Novo álbum reúne todas as faces de Eric Clapton

A discografia de Eric Clapton tem revelado, principalmente na última década, um músico de três faces. No mesmo guitarrista chamado um dia de Deus, há o bluesman especialista em tirar notas da alma, o criador de canções românticas inspiradas em tragédias pessoais e o cantor de música pop demasiadamente piegas. Pois bem. Os três Eric Claptons, finalmente, estão juntos. Reptile (gravadora Warner), novo disco que chega às lojas esta semana, é o álbum que melhor expõe o inglês. Em seus acertos e exageros.Na maioria dos discos anteriores, Clapton preferiu mostrar-se parcialmente. Em 1994, escalou um punhado de músicos brancos para gravar seu trabalho mais negro: From the Cradle. A visita ao berço resultou em uma série de clássicos do blues, apontado como um de seus melhores momentos. Quatro anos depois, quando todos esperavam uma seqüência no seguro terreno do disco anterior, Clapton colocou sua roupa de festa e fez Pilgrim, álbum tão pop que chegou a ser desprezado pela mídia.O terceiro Clapton, o romântico, aparece em projetos especiais. Quando chamado a fazer trilhas sonoras de filmes (Rush, A Cor do Dinheiro), investe em temas que evitam blue notes. Já as angústias viram canções de exagerada dose sentimental. Foi assim que surgiram Tears and Heaven, feita logo depois da trágica morte do filho de seis anos, e Wonderful Tonight, dedicada à mulher que decidiu "roubar" do amigo George Harrison. Sensibilizado por nova perda, o Clapton melancólico ressurge. Son and Sylvia, tema instrumental no qual aparece a gaita de Billy Preston, é dedicada ao tio Son, morto no início de 2000.Pela primeira vez, a música brasileira inspira diretamente uma canção sua. No segundo semestre do ano passado, Clapton foi ao Barbican, em Londres, assistir a um show de João Gilberto. Ao voltar para a casa, pegou o violão e tentou fazer uma bossa nova. "Sempre ouvi música brasileira. Mas, naquela noite, algo diferente aconteceu. Fiquei hipnotizado com Águas de Março", declarou depois. Bossa fake - As boas intenções de Clapton com a bossa não foram suficientes. Mesmo tendo virado a faixa de abertura e emprestado seu nome para batizar o disco, a música Reptile é um daqueles equívocos que o guitarrista, vez ou outra, dá-se ao luxo de cometer. O tema feito ao violão (que lembra Sign, de Unplugged), não tem consistência, não diz a que foi criado. E a bateria de Steve Gadd tenta, sem conseguir, aproximar-se de alguma coisa que soe samba. Dos três Claptons, o melhor ainda é o negro. Músicas como Got you on my Baby e Come Back Baby provam que sua guitarra, independentemente de sua vontade, fala mais alto quando o assunto é blues.Eric Clapton - Reptile (Warner). Preço médio: R$ 23

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