Moutaillier Jack/Divulgação
Moutaillier Jack/Divulgação

No vale dos imortais

Chorão e Alvin Lee partiram na mesma semana. Só o tempo dirá quem é mais forte do que a morte

Julio Maria - O Estado de S.Paulo,

09 de março de 2013 | 07h00

A morte precisa de um tempo. Seu trabalho é lento e leva de sete a dez anos para concluir um projeto de eternidade. Não adianta se apressar. Seu veredicto separa os ordinários dos extraordinários e mostra quais fizeram história de fato, quais deixaram seguidores, quais foram mais fortes do que a própria morte.

A moça trabalhou pesado nesta semana. Em dois dias, ceifou a vida de dois candidatos a um pódio de destaque no além. Do rock brasileiro dos anos 90, Chorão, o roqueiro que movia massas de fãs com um simples comando, partiu jovem, aos 42 anos, provavelmente vítima de um consumo de drogas incontrolável. Um dia depois e, com muito mais discrição, se foi o guitarrista Alvin Lee, 68 anos, um fenômeno que se tornou referência desde que tocou no festival de Woodstock, em 1969, com sua banda, o Ten Years After. Lee, que pouca gente sabe quem é, ganhou poucas ou nenhuma linha nos jornais. Além de sua baixa popularidade no Brasil, sua morte não ‘teve graça’. Foi vítima de complicações de uma "cirurgia de rotina", como informaram suas filhas.

Chorão foi comparado por admiradores mais afoitos a Renato Russo e Cazuza. Para eles, não resta dúvidas. A música perdeu um grande poeta e um grande cantor. As redes sociais se encheram de discussões de fãs fanáticos contra fãs nem tão fãs assim. Os primeiros, bem ao estilo Chorão, desancavam os segundos, que pediam cautela a quem colocava o roqueiro nas alturas.

Chorão teve sua importância, mas chamá-lo de gênio é o cúmulo de uma hipocrisia que ele mesmo detestava. Não fazia grandes letras nem era um primor de cantor. Tinha a seu favor a identificação imediata com um jovem da periferia, office-boy, skatista, rapper, que via Chorão como quem olha no espelho. O linguajar, as roupas, a música - tudo era familiar demais para ser ignorado. O formato da morte que lhe surgiu pode ser um impulso ao estrelato no além.

Elis Regina, jovem e vigorosa, foi encontrada morta em seu apartamento. Os exames indicaram a ingestão de álcool com cocaína. A morte precoce reforçou a idolatria a uma personalidade que já era cultuada em vida. Sua imortalidade não precisava de uma catástrofe para existir.

Os Mamonas Assassinas também partiram em tragédia, quando os integrantes foram vítimas de um acidente aéreo em 1996, no auge de suas carreiras. Nem por isso viraram mitos. São lembrados com carinho, mas seus discos não são objetos de culto e eles não ganham novos fãs a cada ano.

Chorão será uma lembrança de atitude, não de qualidade. Editoras devem estar atrás de alguém que escreva sua biografia em tempo recorde. No futuro próximo, sua história pode até virar filme. Mas nem isso deve colocá-lo ao lado de Renato Russo ou Cazuza. Ídolos são feitos de algo a mais do que polêmica e atitude.

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