Monica Almeida/The New YorkTimes
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Nostalgia do rock cerca o festival Desert Trip

Evento em Indio, California, começa nesta sexta-feira, 7, e reúne Rolling Stones, Bob Dylan, Paul McCartney, Neil Young, The Who e Roger Waters do Pink Floyd

Joe Coscarelli, The New York Times

07 Outubro 2016 | 11h36

Não é comum que uma mãe tente persuadir seu filho adolescente a ir a um festival de música com ela. Mas o Desert Trip não é desses festivais comuns.

Na noite desta sexta-feira, 7, um time de estrelas de primeira linha de veteranos do rock - os Rolling Stones, Bob Dylan, Paul McCartney, Neil Young, The Who e Roger Waters do Pink Floyd - vai começar o primeiro dos dois fins de semana do evento no Empire Polo Club, em Indio, Califórnia.

Entre o público, estará Julie Varon, uma mãe de três filhos, de Seattle, que cresceu com o rock n' roll que em algum momento fez a trilha sonora e estimulou a contracultura. Também envolvido, porém não tanto por seu próprio gosto, está seu filho de 19 anos, Sam, que prefere música country moderna e o Coachella, o festival anual que divide a organização e o local com o Desert Trip.

"Essa é certamente uma reviravolta", disse Sam, alguns dias antes do evento. Sua mãe brincou: "não ajuda que começaram a chamar o evento de Oldchella. Mas ele entende."

Como muitas das 150 mil pessoas esperadas no festival, Varon, de 59 anos, vê o Desert Trip como um evento histórico, uma última chance mergulhada em nostalgia de comungar com esses titãs do rock do século 20.

Como uma representante da geração "baby boomer", ela também está no público alvo do festival. Ao relacionar esses atos venerados com amenidades de luxo relativo (opções de arquibancada, banheiros extra, comida gourmet), os promotores do Desert Trip criaram um destino para uma audiência carente com tempo, meios e inclinação de ir com tudo para o que parece ser uma ocasião singular.

Matthew Thirlwall, 60, um professor de geologia que vive próximo de Londres, gastou US$ 898 mais taxas para um ingresso VIP que vem com "pacote de experiência culinária", bem como a passagem aérea e o ingresso para o acampamento. (Ingressos para três dias chegaram até a US$ 1599.)

"Eu percebi um ou dois anos atrás que a vida tinha muito mais para oferecer do que trabalhar 13 horas por dia, e decidi embarcar em uma aposentadoria parcial mais cedo", disse Thirlwall. Animado por uma viagem para o Burning Man esse ano, ele decidiu fazer do Desert Trip seu primeiro festival de rock.

"Uma das amigas da minha filha na universidade disse, 'oh, seu pai é tão cool'", ele lembra.

Simone Harle, 47, uma jornalista em Perth, Australia, também decidiu atravessar oceanos para o evento. Ela chamou a viagem de 24 horas até Indio - sua primeira visita aos EUA - de "uma peregrinação" em honra à música.

"Essa é a trilha sonora da minha vida", ela disse, o que fez um gasto de mais de US$ 5 mil parecer pouco esforço. "Foi uma reação automática para mim. Eu tenho arrepios no corpo todo e até nos olhos só de pensar."

Outros tomaram a ideia de uma peregrinação musical ainda além. Jon Langille, 55, levou um mês pedalando uma bicicleta elétrica por mais de 2,8 mil km até o festival desde British Columbia, no Canadá.

"Minha esposa e eu não concordamos em que tipo de viagem tomar", ele disse. "A ideia dela era voar. O que é ok e tal, mas eu realmente queria tornar isso uma experiência."

Ele continua: "Eu tenho sido um cara ocupado por 20 anos e a oportunidade de tirar um mês e estar sozinho, para pedalar minha bicicleta por 2 mil quilômetros e meditar, até um show de rock, realmente me atraiu - especialmente para uma coisa dessa, que só acontece uma vez na vida."

Varon estava igualmente comprometida a ir, mas escolheu uma rota astuta: para garantir acesso ao disputado ingresso e economizar dinheiro, ela procurou um trabalho no local do Desert Trip e foi contratada como supervisora dos arrumadores da área VIP nos dois fins de semana. O filho dela também está na equipe.

"Ele estava disponível", disse Varon. Em casa, "ele ficava jogando golfe, procurando emprego e sentado no sofá - bastante diversão - mas eu meio que disse, 'isso é obrigatório'."

Enquanto que Indio é conhecida pelos turistas endinheirados, aposentados e famílias de duas pessoas não estão entre a audiência típica de seus festivais.

"Eu nunca alugaria minha casa para o pessoal do Coachella ou do Stagecoach", disse Susan Andrews, que vive perto de Indian Wells, se referindo aos outros eventos que ocorrem no Polo Grounds. "Eles dizem que é um grupo de quatro pessoas mas na verdade é 15."

Para o Desert Trip, por outro lado, Andrews optou por alugar seis de suas propriedades para fãs, bem como três quartos em sua casa.

"Tem um médico vindo ficar aqui", disse. "Essas pessoas são mais velhas - algumas delas foram para Woodstock. Vai ficar tudo calmo."

Outra moradora local, Cheryl Craig, disse que ela também espera uma plateia bem mais calma para o Desert Trip, e que planeja ir nos dois fins de semana.

"Esse é o tipo de música com o qual eu cresci", disse Craig, de 57 anos. "Ter perdido Prince e David Bowie este ano faz pensar: quando é a última chance que você vai ter de ver essas pessoas?"

Reminiscências emocionadas como essa podem ser inevitáveis para fãs em um encontro com conotações tão pesadas, de último adeus.

"Essas bandas estiveram em um momento da minha vida há muito tempo e eram muitos significativas", disse Langille, o ciclista. "Eu, provavelmente como eles, já passei dos meus dias de glória, mas é uma grande oportunidade de revisitar aquele tempo e aquelas pessoas."

Ao mesmo tempo, estar entre pares "pode ser meio que revigorante", não simplesmente nostálgico, disse. Em shows montados para audiências mais jovens, "pessoas com seus 20 e poucos anos estão nos cumprimentando como se tivéssemos acabado de descobrir o rock", disse Langille. "Isso me deixa maluco." / Tradução de Guilherme Sobota - O Estado de S. Paulo

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