Nove motivos para o eterno culto a 'Thriller'

Escritores do 'Los Angeles Times' dão suas visões das faixas originais do álbum de Michael Jackson

Ann Powers, do Los Angeles Times,

26 Fevereiro 2008 | 18h08

Há duas maneiras de ouvir Thriller de Michael Jackson, relançado em todo o mundo (inclusive no Brasil), no seu 25º aniversário. Os viciados em escândalos encontrarão evidências residuais das obsessões que afundariam o maior astro pop de sua geração na Babilônia Hollywood: a sexualidade reprimida, explosiva, em seus vocais sussurrados, a ambigüidade racial que ele codificaria em seu corpo, evidente em canções transgênero como Beat It; o fetiche inocente que fez baladas como Human Nature cintilarem, mas levaram o cantor a uma vida reclusa entre crianças corrompidas em sua Neverland (Terra do Nunca).   Veja também: Ouça trecho de 'Billie Jean'  Ouça trecho de 'Human Nature'  Ouça trecho de 'Beat It'  Ouça trecho de 'Thriller'    A sujeira está toda lá. Mas também está a maravilha, pura, e uma dose de esquecimento voluntário pode nos levar de volta a ela. Deixe de lado o Jacko, o exemplo trágico. Volte ao Michael, o prodígio musical que filtrou uma enormidade de influências transculturais e intergeracionais com seu próprio radar exótico para criar música tão surpreendente quanto definitiva.   Desfrute desse Michael, em jogo nos campos das novas tecnologias com o produtor Quincy Jones e o melhor time de profissionais de estúdio desde que Brian Wilson costurou a Wrecking Crew. Aos 24 anos, esse Michael personificava o poder vertiginoso de ser jovem - suas canções de amor eram todas alusões a desejo insatisfeito e alegria, suas canções zangadas meio explosão e meio pesadelo.   Esse Michael acreditava que canções pop poderiam ter o efeito que os contos de fada clássicos têm para crianças, colorindo seus sonhos e permanecendo para sempre em suas memórias. Thriller foi a primeira Neverland que ele construiu - a única que ele jamais perderá num tribunal de falência.   O aniversário de Thriller inclui remixes por will.i.am e Kanye West e participações de Fergie e Akon. O conteúdo clássico é o que ainda ressoa, porém, embora os ouvintes mais jovens precisem ser atraídos por nomes que associam à Hot 100 (a parada das 100 canções e singles mais tocados da Billboard nos EUA). Neste artigo, nove escritores e colaboradores do Los Angeles Times dão suas visões das faixas originais do álbum:   1 - Wanna Be Startin’ Somethin’   Por mais quente que Jackson estivesse após o salto quântico que Off the Wall, de 1979, trouxe para sua carreira-solo, poucos esperavam que ele igualasse, e muito menos que superasse aquelas alturas tão rapidamente. Mas a faixa de trabalho de Thriller estabeleceu imediatamente o novo álbum como mais um passo gigantesco à frente. Ela associou Off the Wall a uma pulsação dançante funk afro-caribenha irresistível e modulações apimentadas de trompete parecidas com as de Don’t Stop ‘Til You Get Enough, depois disparou para novas alturas com linhas ainda mais vigorosas de guitarra e baixo impulsionando seus vocais impossivelmente ágeis. Se Off the Wall demonstrava que Jackson não era mais um garoto, Somethin’ sinalizava a maturidade de sua sagacidade musical. Feito ainda mais impressionante em se tratando de uma canção construída sobre dois acordes apenas. (Randy Lewis)   2 - Baby Be Mine   Imagine se este não fosse o melhor de dois não-singles de um álbum monstro, mas um single isolado de um artista desconhecido. O andamento suave, deslizante, de Baby Be Mine provavelmente teria alcançado as Top 20 de R&B e uma porção de execuções avulsas, sendo incluído em CDs mistos por DJs europeus de vanguarda. Teríamos nos interessado pelo cantor biônico, os arranjos brilhantes de sintetizador, o ritmo saltitante. Em suma, soaria como o clássico oculto que continua sendo, mesmo à plena vista. (Michaelangelo Matos)   3 - The Girls Is Mine   Melosa, insípida, fraca, embaraçosa - é assim que detratores descrevem a suave luta de Jackson como sparring de seu Beatle então favorito, Paul McCartney. Sustentada por uma batida leve como espuma de barbear e floreios de sintetizador dos rapazes da banda Toto, está muito longe do funk paranóico de Billie Jean. Mas sua linha vocal açucarada é como uma versão para todas as idades de Unchained Melody, e a letra enjoativa (eu sei, "maldita") invoca uma Arcádia da canção popular que tanto MJ como Macca lutaram para preservar à medida que o pop ia ficando mais obsceno. O realce que Jackson dá à palavra "endlessly" (eternamente) no meio da canção ainda pode fazer um ouvinte se sentir nadando num mar da colônia Love’s Baby Soft. (Ann Powers)   4 - Thriller   Se um vídeo algum dia matou um astro do rádio, foi Thriller. A canção era excelente - batida funkeada, letra aparentemente tirada de algum "livro de histórias de terror" para criancinhas - mas o vídeo foi lendário: a um custo de US$ 800 mil, o minifilme de 14 minutos foi o vídeo mais caro de seu tempo. Para o espectador de hoje, saturado por vídeos exorbitantemente caros, ele ainda parece épico. Aquele diálogo ("I’m not like other guys")! Aquele interlúdio de rap de Vincent Price! E, mais que tudo, aqueles zumbis coreografados, dançando num estilo que - graças a Usher, Ne-Yo e Chris Brown - ainda consegue seus registros na MTV. (Baz Dreisinger)   5 - Beat It   Um segredo não muito bem guardado: o guitarrista não creditado que fustigou o solo guinchado, esvoaçante, nessa ode à covardia machista foi Eddie Van Halen, cujos feitos extracurriculares incluíram as provocações para a saída, em 1985, do cantor David Lee Roth da paleolítica banda de rock Van Halen. No aerodinâmico vôo de metais injetou o combustível multigêneros que impulsionaria o sucesso de Thriller - um expediente que Jackson usaria mais tarde com spots de Slash e Carlos Santana. Sem o precedente Van Halen, poderia não haver colaboração de Run-DMC e Aerosmith na versão rap/rock de 1986 de Walk This Way. (Greg Burk)   6 - Billie Jean   É aqui que o plano material do álbum dá lugar a um interior assombrado, escavado por aquela impiedosa linha de baixo, e moldado por um tenso diálogo de instrumentos - o arranjo é engenhoso, tão pobre e rarefeito que é difícil aceitar que havia três sintetizadores em ação. Jackson encontra uma nova voz aqui, uma voz de vítima que estremece nas sombras desse notável espaço sônico, atacando sua própria ingenuidade e os falsos acusadores que estavam apenas começando a se aglomerar à sua porta. (Richard Cromelin)   7 - Human Nature   Jackson é um vampiro sensual voando sobre a cidade à procura de pescoços suculentos para morder. Human Nature é mais lenta e íntima que outras canções de Thriller. "If this town is just an apple, let me take a bite" (Se esta cidade é apenas uma maçã, deixem-me morder um pedaço), estremece a voz de Jackson sobre uma cascata de sintetizador e uma linha de baixo que tudo impregna. Embora tenha sido escrita por John Bettis e Steve Porcaro da Toto, a letra ressoa com o anseio de Jackson por se libertar de sua torre de marfim e se misturar com os jovens numa "city that winks its sleepless eyes" (uma cidade que pisca seus olhos insones). (Serena Kim)   8 - P.Y.T. (Pretty Young Thing)   É toda sobre o esquilo de dorso listado. A produção já tem um charme cativante; ela não é tão impositiva como Beat It ou tão escorregadia como Human Nature, mas aqueles sintetizadores ondulantes e linhas repetidas de baixo fazem bem o seu trabalho. Mas, além do gancho P.Y.T. em tom de robô, o que sela o acordo é aquela a voz esganiçada no começo da segunda parte. Honestamente, até hoje, ainda não consigo decifrar qual frase é disparada, mas apenas o efeito esquilo foi suficiente para imprimir a canção em minha mente. O fato de Kanye West ter encaixado a mesma passagem em sua "Good Life" ganhadora do Grammy só confirma que não estou sozinho em minha paixão. (Oliver Wang)   9 - The Lady In My Life   E o big-bang pop dos anos 1980 termina numa... lamúria? Deve ter parecido assim na época, essa ninharia escrita e arranjada por Rod Temperton fechou Thriller num tom romântico inconvincente - mesmo antes do escândalo. Hoje, porém, Lady cintila em sua simplicidade clássica, uma melodia rimada direto do Burt Bacharach vintage (o trompete em surdina no começo não deixa dúvida) sobreposto por um coro que é quase uma homenagem a Stevie Wonder. E a interpretação de Jackson é jovialmente genuína. Não, não é uma lamúria. É um suspiro. (Steve Hochman)   Tradução de Celso Mauro Paciornik

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