Werther Santana/Estadão Conteúdo
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Novo álbum de André Mehmari, ‘Notturnos 20>21’ traz reflexões sobre período pandêmico

Disponível em serviços de streaming, disco tem também reinvenções livres de peças de Bach, Purcell e Merula

João Marcos Coelho, Especial para o Estadão

07 de setembro de 2021 | 20h00

Dificilmente qualidade e quantidade andam juntas. Há músicos que, graças às facilidades digitais de hoje em dia, gravam tudo que produzem e colocam nas plataformas de streaming. Na produção de grandes músicos como John Zorn e Anthony Braxton, por exemplo, há altos e baixos. Natural. O que não é natural, é extraordinário mesmo, é a produção artística sempre de alto nível assinada por André Mehmari, de 44 anos. Ele diz que mantém uma média de quatro álbuns anuais. Mas tem lançado mais do que isso – e todos diversificados. Ora com trio piano-contrabaixo-bateria, ora solo, ora compondo música camerística e orquestral. Esqueçam rótulos, muros artificiais entre gêneros. Mehmari invariavelmente transforma em essencial o que poderia soar como ecletismo fácil.

É o caso do recém-lançado álbum Notturnos 20>21, assim mesmo, com dois “Ts”. Gravado no primeiro semestre em seu piano no Estúdio Monteverdi, provocará surpresas e suspiros em quem o ouvir. Execuções primorosas, por exemplo, da Balada Opus 10 Nº 4, de Brahms, de peças curtas de Louis Couperin, cravista compositor francês do século 18. Estão lá também reinvenções livres de peças de seus amados Bach, Purcell, Merula (contemporâneo de Monteverdi). Tem até um lírico Hermeto Pascoal. Das dezesseis faixas, sete são assinadas por ele. Incluindo três Expresso Notturno.

Milagrosamente, ele extrai o mesmo prazer e qualidade de execução em improvisos, como os “noturnos” e em uma leitura refinada da Balada, obra encorpada de Brahms, então como concilia a execução estrita das partituras clássicas com as reinvenções de outros temas igualmente clássicos, sobretudo as peças de mestres do período renascentista e barroco? “Eu sou um pianista improvisador desde sempre, mesmo quando tocava a obra de grandes mestres como estudo na adolescência, sempre saía improvisando depois, criando variações ou devaneios”, conta Mehmari ao Estadão. “O ensino tradicional do piano clássico não vê com bons olhos essas liberdades, mas essa minha inquietude simplesmente foi o que forjou minha voz como compositor e intérprete criativo.”

Uma compreensão ideal da música no caso da Balada, uma peça que é puro Robert Schumann, o mestre do fragmento. Brahms compôs as quatro do opus 10 na primavera de 1854, quando seu padrinho Schumann já estava internado em Eisenach depois de em surto ter se atirado nas geladas águas do Reno, em fevereiro daquele ano. No auge de sua torturada paixão platônica por Clara, a pianista e mulher de Robert, as baladas têm pouquíssimo ou nada a ver com sua produção pianística restante. Não há desenvolvimento temático, os fragmentos se sucedem. Mas a quarta, que André escolheu, faz do fragmento uma ponte para as derradeiras peças para piano de Brahms, melancólicas, nostálgicas, compostas 42 anos depois, em 1896, logo depois da morte de Clara.

“Esta balada é um milagre”, concorda Mehmari. “Brahms nos seus vinte e poucos mergulhando nas profundezas do abismo ou do inferno. Eu era muito menino ainda quando fui raptado pela tonalidade sombria dessa peça e só hoje, depois de muito relutar, resolvo consolidar meu amor por essa música numa leitura própria, fiel à partitura e ao mesmo tempo livre como um improviso ou um noturno. Sim, não toco nada que não esteja na partitura original, mas ao mesmo tempo toda música que boto a mão torno minha, pois é o único jeito que sei fazer música, seja ela escrita/improvisada por mim ou por outros criadores de qualquer época ou estilo.”

Outro momento culminante deste álbum extraordinário está nos Expressos Notturnos, e que levam indicações de tempo à italiana, como convém à música clássica, como Agitato (no.1), Corale (no.2) e Stazione Termini (no. 3), este último o derradeiro das 16 faixas. Arrisco dizer que os Expressos Notturnos improvisados por André em seu Estúdio Monteverdi têm tudo a ver com a Balada e as peças finais de Brahms: parecem confissões de tempos difíceis. E exigem uma escuta ativa, como ele mesmo solicita: “Eu acredito e espero que ‘meu’ ouvinte seja capaz de escutar minhas leituras de Couperin, Monteverdi, Brahms e Hermeto no mesmo álbum e reconhecer minha mensagem íntegra em cada uma dessas linguagens aparentemente incomunicáveis. Talvez seja querer demais num tempo de tanta pulverização e baixa concentração, mas não sei ser outra coisa. Precisa ser de fato um ouvinte pra lá de ativo, assim como eu sou ouvinte atento da arte de outros tantos artistas com os quais me identifico e têm esse mesmo grau de inquietação interna”. 

Palavras justas e precisas. Logo, o álbum estará disponível nas plataformas de streaming. Uma sugestão: você pode comprar antes esse álbum e pelo preço de R$ 30 no site www.andremehmari.com.br. Porque só lá você terá acesso também a mais oito Expressos Notturnos, ou seja, praticamente um outro álbum apenas com estas lindas, intensas e essenciais reflexões pianísticas sobre o que André chama de “grandes silêncios pandêmicos que se impuseram em nossas vidas”. Como Hermeto, André também é “o farol que nos guia”.

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