Noca da Portela faz 51anos de carreira

Se o samba de raiz está na crista da onda o compositor Noca da Portela é o melhor exemplo dessa boa faseda nossa música popular. Ele completou 51 anos de carreira eestá na crista da onda. Em outubro, lotou o Mistura Fina, palcocarioca dedicado à música instrumental e ao pop sofisticado, e oTeatro Rival. Em janeiro deve inaugurar a própria casa, o EspaçoCultural Casa de Noca, no Engenho de Dentro, na zona norte doRio, ao lado de sua residência, e prepara disco ao vivo com aparticipação dos amigos que fez em meio século de atividade. "O samba é assim mesmo. A mídia nunca deu bola e ficainventando modismos que estouram durante um tempo e depoispassam. Entre uma onda e outra, o povo volta para o samba que éa música de que todo mundo gosta", filosofa ele. "Dá paraviver de samba, mas sem luxo. Eu, por exemplo, tenho umas 300músicas gravadas e, se fosse americano, seria muito rico, moravanum palacete e não precisava fazer mais nada na vida. Como soubrasileiro, preciso estar mostrando o tempo todo o que sei." Não que Noca reclame, porque o que ele gosta é de estarnum palco, cantando seus sambas e recebendo os amigos. É essa aidéia básica do Espaço Cultural Noca da Portela que ele sonhater há muitos anos. Informalmente, já recebe os amigos emlendárias feijoadas produzidas por sua mulher, Conceição, emcasa. Não é um palacete, mas quem vai volta sempre porque acomida é de primeira, a cerveja gelada é farta e o samba rolaaté de manhã. Aparece gente de toda idade, sambistas antigos ecandidatos a tal, que têm um espaço generoso para mostrar novasmúsicas ou soltar a voz nas antigas. "Gosto de conviver e chamar os amigos, jovens ou não,para cantar comigo. Acho que essa é uma obrigação de quem já temespaço. Sou da geração que aprendeu com Cartola, Geraldo Pereirae Zé Keti e tenho de passar o que sei para quem está chegando.Por isso é que o Espaço Cultural Noca da Portela terá salas deaulas para a criançada da região na ficar na rua", avisa Noca,que não vai ficar só em Engenho de Dentro. "Reativei a sérieEncontros Cariocas, que eu fazia no início dos anos 90. É sempreàs segundas-feiras, na Casa de Mãe Joana, que agora reabriu nocentro da cidade. Naquela época, iam mais de 300 pessoas ouvir amim e a meus convidados, sempre gente de primeira qualidade." Fora do Rio, Noca também tem um público grande. Eleconta que se apresentou para mais de 2 mil pessoas em Brasília,numa casa chamada Feitiço Mineiro, e repetiu a dose no Consuladodo Chope, em São Paulo. "Até em Manaus tinha gente saindo peloladrão, quando fiz show lá", comemora o compositor. "Elesgostam de ouvir músicas novas, mas não posso deixar de cantar ÉPreciso muito Amor, Celular, Caciqueando e outras. Se eunão canto, o público puxa essas músicas." A escola que lhe emprestou o nome vai ficar sem sambaseu em 2002, porque ele não se classificou, mas Noca não chora oleite derramado. Afinal, das 11 vezes que concorreu na Portela,venceu seis. E olha que ele só foi parar em Oswaldo Cruz, bairroonde fica a escola azul e branco levado por Paulinho da Viola."Foi em 1965. Eu era fundador da Paraíso do Tuiuti, que existeaté hoje, e o Paulinho estava cheio de moral porque tinha feitoo samba Memórias de um Sargento de Milícias e a escola tinhavencido. Ele me apresentou ao Natal que me levou para o TrioABC", lembra. "Aí virei profissional, depois de ter sidotipógrafo, feirante e várias outras coisa." Para a escola, fez um dos hinos mais cantados até hoje,Portela Querida, mas hoje Noca faz samba também para osmuitos blocos que desfilam pelas ruas do Rio no carnaval. "Euadoro, porque é música feita sem compromisso, com os amigos nosbares, gente que nem sempre vive de música, mas gosta de samba" diz Noca. "O bloco é o curso primário para o sambista. Quemquer compor pode começar aí e já vi muita gente boa experimentaro gostinho de ver tudo mundo cantando seu samba e não largarmais. A escola de samba é a universidade e os pagodes, após-graduação, para quem quiser aprender o samba."

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