Nova Diva de Cabo Verde exala suas influências em São Paulo

Mayra Andrade apresenta seu primeiro CD 'Navega'; um disco que tem 'os braços abertos para o mundo'

Pedro Henrique França, da Agência Estado

10 Outubro 2007 | 12h53

Mayra Andrade, cantora cabo-verdiana nascida em Cuba, está ansiosa. Isso pode ser notado ao telefone em seu comportamento, horas antes de seguir para o aeroporto de Paris a caminho do Brasil, para a série de três shows que fará em casas diferentes - nesta quarta-feira, 10, no Bourbon Street; quinta-feira, 11, no Sesc Pompéia; e sexta-feira, 12, no Sesc Santo André. Por conta de uma confusão de horário, em razão do fuso, ela chegou a dizer que não daria mais entrevista a Agência Estado, mas o repórter insistiu e ela topou falar até completar seu trajeto ao aeroporto.   Aos poucos, ela foi se soltando e revelou ser uma mulher de personalidade forte, que sempre soube o que queria: o palco. Morando há alguns anos em Paris, desde que ganhou, em 2001, uma bolsa para estudar canto, a jovem de 22 anos traz o repertório do seu primeiro CD, Navega, lançado no ano passado pela Sony francesa e que marca seu período de seis anos fazendo shows. No álbum, estão composições suas, além de presentes de compositores como Kaka Barboza, Nhelas Spencer e Orlando Pantera.   A música de Mayra Andrade navega por muitas referências, mas enraizada na cultura de Cabo Verde. "Sou uma artista essencialmente de palco. Gravei o disco com base na música tradicional cabo-verdiana, mas com braços abertos pro mundo. Procuro, por outras vias, valorizar minhas raízes. E essas outras vias são múltiplas", conta.   O resultado valoriza instrumentos conhecidos dos brasileiros, como o cavaquinho, em uma sonoridade de difícil especificação. Passeia pelo samba, tem um quê de bossa nova, mas é mesmo o que denominam de world music. Com passagens por Angola, Senegal e Alemanha - por conta do padrasto que foi embaixador - Mayra se configura um oceano de influências. "Essas misturas formaram minha personalidade, minha forma de encarar minha tradição, de trazer alguma coisa diferente para a cultura cabo-verdiana", diz   Navega é um título que demonstra a forte relação de Cabo Verde com o mar. No arquipélago, a 500 km da costa do Senegal, tudo é envolto por água salgada. Lá, o mar é visto de forma melancólica por ter "levado muita gente", mas também uma via por onde se conhece novos mundos. "O mar é nossa gaiola dourada. Historicamente, sempre representou a ida e a esperança do regresso: é uma dualidade".   Mayra Andrade vem colhendo boas críticas e por conta do sucesso e da forma como transmite a cultura cabo-verdiana foi incensada como a nova Cesaria Évora. Sobre isso, pondera: "Nem eu estou procurando fazer o mesmo caminho que a Cesaria, nem ela está procurando sucessoras. Cabo Verde não precisa de uma nova Cesaria, afinal ela continua vivinha. Eu espero ser Mayra Andrade e quero me destacar pela minha identidade".   A cantora pediu seu primeiro violão aos cinco anos. A precocidade ajudou para que a primeira vez no palco, aos 14 anos, fosse encarada com naturalidade. "Era minha primeira vez, mas na verdade não. Era um desejo desde criança. Como vocês dizem aí no Brasil, essa sempre foi a minha praia", diz, rindo.   Hoje mergulhada em ecléticas sonoridades - seu IPod vai do jazz de Ella Fitzgerald ao rock do Queens of the Stone Age -, ela demonstra sintonia com a música brasileira. Mayra conta ter crescido ouvindo Caetano Veloso. "Quando eu penso em referências, penso muito nele. Caetano, sem saber da minha existência, foi meu padrinho", declara ela, que hoje inclui Chico Buarque, Milton Nascimento e Maria Bethânia no rol de músicos que admira.   Mais prova da sua relação com o País é a banda que a acompanha: todos brasileiros. O contato começou em Paris, quando ia ouvir música brasileira em casas que tinham na França. "Era uma forma de me sentir mais em casa", observa. "Fui conhecendo alguns músicos e foi assim que convidei cada um para trabalhar comigo". Ela já esteve no Brasil, em 2003, mas este será o primeiro show em território brasileiro. "Minha expectativa e dos músicos é muito grande, e a gente não tem outra opção a não ser fazer três shows bombásticos porque nossa intenção é voltar mais vezes".   A cantora avisa que está chegando ao aeroporto e de que é hora de encerrar a entrevista. Peço a ela uma avaliação da pluralidade cultural cabo-verdiana. "Cabo Verde é um país que se situa no cruzamento das Américas, da Europa e da África. É um celeiro de riqueza e mestiçagens, reunindo um leque muito vasto de ritmos".   Mayra Andrade. Bourbon Street. Rua dos Chanés, 127, 5096-6100. Quarta-feira, 10, às 22h30. R$ 85. Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, 3871-7700. Quinta-feira, 11, às 21h. De R$ 4 a R$ 16. Sesc Santo André. Rua Tamarutaca, 302, 4469-1200. Sexta-feira, 12, às 21h. R$ 20.

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