Apple Corps Ltd./Reuters
Apple Corps Ltd./Reuters

Nos seus 50 anos, o clássico 'Álbum Branco' dos Beatles ganha reedição

Com belas melodias, boas poesias e rock autêntico, disco que marcou o fim da banda está de volta remixado

Carlos Oliveira, Especial para o Estado

21 Novembro 2018 | 20h16

Os Beatles não acabaram em Abbey Road, último álbum gravado pela banda, em 1969. Também não acabaram em Let It Be, gravado antes de Abbey Road, mas lançado em 1970. A banda terminou melancolicamente bem antes, durante as gravações de um álbum que nasceu e foi lançado sem nome. O Álbum Branco foi assim batizado pela crítica há meio século, mais exatamente em 22 de novembro de 1968. Ele marcou o fim dos Beatles.

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Nos estúdios de Abbey Road, não estava mais aquela banda de rock que anos antes encantara o mundo com sua alegria e ousadia. Como sombras do que um dia foram, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr fecharam-se em seus egos e produziram uma obra temperada a mau humor, brigas, egoísmo e individualismo. Não mais se suportavam. Mal se falavam.

Mesmo assim, apesar do clima pesado, o conteúdo do álbum duplo reuniu belas melodias (Julia), boas poesias (While My Guitar Gently Weeps), rock autêntico (Back in the USSR), blues (Yer Blues) e o embrião do que viria a ser chamado de heavy metal (Helter Skelter), além de baladas bucólicas (Mother Nature’s Son) e algum experimentalismo (Revolution 9).

Dois LPs e um encarte. Os Beatles acabavam como banda, mas o talento individual de cada um ainda estava lá, preservado e em evolução. Basta ver a carreira solo de George, Paul e John, além a de um acanhado Ringo Starr. Quase como se quisessem se esconder de si mesmos, camuflaram as palavras The Beatles, impressas em corpo pequeno, em relevo branco como o resto da capa e da contracapa da obra. Dentro, dois LPs e um encarte de dupla face: numa, fotos (a maioria individuais) dos músicos; na outra, as letras de 28 canções. 

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Se há uma palavra que possa definir o processo de criação do Álbum Branco, que agora completa 50 anos, melancolia seria a mais adequada. E não sem razão. Pressão demais. Bem no momento em que decidiram buscar alguma orientação espiritual com o guru indiano Maharishi Mahesh Yogi, as coisas pareceram desandar para o grupo. Em 24 de agosto de 1967, partiram para Bangor, no norte do País de Gales, em busca de seus mantras com o tal guru.

Guru morto. Três dias depois, a notícia que mudaria radicalmente a história da banda. Seu empresário Brian Epstein, uma espécie de pai e gerente comercial dos quatro músicos, estava morto aos 32 anos. Causa oficial da morte: “Overdose acidental” de Carbitol, uma droga contra a insônia.

Guru vivo. Mesmo abalados, partiram para a Índia, para um curso de meditação transcendental no asham (algo como escola) de Maharishi, em Rishikesh. No fundo, tentavam, em vão, manter a unidade do grupo. Paul e Ringo logo se desencantaram e voltaram para Londres. John e George (o mais comprometido espiritualmente com o guru) voltaram depois, em meio a rumores de que o indiano teria tentado se aproveitar sexualmente de uma de suas alunas, o que nunca ficou comprovado.

Já na Inglaterra, um novo desafio: criar composições que superassem o sucesso de Sgt. Pepper's, mas com que ânimo? Tinham que resgatar parte dos prejuízos que tiveram com o filme Magical Mistery Tour e encontrar alguém que pudesse cuidar do milionário negócio Beatle. Fundaram a Apple e afundaram de vez. Tentaram fazer o que hoje se chama de um projeto multimídia, mas não souberam administrá-lo.

Cada vez mais ensimesmados, deram-se mais uma chance: reuniram-se no bangalô de George Harrison, em Esher, e gravaram várias fitas demo de suas novas composições, a maioria criada durante o exílio espiritual na Índia. No fundo, as demos de Asher, como passaram a ser chamadas, foram um grande ensaio meramente acústico. Violões em vez de guitarras e um imenso desfile de egos inflados.

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“Paul disse ter composto dezenas de novas canções. George disse que criou seis e eu escrevi 15”, disse um John Lennon soberbo. Seja como for, o embrião de um novo álbum estava pleno de referências do que viram e viveram em Rishikesh (Dear Prudence).

De volta aos estúdios de Abbey Road, mais desavenças. John levou consigo sua nova namorada, Yoko Ono, quebrando um protocolo pétreo: durante as gravações, só os quatro no estúdio. Ao mesmo tempo, John rendia-se à heroína (Happiness Is a Warm Gun).

Resultado: em que pese toda a qualidade musical inegável do Álbum Branco, o fato é que cada músico decidiu isolar-se nos vários espaços de gravações e cuidar das próprias canções. Apenas no registro de Yer Blues os quatro estiveram juntos no mesmo ambiente e portaram-se como uma banda de verdade.

De volta. 50 anos depois, remixado, remoçado e com todas as faixas demo gravadas em Esher, o Álbum Branco está de volta, a provar que o autor do slogan Beatles 4ever é não só um gênio de marketing, mas um profeta.

Do ponto de vista comercial, uma tacada ousada, a um passo do sucesso. O cinquentão Álbum Branco ressurge em várias versões e vários preços, que podem variar de R$ 100 (os dois CDs originais, mais as demos de Esher) a R$ 1.500 (valor ainda estimado). Neste último caso, o material vem em uma caixa de “superluxo” com sete CDs, entre eles um Blu-Ray, e vários encartes. A procura nas lojas e importadoras é intensa.

Para o beatlemaníaco, pouco importa se o Álbum Branco foi uma coletânea de desavenças. Vale, sim, reviver as emoções de 28 músicas que marcaram uma época fadada a ser atual para sempre.

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