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Nova geração do jazz cubano é tema de documentário

'Cuba Jazz', ainda sem data de exibição no Brasil, faz um mergulho no universo dos músicos da Ilha e traça um panorama do pensamento de quem está fazendo a transição cultural

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2017 | 06h00

O bloqueio comercial imposto a Cuba pelos Estados Unidos em 1962, acusado de provocar um prejuízo de mais de US$ 90 bilhões ao país de Raul Castro, segundo relatório das Organização das Nações Unidas de 2005, não passa perto de Daymé Arocena. Ela canta quando fala e seus olhos brilham, quando caminha retribuindo gentilezas pelo bairro ou quando apenas sorri ao ver a mãe cozinhar. São todas partes de uma mulher que fica inteira mesmo no palco, livre e majestosa, juntando a dor e a frustração da última geração embargada de Cuba para criar uma experiência fenomenal.

Daymé é um soldado de um batalhão invisível e sem fardas. Os jovens músicos cubanos de jazz não aparecem ao mundo porque não tocam para aparecer. Sabem que jamais vão enriquecer ou se tornar estrelas e que o melhor dos palcos pode ser a laje em que se juntam nas chamadas descargas, despejando quantidades de energia absurdas no ar. O mesmo sistema cubano acusado de aniquilar o sonho do indivíduo é o que os faz serem músicos em estado puro. Sem mercado que pressione suas carreiras ou manipule suas criações, eles costumam resumir suas vidas em uma frase: “Em Cuba, não se faz negócio, se faz música”.

O primeiro registro que documenta a mais nova safra de músicos de jazz cubanos, criadores da linguagem mais livre do mundo num país em que essa palavra custa de três a quatro salários mínimos, é um filme de nome Cuba Jazz. Um documentário de depoimentos de músicos e produtores entrecortados por cenas urbanas e apresentações pelo pequeno circuito de Havana. A direção de Max Alvim e Mauro di Deus, com roteiro e entrevistas com quase 50 pessoas feitas por Luiz Augusto de Paula Souza, o Tuto, Max e Rogério da Costa, todos da LInC – Laboratório de Inteligência Coletiva, consegue inserir uma bem resolvida cota artística. As cenas entre as falas e os shows, feitas com câmeras estáticas que apenas observam o dia e seus passantes, obedece o tempo de um país que não precisa correr.

O filme está finalizado, mas ainda na fase de negociações para a exibição no Brasil. Sua estreia foi no Festival Internacional de Cinema de Havana, em dezembro de 2016, o que rendeu convites para outras duas mostras internacionais, em Roterdã e Frankfurt. “Mauro di Deus primeiro trouxe vários discos cubanos de uma viagem a Havana, uma produção sui generis de uma garotada fazendo jazz em Cuba. Pensamos no que esse cenário poderia indicar de mudanças”, diz Tuto. Seu documento pode ser, assim, mais do que musical, um extrato do novo pensamento crítico da geração que terá filhos em uma Cuba “quase capitalista”, com tudo de progressista e destruidor que a ideia pode guardar. “Em Cuba, há mais arte do que negócio”, diz no documentário o guitarrista já estabelecido, Chicoy, alertando, ao mesmo tempo, para quando a Ilha sofrer a inversão definitiva em seu modelo social. Em suas viagens pelo mundo, ele observa o espanto que teve ao perceber a relação de algumas sociedades com o tempo. “Estão sempre correndo.” Os andamentos lentos da vida, o cubano sabe, é uma conquista que ele não quer perder.

A equipe de brasileiros foi surpreendida por uma discussão entre os músicos da Ilha durante a captação das entrevistas. O que eles dizem que fazem é jazz cubano, não latin jazz. Ninguém consegue dar uma explicação muito técnica para as diferenças dos dois, mas a afirmação política pode ser a melhor delas. “Essa é uma questão muito forte para eles”, diz Tuto. “Podemos dizer que, dentro do latin jazz cabe de Astor Piazzolla a música brasileira. Mas o jazz cubano é único.” O nome que citam sempre como pioneiro da definição, entre o final dos anos 60 e início dos 70, é o pianista Chucho Valdés.

Outra discussão que ganha corpo nas declarações do saxofonista César López. O ensino de música na academia cubana, reconhecido no mundo, privilegia o universo erudito sob a batuta de técnica e mestres russos em detrimento de uma música popular nunca bem digerida nas salas de aula. E eles nem falam de son, danzón ou chá-chá-chá. O jazz já estaria, culturalmente, em uma esfera universitária mais baixa. O cubano deveria lutar para ver a música popular na grade curricular? “E precisa?”, contesta ele, refletindo o mal que o ensino formal pode fazer a uma tradição que brota das ruas.

Músicos norte-americanos costumam dizer que cubanos tocando é sinal de encrenca. Cuba Jazz mostra que falando também. O poder de reflexão dos jovens instrumentistas e cantores cubanos é outro sinal do avanço e da massa crítica na nova geração. E não só quando a discussão é política. O trompetista Yasek Manzano fala com a mesma navalha que usa em seus solos. Sobre a linguagem do jazz, um ritmo já considerado profano e imperialista nos anos pós-revolução castrista, ele diz: “Há muitos compositores que se apoiam em coisas predeterminadas e em imitações, buscando com isso o êxito. Isso é perdoável? O fato é que é questionável”. O jazz, para ele, deve ser não apenas a busca pelo padrão estabelecido, pelo belo, mas pelo estranho, pelo imperfeito. “Quando se é capaz de desenvolver o feio, ele pode se tornar mais misterioso, mais interessante. E, ao conjugar o belo com o feio, consegue a magia, algo como uma supernova que pode levá-lo a qualquer lugar.”

E então, na era em que músicos jovens rompem diques levantados há 53 anos, os cubanos fazem o balanço. Quando se fala em música, quem perdeu mais, o embargador ou o embargado? O baixista Jorge Reyes pode definir tudo em um trecho de seu depoimento. “Nós conhecemos eles, mas eles conhecem muito pouco de nós.” Pobre dos povos que ficaram bloqueados da música cubana.

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