JF Diorio
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No Rock in Rio, Elton John e Rod Stewart fazem a noite dos hitmakers

Mesmo com o rock nas veias, Elton John, que participou do evento em 2011, e Rod Stewart, em 1985, chegam ao festival adocicados

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2015 | 07h00

RIO - Reginaldo e Roderick. Seriam bons nomes para uma dupla sertaneja saída dos campos do interior da Inglaterra se o primeiro não tivesse tido a inspiração para tornar-se Elton John e, o segundo, a iluminação que o fez virar Rod Stewart. Reg e Rod saíram das mesmas costelas proeminentes do rock and roll inglês dos anos 1970, ambos com a crueza que a era permitia, e aos poucos foram se tornando curiosamente, e ao mesmo tempo, baladeiros.

Por isso, este domingo não é dia de rock, mas de pop. O Palco Mundo terá como atração maior, a partir da meia-noite, Rod Stewart. Rod veio ao primeiro Rock in Rio, em 1985, e ficou com lembranças eternas de sua passagem pelo Rio de Janeiro. Elton John, que canta antes dele, a partir das 21h, também poderia fechar a noite, mas pesa contra ele o fato de já ter marcado presença na edição de 2011 (não que esta seja uma regra, já que o Metallica sempre volta e sempre fecha as noites de metal).

As memórias de Rod Stewart foram parar em sua autobiografia, lançada em 2013 no Brasil, para o choque de muitos fãs. Sem medir consequências, ele fala de como e em quais entradas de seu corpo injetava cocaína sem cerimônia durante os anos 1970 e 1980. E, de Brasil, reserva quase duas páginas referindo-se ao Rock in Rio. Rod se lembra que o festival era “muito organizado” (não é o que todos os que estiveram por lá dizem), que os fãs eram enlouquecidos e que a cocaína era vendida em baldes. Esta é uma história que só tem o músico de ascendência escocesa como testemunha. Cocaína havia, mas em baldes pode ter sido uma licença poética.

Quando chegam os anos 1980, tanto para Rod quando para Elton, a acidez vai ganhando salpicadas de açúcar até que suas produções cheguem ao limite suportável do pop. A sonoridade clássica que os tornaria objeto de colecionador nos anos 2000 ganha massas de guitarras sobrepostas e teclados e uma nova era é inaugurada. Até que, para sorte dos fãs, os anos 2000 começam a revisitar suas histórias (Elton também ganha em 2012 uma biografia escrita por David Buckley). O pianista tem sido generoso em suas últimas aparições no Brasil. Toca seus hits de baile, como Your Song (quem teria coragem de apedrejar uma canção como essa?), Rocket Man, Daniel e Goodbye Yellow Brick Road, todas inquestionavelmente invencíveis pelo tempo, mas também inclui Levon, Tiny Dancer e sempre alguma outra surpresa retirada sobretudo de discos que criaram sua sonoridade.

Elton traz uma banda que o acompanha desde 1969, quando seus cabelos ainda eram naturais e sua voz não havia ganho corpo nos graves. Quando empilhava discos como Empty Sky (1969), Elton John (1970), Tumbleweed Connection (1970), Madman Across the Water (1971), Honky Château (1972). Apenas ele e Paul McCartney podem fazer cinco shows pop de duas horas sem repetir nenhuma canção. É um dos últimos exemplares de uma raça chamada hitmaker.

Curioso como a água que esses galegos bebem tem feito bem a suas saúdes. Pense nas grandes estrelas com mais de 70 anos que permanecem nos palcos do mundo e elas serão todas de algum canto daquela ponta de terra que parece sempre prestes a escapulir da Europa. Roger Waters, Paul McCartney, Ringo Starr, The Who, Mick Jagger, Keith Richards, Jeff Beck, Elton John e Rod Stewart. Rod começou ao lado do guitarrista Jeff Beck, uma experiência de traumas nunca resolvidos, até logo depois começar a se dar muito melhor com os caras do Faces, que teve o guitarrista e espécie de irmão gêmeo Ron Wood, o mesmo que Mick Jagger, mais tarde, levaria para os Stones.

Os anos tornaram Rod bastante fanfarrão. Ele brinca com a plateia enquanto canta canções ultrapops, como Sailing, Baby Jane, You’re in My Heart e Forever Young. E, quando parece que finalmente vai começar a trabalhar duro, chama para o palco sobretudo mulheres bonitas para que elas participem de seu show. Algo que Elton jamais faria.

A noite dos ingleses saudosos terá, antes ainda, a apresentação do cantor norte-americano John Legend, o primeiro a ser divulgado nesta edição 2015. Legend, apesar de pianista como Elton, vem de outro tronco. Suas canções flutuam em outra atmosfera, de menos certezas entre o triste e o eufórico. Faz o que se convencionou chamar de novo R&B, estudado, quase acadêmico, que passa por uma das vozes mais presenteadas em timbre de sua geração.

O Palco Sunset de hoje vive em outro mundo. A banda Magic!, que faz um reggae pop canadense, não condiz com o espaço sempre mais acolhedor de criações menos óbvias. Depois cantam Baby do Brasil e o ex-marido Pepeu Gomes, rompendo um hiato de 30 anos sem se apresentarem juntos, com intermediação do filho guitarrista Pedro Baby. E a cantora Alice Caymmi, neta de Dorival, cada vez mais sedimentada em sua carreira, faz um encontro com o arranjador e pianista Eumir Deodato, um tubarão na água doce (na sexta foi o pianista João Donato tocando no mesmo festival de Queen, um grato sinal de democracia dos tempos).

O palco da música eletrônica, na verdade, uma tenda, terá como estrela maior Gui Boratto, enquanto a Rock Street, um mimo criado em 2011 para dar oxigênio ao público que não queria saber das outras programações dos grandes palcos, vai contar com o saxofonista Rodrigo Shá. 

O Rock in Rio quer reforçar o conceito que sustenta sozinho entre outros festivais do País. Não é pelos shows que o projeto quer ser lembrado, mas pelo entretenimento de parque de diversões que oferece. Em recente entrevista ao Estado, Medina falou que, aos poucos, quer que o conjunto da obra fale mais alto do que a atração maior que ocupar os palcos. Ele diz que, a cada ano, a surpresa de uma atração inédita fica mais difícil, já que não existem no mundo mais do que 25 bandas capazes de encher uma praça de shows para 85 mil pessoas.

Seus planos incluem aumentar a Cidade do Rock, para que ela passe a receber dos atuais 85 mil para 120 mil pessoas. “Mas não tenho prazo para isso acontecer. Eu teria que fazê-la em outro lugar”, acrescenta. E descarta definitivamente a ideia de tornar o Rock in Rio um projeto anual. “Ele tem que ser assim, como a Copa do Mundo. Senão banaliza.”

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