Novo álbum de Paul McCartney chega às lojas

É difícil entender por que, mesmo depois de 39 anos na estrada, um artista como Paul McCartney ainda é visto com certo preconceito no cenário pop contemporâneo. Muito bem, talvez a resposta seja mais óbvia do que se imagina. As eternas comparações dos seus trabalhos ao lado de John Lennon, George Harrison e Ringo Starr têm movido impiedosamente o mundo de Paul desde sua separação do quarteto de Liverpool, oficialmente decretada em abril de 1970. Aos 59 anos de idade, com o peso de ter perdido uma companheira de 30 anos nas costas (e já amparado pela noiva Heather), Paul tenta mais uma vez manter a credibilidade dos fãs e - acima de tudo do bom e velho rock ´n´ roll - com o álbum Driving Rain - o sucessor imediato do impecável Flaming Pie, de 97, e do disco basicamente de covers de rock visceral, Run Devil Run, de 97. Faixa incluída - Lançado oficialmente nas lojas mundiais no dia 12 de novembro, Driving Rain já estava disponível na Internet desde 24 de setembro (curiosamente, a data que marcaria o 60.º aniversário de Linda McCartney). Mesmo já ao alcance dos fãs mais desesperados e pirateiros de plantão há quase dois meses (cópias do CD prensadas na Ucrânia também já estão a venda em diversos sites "proibidos"), a obra não perdeu nem um pouco de sua jovialidade e frescor. Melhor ainda: quem baixou a cópia pirata com as 15 faixas, não tem mais o disco completo, já que a canção Freedom composta por Paul após o atentado ao World Trade Center foi acrescentada ao CD. A faixa teve seus vocais regravados em Nova York após o concerto beneficente do dia 20 de outubro (para lançamento imediato também como single), e ainda conta com alguns riffs de Eric Clapton. Em uma primeira audição, o mais fanático beatlemaníaco (e não apenas maccamaníaco) se assusta ao deparar-se com algumas "aventuras" utilizadas na produção do CD. A justificativa imediata é o envolvimento do norte-americano David Kahne, que tem em seu currículo parcerias variadíssimas com Sugar Ray, Sublime, Tony Bennett, entre outros. O ecletismo do produtor, provocou a diferênça em faixas como She Given Up Talking e Rinse The Raindrops. A primeira, um rock com clima psicodélico oferece ao ouvinte uma mistura interessante de experimentalismo dos anos 60, com nuances progressivas à moda do velho Pink Floyd. Já Rinse The Raindrops chega a assustar aos ouvidos mais distraídos. Os vocais, sem querer levantar falso testemunho, relembram os gritos primais de Macca em Helter Skelter. Mas Rinse não é nada parecida com a faixa do Álbum Branco, e sim com um pouco do hard rock dos anos 70 do Black Sabbath e Deep Purple. Nada disso, entretanto, é pura coincidência, já que as mixagens de Driving Rain ficaram a cargo do engenheiro de som Mark Dearnley, que também colabora com Ozzy Osbourne em seu novo ábum, Down To Earth, já disponível nas lojas. As sessões de Driving Rain, divididas em duas semanas de fevereiro no estúdios Henson, na Califórnia, e em junho último, também nas depêndencias do antigo lote fundado pelo ator Charles Chaplin, nos Estados Unidos, produziram 22 canções inéditas. Assim como em Run Devil Run, Paul preferiu abolir aos tediosos ensaios, e apresentar as faixas ao produtor ao vivo no estúdio, deixado, assim, as populares demos de lado. Mesmo com a velocidade do trabalho e com um clima bem experimental das gravações, os fãs mais ortodoxos do ex-beatle não ficarão decepcionados. Sim, Driving Rain também traz um pouco do velho Macca, principalmente de sua fase Wings, graças ao envolvimento do baixista com a antologia Wingspan, lançada em maio deste ano. Os melhores exemplos são Your Way, composta na Jamaica, que lembra muito o material de Red Rose Speedway, de 73. Já I Do, escrita na Índia, no início de fevereiro, é outra balada clássica que recorda o início dos anos 70, quando McCartney buscava uma nova identidade com sua recém-formada banda. Heather ou Linda? - Depois de resgatar a vontade de trabalhar em estúdio, Paul incluiu em Driving Rain canções-tributo aos seus dois amores, o que pode causar certa confusão na cabeça de quem procura respostas sobre o significado de cada letra. A mais ambígua delas talvez seja a balada From A Lover To A Friend, onde Paul canta "Siga seu próprio conselho/Me deixe amar de novo". Quando perguntado, o próprio artista disse não saber qual a fonte inspiradora da letra: Heather ou Linda? Já em Magic, Paul confessa ter lembrado da primeira vez em que encontrou Linda na boate Bag O´ Nails, em Londres. É a única homenagem declarada à mulher que faleceu vítima de câncer, em abril de 98. A canção Heather - uma mistura de Wings com Led Zeppelin, que é levada com competência pela guitarra-solo de Rusty Anderson, pela bateria de Abe Laboriel Jr e pelos teclados de Gabe Dixon - é uma ode escancarada à noiva, que se tornará Sra. McCartney no ano que vem. Outro tributo à Heather é a romântica Your Loving Flame, composta em um hotel de Nova York em 99. Driving Rain conta ainda - além da faixa título - com Back In The Sunshine Again e Spinning On An Axis, que marcam a estréia da parceria entre Paul e o filho James Louis em disco. Em tempo: um dos melhores rocks compostos por Paul, Lonely Road, que também nasceu de sua estadia na ilha de Goa, na Índia, é a prova que a comparação de Paul com seu trabalho nos Beatles pode até ser pertinente.

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