Nova musa do jazz faz show no Brasil

Se no campo da música pop, Madonna passou a ser cercada por Britney Spears, no de jazz, Diana Krall está sentindo a quentura de Jane Monheit. A nova sensação do jazz americano tem apenas 23 anos, rosto de musa de Botticelli e uma exuberante e acetinada voz que levou a crítica do jornal New York Times a chamá-la de uma jovem e branca Ella Fitzgerald.Jane Monheit também já tem dois CDs de sucesso em sua curta trajetória musical. E o repertório de ambos os trabalhos tem um ponto em comum: além de canções de Gershwin, Berlin, Arlen e Porter, a cantora também gravou dois standards de Tom Jobim - Dindi e Águas de Março, essa última faixa de trabalho de seu último álbum."Jobim fez músicas extremamente sensíveis, repletas de emoção", explica Jane, em entrevista exclusiva ao Estado, poucas horas antes de embarcar para a Áustria, onde faria alguns shows na semana passada. "Em todo o espetáculo que faço, não importa o lugar, sempre incluo uma canção de Jobim em meu repertório."Pela primeira vez o público brasileiro poderá ter contato com o trabalho de Jane. A cantora chega no começo de abril ao País, onde fará uma série de shows no Mistura Fina, do Rio de Janeiro (a partir do dia 4), e no Bourbon Street, em São Paulo (a partir do dia 9). No Rio, dependendo da disponibilidade de Ivan Lins, Jane Monheit vai chamar o cantor e compositor carioca para subir ao palco para um canja.Lins é a nova paixão brasileira de Jane. No fim desta semana, os dois gravam em Nova York um dueto a ser incluído no próximo CD da cantora, que tem lançamento previsto para setembro. Trata-se da inédita Once I Walked to the Sun. Jane também vai gravar (sozinha) a canção Começar de Novo. Mas ela não vai reprisar a versão em inglês e em estilo semipornô-de-filme-francês-dos-anos-70 pelo qual Barbra Streisand optou em seu CD de 1999, A Love Like Ours. Jane vai interpretá-la em português."Foi meu professor de canto (Peter Eldridge, fundador do grupo New York Voices) quem me introduziu na música de Ivan Lins", explica Jane. "E o trabalho dele significou muito para mim ao longo destes últimos anos", continua. "Achei que seria mais honesto se eu cantasse Começar de Novo em português. Mas confesso que seu idioma não é tão fácil de aprender quanto o francês", confessa ela.Ella e Sarah - Neta de uma cantora e filha de um tocador de banjo de Long Island, onde estão as boas praias freqüentadas pelos nova-iorquinos descolados, Jane Monheit já dava sinais de seu tino musical aos 2 anos, quando cantava Over the Rainbow na sala de sua casa. No primário fez parte de programa de jazz e estudava o repertório e o primor vocal de cantoras como Ella Ftizgerald, Sarah Vaughn e Carmen McRae.Aos 17, Jane mudou-se para Nova York, onde estudou na prestigiada Manhattan Scholl of Music e teve Eldridge como seu instrutor vocal. Três anos mais tarde, a cantora foi incentivada a participar da competição do Thelonius Monk Institute, em Washington. Os jurados, entre eles Dee Dee Bridgewater, Diana Krall, Diane Reeves e o finado Joe Williams, conferiram à cantora o segundo lugar no evento. Em primeiro, ficou a veterana Teri Thornton, em seu curto comeback ao cenário jazzístico (ela morreu dois anos depois, vítima de câncer).Nos últimos três anos, com assessoria da tarimbada manager Mary Ann Topper, Jane gravou dois álbuns. Seu primeiro, Never Never Land vendeu cerca de 65 mil exemplares, uma marca extraordinária para o gênero jazz. Nesse CD, Jane Monheit contou com a participação de um "dream team" do jazz: o pianista Kenny Barron, o baixista Christian McBride e o saxofonista Michael Brecker.No ano passado, foi a vez do lançamento de Come Dream with Me que, em sua primeira semana nas lojas já ocupava o posto de número um da parada de jazz da revista Billboard. Ela foi assessorada por mais um elenco de músicos de primeira: Ron Carter, Lewis Nash, Bucky Pizzarelli e Barron.Pedigree - Com esse pedigree, as expectativas em torno de Jane sempre foram altas, assim como a cobrança da crítica. Em um longo artigo no New York Times, o resenhista questionou o nicho do jazz em que Jane se embrenhou: o das jovens vocalistas que privilegiam os grandes standards do jazz e blues, sem ênfase para a ousadia do novo. Jane chegou a ser apelidada no artigo de "princesa retrô". "Respeito a opinião das pessoas e isso é uma coisa que não gosto de comentar, pois representa o que uma pessoa específica acha de meu trabalho", diz, secamente.Mas como criticar um lado do jazz, gênero que vem conhecendo um encolhimento em suas vendas, se ele foi revitalizado por Diana Krall? Jane é a primeira a reconhecer que não está desbravando caminho novo. "Inquestionavelmente, Diana rompeu fronteiras para nós", avalia. "Com sua música, seu jeito natural de cantar, ela expandiu o mercado, criando um incrível número de fãs ao redor do planeta."O crítico americano William Berlind compara o estilo das duas cantoras. "Jane é o contraponto de Diana. A última tem uma voz que projeta mistério e sensualidade, já a de Jane conota sinceridade e acessibilidade."Como ainda tem 23 anos, Jane acredita que sua voz "madurou muito". "Sinto isso agora que estou começando a gravar novamente", explica a cantora. "A propósito, meu repertório está mais livre, menos restrito e a novidade é que estou trabalhando com muita orquestração dessa vez." Apesar de não dar mais dicas de outras canções de seu novo CD, ela diz que tem gosto eclético na hora de escolher os CDs que coloca em seu system. "No momento gosto muito de Björk, Nikka Costa, Bonnie Rait e Joni Mitchell."Britney - Ao ser indagada sobre os jovens cantores do lado pop, Jane Monheit também dá sua opinião. "Acho que Britney e os meninos das boys bands fazem um trabalho muito positivo", afirma. "E eles dão muito duro para manter esse sucesso", continua. "Esse tipo de música não pode ser visto de forma totalmente negativa. O sonho de todo adolescente é se divertir. O que há de mal nisso?"

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