ALEX SILVA/ESTADAO
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'Nós não somos o Ministério da Cultura paralelo', diz diretor do Sesc

Danilo Santos Miranda afirma que a questão da área cultural é mais de mudança de comportamento do que de aumento de verbas, rebate a intenção do governo de cortar arrecadação da instituição e adianta as estratégias para 2016

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2015 | 15h35

Danilo Santos Miranda, diretor do Sesc, recebeu a reportagem do Estado para falar da crise econômica que já abate o planejamento da instituição, das estratégias para o 'ano da travessia' de 2016 e de como se sente quando dizem que ele criou uma espécie de 'Ministério da Cultura paralelo'. "Lisonjeado e preocupado ao mesmo tempo".

Quando o nível de desemprego aumenta, como fica o Sesc, que tem como receita uma porcentagem sobre o número de empregados do comércio?

Sim, nós dependemos das empresas, do emprego das pessoas. As empresas nos repassam 1,5% sobre seu número de empregados, trata-se de nossa única fonte efetiva de recursos. Estamos preparados para lidar com a crise até um determinado limite, claro, mas planejamos com segurança. Novas unidades estão em construção, algumas em manutenção, mas vamos ter de rever tudo em função desse quadro do País. 

O governo anunciou que pretende cortar parte desta arrecadação enviada pelas empresas a instituições como o Sesc. Como o senhor reagiu?

Isso é absolutamente nefasto para o País e para nós. A diminuição do ritmo da economia e o desejo do governo de se retirar recursos são dilemas contra os quais lutamos. O primeiro é inevitável, mas o segundo é de uma falta de sensibilidade e de visão incrível. Estão fazendo uma leitura de que somos desimportantes, supérfluos, isso me preocupa muito.

Em seus 31 anos à frente da instituição, já havia visto crise pior?

Eu já vivi momentos tão ou até mais delicados. Claro que é grave, um quadro agravado por opções administrativas e questões éticas, mas eu imagino sempre que seja uma travessia difícil e que vamos passar. E por quê? Porque nós podemos, nossa economia é pulsante e forte, muito mais forte do que o quadro negativo político que a envolve.

O Sesc já está puxando o freio?

Sim, estamos revendo muitas coisas. Estamos quase que eliminando shows com grupos de fora para conter gastos com moeda estrangeira. O fato de o câmbio ter estourado inviabiliza esses shows.

Serão menos shows nacionais também?

Vamos manter na medida do possível dentro do nosso quadro. Se eu tiver que diminuir para poder garantir os empregos - e temos 6.860 mil empregados no Estado - terei que diminuir essa oferta. Não vamos começar a cortar empregos, não temos essa previsão e esperamos não precisar fazê-lo. Tudo vai depender da evolução desse quadro.

Quais riscos corre um país que relega a cultura a planos inferiores?

Sem cultura teremos um país mais intolerante, de menor aceitação ao diferente e com mais dificuldade de entender a evolução natural das coisas. Isso é perigoso, poderemos assistir ao recrudescimento de um certo xenofobismo. E isso não tem a ver apenas com desenvolvimento da economia. Há muitos países ricos em bens materiais e paupérrimos culturalmente. Veja o caso de grandes nações prósperas em petróleo que não têm nem uma sociedade organizada.

Apenas as leis de incentivo como provedoras de cultura não é um modelo frágil? Em época de crise, menos empresas destinam seus recursos aos projetos culturais.

Esse nosso modelo de financiamento é muito estatizado. Creio que as leis de incentivo deveriam cada mais diminuir sua presença no mercado para permitir que o ele mesmo desse conta diretamente, sem precisar de incentivos, reconhecendo que a cultura e a educação desenvolva um país.

Seu nome é sempre lembrado quando se discute a necessidade de um novo ministro de Cultura. A ideia nunca foi tentadora?

No Sesc eu tenho compromissos, sei para quem vou fazer e a quem vou prestar contas. Tenho uma clareza de onde tenho que bater para conseguir as coisas e onde tenho que dizer ‘olha o que nós fizemos’. Não sei se essas condições existem no atual quadro político. O problema da Cultura, para mim, não é de recurso, não é só o dinheiro nem é principalmente o dinheiro. O problema é da centralidade da questão cultural no quadro da administração pública. A questão cultural tem que estar no âmago, como nossa presidente tentou ensaiar ao dizer ‘Brasil, pátria educadora’. Essa ideia da sociedade educadora, envolvida, não é uma questão de investimento, mas de criação de uma mentalidade. E isso significa investimento permanente, não apenas de dinheiro, mas de energia, de atenção, de perspectiva.

O senhor fica lisonjeado ou preocupado quando dizem que criou um ministério paralelo da cultura?

Fico lisonjeado por um lado mas preocupado também. O que nós fazemos não é próprio de um ministério fazer, não somos um ministério paralelo. O Ministério da Cultura tem que abrir caminho, colaborar, buscar recursos, sobretudo fomentar. Essa é a palavra. O ministério tem de fazer diretamente o mínimo possível, não tem que realizar nada. Quem tem que realizar são os corpos vivos da sociedade. O Estado tem que fomentar. Isso não é visão liberal, mas visão prática e objetiva. Porque se eu faço, eu tenho intenções. E intenções são o quê? Prestigiar alguém? Eleger alguém? Ganhar prestígio para alguém? Nós fazemos, mas não com esta perspectiva porque não somos vinculados à administração pública. Se fôssemos, confesso a você que ficaria preocupado como realizador, porque o administrador público nunca está naquele patamar definitivo. Se ele está em um nível ele quer outro e outro nível. Não é nosso caso.

Educação e cultura deixaram de caminhar juntas há um tempo, não?

A educação, para mim, existe em dois grandes campos: a formal, das escolas, indispensável para se formar os especialistas, e a informal, a não regular, que é permanente. Começa quando você abre os olhos e acaba quando fecha os olhos. Algo que inicia na família, passa pela escola, vai para a Igreja, para o clube, para as profissões. A cultura que te faz pensar, te mostra um livro, te mostra uma peça de teatro, te coloca uma música na cabeça, te põe em contato com uma outra realidade que independe de você estar ou não em uma cadeira de escola. É tão importante quanto a educação formal.

E como se sente quando vê um ministério como o da Educação usado para uma manobra partidária, com uma presidente trocando de ministro como se mexesse as peças de um xadrez?

Eu tinha muita esperança na presença do Renato Janine Ribeiro (antecessor do atual, Aloisio Mercadante). Era uma satisfação tê-lo como ministro da Educação, ele acrescentaria muito. Eu não tenho elementos para julgar o Aloisio Mercadante, mas não me agrada a hipótese de que a questão política prevaleça sobre a organização da educação.

A crise não pode pressionar para que a venda de ingressos em bilheterias de shows, que não é objetivo do Sesc, passe a sê-lo?

Nós teríamos que mudar nosso destinatário, aquela pessoa que tem no Sesc a oportunidade de acesso à cultura porque nosso preço é condizente com sua capacidade econômica. E aí vamos perder uma clientela importante que é o trabalhador de baixa renda. Mais de 60% dos matriculados no Sesc ganha até 3 salários mínimos. Se cobrássemos o preço de mercado para repor o investimento não teríamos a mesma clientela.

E até quando, em dias de crise aguda, o senhor acredita que consegue sustentar esta proposta?Não estou pensando no espetáculo, mas na ação social. Só no dia em que o Sesc deixar de receber a contribuição das empresas para fazer o que faz, ele vai desaparecer.

Há shows grandes no Sesc, como os de Gal Costa, Gil, Caetano, Lenine, Emicida. Isso não vai contra a proposta de trazer o artista de talento independente que não tem a mesma estrutura dos consagrados?

No geral, quem se apresenta no Sesc tem o que falar. Você pode contestar uma ou outra atração, mas elas, em geral, têm coisas na cabeça. Quem não tem nada na cabeça não aparece no Sesc. Só que algumas dessas pessoas que transmitem qualidade são midiáticas e ganham uma dimensão forte. E eu tenho que dar oportunidade ao público de ter também os grandes nomes. Eles aparecem uma vez por mês, e agora talvez uma vez a cada dois meses, mas são importantes. Não vou fazer o Gil todo dia, mas vou fazer de maneira a dar acesso aos que não podem vê-lo em outras casas.

Mas há um impacto econômico dentro do Sesc com a vida desses nomes. Um Gil certamente tem um custo que equivale a três ou quatro projetos menores.

Sim, eu  tenho que distribuir bem essa verba, mas isso não significa um investimento altíssimo. O cachê cobrado pelo artista do Sesc não é o mesmo que seria em uma casa de shows.

Muitos produtores que vão tentar vender seus artistas dizem ouvir de programadores do Sesc que um show de Gal ou de Lenine já pegou a verba daquele mês.

Isso é um exagero. Quando negociamos com Caetano, por exemplo, acertamos um pacote. É uma questão de negociação.

Na crise, isso não terá de ser repensado?

Vou ter que medir mais, ver se compensa. Vamos ter que trabalhar com muito mais cuidado.

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