesmo assim ela resolveu não repetir a experiência no disco. ?No show, visualmente, Bang Bang tinha sentido, porque passava um filminho, e homenageava o meu irmão Antonio Cicero. Musicalmente, aquilo para mim não era nada diferente, porque outras cantoras já haviam cantado.? Pensados para abastecer o CD com duas faixas a mais, os remixes de "Valeu" e "Vestidinho Vermelho", respectivamente, a cargo de DJ Dolores e DJ Zé Pedro, se tornaram gratos presentinhos. E com potencial para as pistas. Marina acredita nesse potencial, mas é cautelosa. ?Espero que funcione na pista. Eu mais desejo do que penso.?É dessa maneira cautelosa e paciente que ela pretende divulgar o novo trabalho. Até o final do ano, deve gravar um DVD no Auditório do Ibirapuera, sob a direção, claro, da amiga Monique. Retomará os shows e rodará o Brasil. ?Rompi uma trajetória e voltei com muitas informações pessoais e musicais. As pessoas têm de ter tempo de entender isso. Tem de se ter paciência e amor pelo Brasil. Ou faz coisa óbvia, sem trabalho nenhum, ou você faz o que quer e tem de ralar. Fiquei com a segunda opção.? A repórter viajou a convite da gravadora EMIFaixa a faixa Três (Marina Lima/Antonio Cicero): ?Compus quando voltei de Buenos Aires. Não conhecia e fiquei impressionada. Fui num programa eletrônico, busquei uma levada funk e pus um tango em cima. Mostrei para o Cicero, que viu aquela música pronta, exata. Acho que esta é uma das grandes parcerias nossas.?Valeu (Marina): ?É uma ciranda eletrônica. Tenho fascínio por essas coisas nordestinas.?Anna Bella (Marina/ Cicero): ?A artista plástica Anna Bella Geiger é uma senhora inteligentíssima, com quem um dia tomei chá. Cheguei em casa e comecei a compor. ?Lá nos primórdios de tudo/ Anna Bella me falou/ Que não se pode amar sem ser amado, isso não, senhor.? É claro que ela não falou nada disso, mas poderia ter dito. Meses depois, reencontrei Cicero, que a adora. Fizemos uma música em homenagem a ela. Ela está louca para ouvir o disco.?Difícil (Marina/Cicero): ?Foi um rock que compus para o disco Todas, de 1985, mas que, para agora, fiz um rock meio White Stripes, uma coisa quase tribal que eles trouxeram.?Entre as Coisas (Marina): ?Vejo a MTV às vezes e ela me fez entrar em contato com músicas mais pesadas guitarristicamente, tipo Sepultura, que jamais eu botaria para escutar. Ficou marcado na minha memória auditiva. Faço uma guitarra distorcida, tosca.?Vestidinho Vermelho (Laurie Anderson/ versão de Alvin L.): ?Fala da vida caótica na cidade grande. Vê pelo prisma da graça e não da lamentação essa loucura do dia-a-dia, de mulheres que não podem ser presidentes. São tantas linhas cruzadas.?Meus Irmãos (Marina): ?No original, era quase foxtrote e regravei na urgência dos dias de hoje uma canção que as pessoas possam parar para ouvir.?Que Ainda Virão (Marina): ?É uma homenagem aos brasileiros. Quando a compus, me senti meio Chaplin, me lembra aquelas músicas solitárias do Djavan, Caetano.?$ Cara (Marina/Cicero): ?Esta é outra que rearranjei. É uma canção que está no disco Próxima Parada, de 89. ?Jamais foi tão escuro/ No país do futuro/ E da televisão.? Engraçado como essa afirmação ainda cabe nos dias de hoje.?Dura na Queda (Chico Buarque): ?Chico é um homem impressionante, que fez essa música para Elza Soares cantar. É uma obra-prima.?Valeu (Remix DJ Dolores): ?Chamei o Dolores para fazer o remix de uma ciranda, porque é nordestino e é o que ele faz: pega aqueles sons e recria isso de maneira magistral.?Vestidinho Vermelho (Remix Zé Pedro): ?Zé Pedro é um homem da noite, que é louco por música brasileira.?

Agencia Estado,

07 de agosto de 2006 | 14h26

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