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Nos 180 anos de nascimento, Carlos Gomes será lembrado em evento filme e biografia

Compositor de 'O Guarany' será homenageado na cidade natal, em Campinas; ele nasceu em 11 de julho de 1836

Amilton Pinheiro/ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

11 Julho 2016 | 05h00

A vida e a obra do maior compositor brasileiro de ópera, que se popularizou por O Guarany, se depender de dois projetos, o filme Tonico, Estórias de Carlos Gomes (título provisório), de Ariane Porto, que será rodado em 2017, e a biografia Carlos Gomes Sou e Sempre Serei: O Tonico de Campinas, do historiador campinense Jorge Alves de Lima, que sairá em quatro volumes (o primeiro em setembro, mês dos 120 anos de morte do músico), vão resgatar e fazer justiça em definitivo ao artista, segundo pretendem seus realizadores.

As homenagens começam hoje, 11, na cidade natal do compositor, em Campinas, SP, aproveitando o dia em que se comemora os 180 anos de nascimento do artista (ele nasceu em 11 de julho de 1836 e morreu em 16 de setembro de 1896).

O evento batizado de Tonico 180 será realizado na Praça Bento Quirino, no centro de Campinas, onde se encontra o monumento túmulo do artista, a partir das 10 horas e se estenderá até 17 horas, quando artistas convidados vão lavar o local onde o corpo foi enterrado.

Participará da evento o elenco principal do filme, os atores Lima Duarte e Luiz Carlos Vasconcelos, que farão o compositor na velhice e na maturidade, respectivamente, e Laura Cardoso num papel ficcional de uma mulher que cuidou do artista quando este ficou enfermo por conta de um câncer na língua, em Belém do Pará.

“Vamos reunir, além do Lima, da Laura e do Vasconcelos, artistas e personalidades de diversas áreas, desde o pessoal do hip-hop e do rapper, passando por estudiosos de Carlos Gomes, filósofos, a pianista Sonia Rubinsky e um convidado internacional, o maestro italiano Achille Picci, que é um dos maiores pesquisadores do compositor campinense”, conta a diretora Ariane Porto.

“A vida de Carlos Gomes é repleta de tantos dramas pessoais e episódios monumentais que não caberiam num único livro”, assim revela o seu biógrafo Jorge Alves de Lima. “Passei mais de 20 anos pesquisando a vida desse homem sem precedentes e, nos últimos dois anos, intensifiquei o trabalho. Fui o único historiador campinense a ter acesso aos documentos do artista, que se encontram em arquivos em Belém do Pará. Ao longo dessas mais de duas décadas, juntei tanto material que percebi que não teria como contar toda a trajetória dele em apenas um volume. Espero poder fazer jus ao maior vulto artístico da música das Américas do século 19”, ressaltou também.

Carlos Gomes ganhou notoriedade e reconhecimento, em Milão, na Itália, onde foi estudar por conta de uma bolsa concebida pelo imperador d. Pedro II, na segunda metade do século 19. Esse feito ganha mais importância e expressividade por ter sido realizado por um artista nascido fora da Europa, filho de pai negro (seu Maneco Músico) e mãe, Fabiana Jaguari Gomes, possivelmente descendente de índios, e em plena era de ouro da ópera dominada por Giuseppe Verdi, com quem teve uma relação protocolar.

Ironicamente, a mesma Itália que deu tantas alegrias, louros e dinheiro ao compositor lhe cobrou também um alto preço. Ele se casou com a pianista italiana Adelina Peri, com quem teve cinco filhos, e três deles morreram no país quando ainda eram criança. O casal se separou alguns anos depois.

Grande parte do dinheiro que ganhou foi investida numa vila na cidade de Lecco, que foi desapropriada pelo governo local para construção de um ferrovia, que nunca chegou a lhe pagar a indenização, o que fragilizou ainda mais a sua situação financeira já combalida pela doença dos filhos. “Foi um homem de enorme talento, mas de pouca habilidade para lidar com a vida prática. Era intempestivo e solitário”, diz o biógrafo.

Um recital em Milão homenageou a liberdade 

Em terras bem distantes, o imperador d. Pedro II e o músico saudariam a abolição da escravidão no Brasil 

Em 8 de maio de 1888, cinco dias antes da Lei Áurea, que seria assinada pela princesa regente Isabel, dando fim à escravidão no Brasil, o imperador d. Pedro II estava na Europa, especificamente em Milão, para tratamento de saúde. 

O imperador estava hospedado no Grande Hotel de Milão e se sentia melhor depois de começar um tratamento para pleurite seca, diagnosticada quando estava em solo europeu. Naquela noite, no salão nobre do hotel, seria realizado um recital em homenagem aos compositores brasileiros Carlos Gomes e seu amigo paraense Gama Malcher. 

No programa, peças dos dois músicos e de outros autores, como Verdi. Carlos Gomes tocou ao piano e apresentou uma ária da sua ópera ainda inédita O Escravo (Lo Schiavo), que tocava na questão da escravidão, assim como a ária Bug-Jargal de Malcher.

“Antes de o recital começar, d. Pedro II foi dar um abraço em Carlos Gomes e lhe confidenciou o que aconteceria no Brasil em 13 de maio de 1888”, contou o biógrafo Jorge Alves de Lima. O imperador disse ao compositor: “Carlos, daqui a cinco dias minha filha Isabel vai assinar a Lei Áurea, dando fim a uma das páginas mais tristes e nefastas da nossa História, a escravidão”. “Carlos subiu ao palco mais feliz ao saber que, finalmente, o seu país aboliria a escravidão”, revela ainda Alves de Lima. 

Esse episódio estará num dos volumes da biografia de Carlos Gomes, que também trará o documento inédito do programa do recital, que pertenceu ao arquivo remanescente de Gama Malcher e foi cedido ao autor pelo prof. Clóvis Silva de Moraes Rego. 

“O imperador ficou muito comovido com a ária de O Escravo, talvez tocado pelo que aconteceria no Brasil dias depois. Naquela noite, nosso imperador e Carlos Gomes, que era filho de negro e amigo de outro negro, o engenheiro André Rebouças, homenagearam a liberdade.”

 

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