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Novas surpresas de Sir Neville Marriner

Às vésperas de completar 90 anos, maestro veterano lança disco com primeira gravação de peça de Krenek

João Marcos Coelho / Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

27 de dezembro de 2013 | 14h00

Você clica em Neville Marriner e Academy of St. Martin-in-the-Fields e na Amazon aparecem mais de 2.500 gravações. Claro que aí se incluem faixas isoladas em centenas de antologias. Mas o fato é que Marriner, ou melhor Sir Marriner, hoje com 89 anos, e sua Academy, que ele fundou 53 anos atrás, são campeões em volume de gravações e vendagem no mundo inteiro no último meio século. Juntos lançaram mais de 300 discos. Nenhuma outra orquestra de câmara vendeu tanto quanto eles. O mais famoso disco – deles e da história da reprodução fonográfica no século 20 – é a trilha sonora do filme Amadeus, de Milos Forman, de 1984.

Pois acredite, Marriner está ativíssimo e acaba de lançar um CD superatrevido pelo selo inglês Chandos com sua amada St. Martin-in-the-Fields, com concertos grossos compostos no século 20. O novíssimo CD traz até uma primeira gravação mundial. Marriner escolheu três obras assemelhadas na instrumentação e na concepção – um grupo de solistas contraposto ao tutti orquestral de câmara, como no barroco do século 18 –, todas escritas na década de 1920. A delícia no concerto grosso é explorar as diferenças de sonoridades e texturas entre os solistas e o tutti. O concerto grosso e outras formas barrocas renasceram nos anos 1920, graças a Stravinski.

O compositor checo-judeu Erwin Schulhoff compôs em 1927 o Concertino Doppio, para flauta, piano, orquestra de cordas e duas trompas. Ele morreria em 1942 num campo de concentração, durante a 2ª Guerra. A obra obedece à estrutura tradicional barroca em três movimentos, mas ao mesmo tempo soa moderna pelas pitadas dissonantes e o fino trato de sua escrita instrumental. Solistas e a Academy sentem-se à vontade em Schulhoff. E nadam de braçada no Concerto opus 89, para piano, flauta, violoncelo e cordas, do compositor francês Vincent d’Indy (1851-1931).

Mas a obra mais interessante é a que recebe a primeira gravação mundial. Trata-se do Concertino opus 27, do compositor austríaco Ernst Krenek. Viveu entre 1900 e 1991 e foi um camaleão estilístico. Pulava de estilo em estilo como quem troca de camisa. Foi popularíssimo na Alemanha dos anos 1920 com sua ópera-jazz Jony Spielt Auf; por isso, foi recebido com festa nos EUA quando fugiu do nazismo.

O concertino nasceu sob o impacto da audição de Pulcinella, de Stravinski. “Está o mais próximo que consigo dos esquemas evidentes do neoclassicismo, lembrando a linguagem tonal daquele período e utilizando com espírito brincalhão alguns de seus maneirismos”. Ele consegue ser tão bom e irônico quanto Stravinsky. Precisa mais? E Marriner, às vésperas de se tornar nonagenário, oferece uma leitura entusiasmante da obra.

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