Nokia Trends: o mais organizado festival da temporada

Chovia torrencialmente lá fora, mas lá dentro estava tudo na santa paz. Nem lama, nem treta, nem incidente policial, nem ocorrência médica. Os banheiros eram cheirosos e tinha para todo mundo, e havia lugar para sentar e nenhuma fila nos bares. As bandas entravam no horário marcado, saíam na hora certa. What? Estávamos na Suíça? Com cerca de 11 horas ininterruptas de música, 14 atrações nos palcos, 12 mil pessoas se divertiram noite adentro do sábado e madrugada afora do domingo como no Primeiro Mundo, no mais organizado e bem-estruturado festival de música de 2006, o Nokia Trends. O festival começou às 21 horas, bem na hora em que as Marginais do Rio Tietê e do Rio Pinheiros tinham vários pontos de alagamento e o caos parecia que ia tornar aquela jornada de rock e eletrônica um suplício para os fãs. Mas, com 90% de sua área coberta por uma imensa tenda, o Anhembi nem parecia o velho Anhembi infestado de problemas acústicos e onde o povo fazia xixi em qualquer mureta, deixando o ar irrespirável - tá certo que é preciso dar um jeito no povo fumante, que desrespeita orgulhosamente os princípios mais básicos da convivência e também a lei, já que é proibido fumar em recintos fechados. Também não havia confronto, os pit boys de sempre parece que ficaram com medo da chuva e, como o espaço era amplo, ninguém se estranhou irremediavelmente. Diferente, por exemplo, de muitos eventos no Rio de Janeiro, onde as ´tretas´ parece que se tornaram regra. Boas escolhas O outro dado bacana, que contribuiu para que o Nokia Trends seja colocado como o mais organizado festival do ano, foi o line-up, a escalação das bandas. Como eram todas muito novas, a maior parte nem tinha disco lançado no Brasil, o entusiasmo deles foi contagiante. Improvisaram, tocaram juntos em alguns momentos (como os garotos do Hot Hot Heat e do We Are Scientists), tiraram uma onda e demonstraram tudo, menos tédio. Shows recentes, como o do Black Eyed Peas, no mesmo lugar, cobravam preços muito mais altos do que o Nokia Trends, tinham uma lotação muito maior e ainda cometeram a heresia de colocar, à frente do público massivo, uma área VIP que praticamente inviabilizava a vista dos fãs mais devotados. Democratizar o entretenimento nas grandes cidades brasileiras é algo urgente, tem a ver com a diminuição da violência, com igualdade de lazer e de oportunidades. As escolhas dos grupos do festival 2006 também foram felizes. Em meio de bandas que se projetam com um som retrô, oitentista, como Bravery e Hot Hot Heat (muito divertidas para os ouvidos, pelo festival de referências que aparece em cada faixa), havia também o caminho inverso, representado pelo Soulwax e pelos 2 Many DJ´s - os primeiros representam o lado orgânico do rock permeado pela dance music, e os segundos fazem música para dançar com os pressupostos do rock. Mais rock A diferença desse Nokia Trends para o do ano passado foi que o rock prevaleceu sobre a eletrônica. Em 2005, o tecnopop histórico do Human League conviveu com o eletrodub do Audiobullys e o eletropunk do Chik Chik Chik. A curadoria parece recorrer ao mainstream apenas quando é necessário para estabelecer conexões com o que se faz de mais moderno atualmente, o que é um ponto de partida. Este ano, acabou se destacando uma banda que é um power trio à moda antiga, e que faz um barulho dos infernos: We Are Scientists. Com um baixista insano, que parece recém-saído de uma daquelas fotos dos anos 70 em que apareciam os seqüestradores do embaixador Charles Elbrick, mais um frontman que aprendeu as melhores lições do punk rock e do velho rockabilly, Keith Murray, o grupo deixou suas melhores credenciais para o público brasileiro. The Bravery é uma banda playcenter total. Divertida, francamente hit parade, o grupo encabeçado por Sam Endicott fez a farra da moçada com aquelas canções que, de todas as atrações, são as mais conhecidas do povo: Unconditional, Fearless, Tyrant. Endicott, como seus colegas fizeram anteriormente, jogou-se no chão, cantou de barriga para cima, pulou sobre as caixas de som e fez a noite valer a pena - as fãs mais afoitas, que o conheciam com o topetão rockabilly, estranharam o cabelo encaracolado e com uns mullets esquisitos, que lembrava aqueles personagens malandros de Chico Anysio.

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