Nóbrega e os três universos da tradição

Em Lunário Perpétuo, o disco,Antonio Nóbrega enfrentou o que chama de seus três universos deinteresse e trabalho: o romanceiro tradicional (por exemplo, umaExcelência, abecedário dedicado à Virgem Maria, recriado porAriano Suassuna e com música da tradição popular), oinstrumental da rabeca (instrumento aparentado do violino, defabricação mais tosca e comum na tradição de cantos diversos doBrasil) e a canção com base na forma e no modelo da culturapopular. Bom exemplo deste último enfrentamento é O Rei e oPalhaço, música de Nóbrega e letra do também pernambucanoBráulio Tavares (parceiro mais constante de outro conterrâneo,Lenine), quatro estrofes de dez versos de sete sílabas. "Essetipo de estrofe é utilizado tanto pelos cantadores, em seusrepentes, quanto pelos Mestres de Maracatu-de-Orquestra, tambémconhecido por Maracatu-Rural, em seus torneios poéticos", comoensina o texto do encarte, sob a letra. Cada uma das 15 músicas vem acompanhada de texto que asitua no universo da tradição da cultura popular nordestina emesmo no contexto da obra de Nóbrega - o instrumental PonteioAcutilado, escrito para rabeca, fica-se sabendo, foi aprimeira música composta por ele para o Quinteto Armorial,inspirado num toque da Banda Cabaçal, ou terno de pífanos dosirmãos Aniceto. "Até que eu fosse convidado, em 1972, por ArianoSuassuna, a participar do Quinteto Armorial, eu era mais ummenino de classe média, filho de médicos, com formação musical edestinado a ser também médico ou a abraçar profissão liberalequivalente", conta Nóbrega. Conhecia nada de cultura popular.Ouvia no rádio o que o rádio tocava - de Beatles a RobertoCarlos - e isso para ele era a música. O Quinteto abriu-lhe o brilho de outro mundo: "E foital a paixão com que tomei a cultura popular - ou fui tomado porela - que ela desde então respalda todo o meu trabalho", diz."E tudo o que faço tem vínculo estreitíssimo com o que falavaAriano sobre o armorialismo, sobre a construção de uma linguagemartística baseada na nossa tradição" - os ensaios do Quintetoeram realizados na casa de Ariano e, lá, os jovens armorialistasdo grupo musical conheceram e ouviram os amigos do mestre: JoãoCâmara, Marcos Accioly, Francisco Brennand. "Por essas influências, fiquei no caminho contrário:tivessem ou não existido os Beatles e os Rolling Stones, meutrabalho seria o que é", afirma. "E o meu trabalho é otestemunho de que havia, há, outros caminhos, para um músicojovem, além dos ditados pela indústria; com tal encanto aquelacultura se mostrou para mim que a abracei com imenso gosto",recorda. "É claro que havia dificuldades em mostrar às pessoasesse caminho escolhido, que não era a primeira escolha daspessoas da geração" - mas isso não importou. Influência - Antonio Nóbrega tornou-se uma espécie defarol cultural e sua influência crescente que, para indicarcaminhos, aponta o que lhe foi ensinado. O lançamento do CD (defato um livro-disco, com 112 páginas) Cantares, daseptuagenária Dona Militana, é caso típico. Os romances que elacanta são reminescentes das gestas francesas, com pelo menos 600anos de existência, que atravessaram os Pirineus, passaram a serchamadas de romances e chegaram ao Brasil via Península Ibérica.Espantosamente, Dona Militana guarda na memória, pela tradiçãooral, uma centena das histórias que são também nossa história.Serviço Lunário Perpétuo. De Antonio Nóbrega. Participação especial deDona Militana (de 12 a 14/7) e de Cego Oliveira (de 18 a 21). Dequinta a sábado, às 21 horas; e domingo, às 18 horas. R$ 10,00(estudantes), R$ 15,00 e R$ 20,00.Aula-espetáculo com Ariano Suassuna. Sexta, às 17 horas. Entradafranca para trabalhadores do com. e serv. matric., R$ 2,50(estudantes) e R$ 5,00. Palestras: ´O Movimento Armorial´, comIdelette Muzart (13/7); e ´A Rabeca e o Violino´, com SauloDantas-Barreto (20/7). Sábado, às 18 horas. Entrada franca paratrabalhadores do com. e serv. matric., R$ 2,50 (estudantes) e R$5,00. Exposição dos 30 anos de carreira do artista, cominstalação de Evelyne Borges, pinturas de Dantas Suassuna,rabecas de Saulo Dantas-Barreto e fotos de Candinha Bezerra. Deterça a sábado, das 9 às 20 horas; e domingo, das 9 horas às 17horas. Entrada franca. Paralelo ao evento haverá lançamento dolivro ´Ariano Suassuna, O Cabreiro Tresmalhado´, de MariaAparecida Lopes Nogueira (Editora Palas Athena, 296 páginas, R$30,00). Sexta, a partir das 17 horas. Sesc Pompéia. Rua Clélia,93, tel. (11) 3871-7700. Até 21/7. Patrocínio: Philips

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